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Afastamentos por saúde batem recorde e pressionam empresas

Alta histórica de licenças expõe crise de saúde mental no trabalho e obriga organizações a integrar riscos psicossociais ao cumprimento da nova NR-1

Afastamentos por saúde batem recorde e pressionam empresas (Foto: Freepik )

247 - O Brasil vive um momento crítico no ambiente corporativo, marcado pelo aumento expressivo dos afastamentos do trabalho por motivos de saúde. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que quase meio milhão de trabalhadores precisaram se distanciar de suas atividades, estabelecendo o maior patamar da última década. Ao todo, foram registrados 472.328 afastamentos, número que representa um crescimento de 68% em relação ao balanço anual anterior e acende um alerta para empresas e gestores.

Levantamento citado pela CNN Brasil, com base em relatório global interno da Fearless Organization, mostra que entre 40% e 45% dos entrevistados apontam a hierarquia rígida e a baixa confiança na gestão como barreiras centrais para que profissionais se sintam seguros em expor opiniões, dificuldades ou problemas no ambiente de trabalho. O estudo também revela que a média de segurança psicológica no Brasil varia entre 6,2 e 6,8 em uma escala de 0 a 10, abaixo da média global de 7,1.

Esse contexto de fragilidade emocional tem reflexos diretos na sustentabilidade dos negócios. O recorde de afastamentos amplia os custos com rotatividade de pessoal, gera instabilidade operacional e compromete resultados. Além das despesas com substituições e treinamentos, as organizações enfrentam queda de produtividade e riscos à reputação institucional. Diante desse cenário, cresce a urgência de incorporar a saúde mental e emocional à gestão corporativa, especialmente a partir das exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).

Para se adequar às novas diretrizes, as empresas têm prazo até 25 de maio de 2026 para regularizar seus processos e políticas internas, sob pena de sanções e passivos trabalhistas.

A nova NR-1 e o gerenciamento de riscos psicossociais

A atualização da NR-1 elevou o nível de responsabilidade das companhias ao tornar obrigatória a inclusão da saúde mental e emocional no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, isso impõe ao RH e à alta liderança o dever de identificar fatores muitas vezes invisíveis, como metas excessivas, sobrecarga contínua de trabalho e isolamento social no cotidiano profissional.

Ao integrar a saúde mental à norma, a NR-1 passa a funcionar como uma ferramenta de diagnóstico organizacional. Ela permite avaliar se a própria estrutura da empresa contribui para o adoecimento dos colaboradores. Sem mecanismos adequados de escuta e prevenção, esses riscos tendem a permanecer ocultos até se transformarem em afastamentos registrados por códigos do CID ou em disputas judiciais de alto custo.

Diferença entre denúncia e acolhimento

Um dos principais desafios das organizações é separar corretamente os fluxos de denúncia de irregularidades e de acolhimento emocional. Embora ambos sejam essenciais, possuem naturezas distintas.

A denúncia de irregularidade envolve desvios de conduta, como fraudes ou assédio moral, e exige apuração formal e eventual aplicação de sanções. Já o acolhimento emocional tem como foco o suporte ao colaborador em sofrimento, buscando preservar sua saúde e promover ajustes no ambiente de trabalho. Para atender plenamente à NR-1, a empresa precisa oferecer caminhos claros e seguros para as duas situações, assegurando que o trabalhador saiba onde buscar ajuda sem receio de retaliações.

O papel estratégico do canal de ética

Especialistas do Canal de Ética, empresa especializada em canais de denúncia corporativos, defendem que a adoção de um canal externo representa uma alternativa mais consistente para monitorar o clima organizacional. A neutralidade do serviço contribui para quebrar o silêncio e encorajar profissionais que se sentem intimidados a relatar riscos psicossociais e problemas estruturais.

Segundo esses especialistas, o canal funciona como um apoio estratégico à alta direção ao realizar a triagem técnica dos relatos recebidos. Esse processo diferencia o que configura infração ao código de conduta do que representa risco à saúde mental, permitindo que o RH receba informações organizadas e confiáveis para a tomada de decisão.

Dados, prevenção e conformidade legal

A utilização de canais especializados contribui diretamente para o cumprimento dos três pilares centrais da NR-1: a identificação precoce de comportamentos nocivos, a avaliação da gravidade e da recorrência dos riscos e o controle por meio de medidas preventivas antes que os problemas se agravem.

Nesse novo cenário regulatório, a segurança psicológica deixa de ser apenas uma iniciativa de bem-estar e passa a ser reconhecida como um ativo estratégico. Empresas que negligenciam essa dimensão ficam mais vulneráveis a sanções legais e à perda de talentos para concorrentes que priorizam ambientes mais saudáveis.

Ao estimular a escuta ativa e substituir a cultura do silenciamento por práticas estruturadas de acolhimento e prevenção, as organizações não apenas atendem às exigências legais, mas também constroem bases mais sólidas para um futuro corporativo sustentável e resiliente.