Artesanato indígena fortalece identidade e amplia renda
Atuação do Sebrae impulsiona mercados, valoriza saberes ancestrais e amplia presença digital de mais de 15 mil artesãos de povos tradicionais no Brasil
247 - O artesanato produzido por povos originários e comunidades tradicionais no Brasil vai além do valor estético: ele reúne história, memória e conhecimentos transmitidos entre gerações. Essas produções, feitas com matérias-primas locais, representam não apenas expressão cultural, mas também uma alternativa sustentável de geração de renda. As informações são da Agência Sebrae de Notícias (ASN).
De acordo com dados do Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), mais de 15,2 mil artesãos de povos e comunidades tradicionais estão cadastrados no país. Desse total, 78,5% são indígenas, com predominância feminina: mulheres representam 70,8% dos profissionais registrados, evidenciando seu papel central na preservação e difusão desses saberes.
Nesse contexto, o Sebrae tem ampliado sua atuação junto a esses grupos, priorizando a escuta das realidades locais e o fortalecimento dos artesãos como guardiões de conhecimentos ancestrais. Além do valor simbólico, o artesanato desempenha função estratégica ao impulsionar a economia local, promovendo sustentabilidade, identidade territorial e inclusão produtiva, sobretudo em regiões marcadas pela informalidade e pelo acesso limitado a mercados.
Entre as principais expressões do artesanato indígena estão a cestaria, a cerâmica, a arte plumária, além de máscaras e pinturas corporais, elementos fundamentais em rituais e celebrações. Segundo Durceline Mascêne, gestora de Artesanato do Sebrae Nacional, o trabalho da instituição vai além da capacitação técnica. “Nosso papel envolve orientação para formalização, capacitação em gestão, acesso a mercado e, principalmente, o reconhecimento desses artesãos e mestres como guardiões de saberes ancestrais”, afirma.
A valorização da identidade cultural também é vista como diferencial competitivo. “Valorizamos a identidade, a memória e a qualidade da peça como diferencial competitivo”, destaca Durceline. A estratégia inclui ainda o incentivo à presença digital, respeitando as particularidades culturais de cada território. “A lógica do mercado, inclusive o digital, precisa ser construída de forma gradual. A formalização não pode ser uma imposição, mas um caminho desejado para acesso a crédito, mercado e maior renda”, explica.
Programas como o Bem Digital começam com o uso estratégico do WhatsApp e avançam para redes sociais e marketplaces, com apoio de jovens e familiares que atuam como ponte entre os saberes tradicionais e as ferramentas contemporâneas de comercialização.
Um exemplo de integração entre tradição e empreendedorismo é o do mestre Espedito Seleiro, do Cariri cearense. Aos 83 anos, ele preserva a arte do couro herdada da família de vaqueiros nordestinos. Seu trabalho, reconhecido no Brasil e no exterior, inclui selas, gibões, sandálias, bolsas e peças de mobiliário. Com o apoio do Sebrae, o artesão passou a enxergar seu ofício também como negócio, ampliando sua presença no mercado e conquistando maior visibilidade, como ao vestir a cantora Anitta em uma apresentação de São João.
Na região amazônica, em Rio Preto da Eva (AM), a artesã Patrícia de Souza lidera grupos do povo Baniwa formados majoritariamente por mulheres. Elas utilizam a fibra do Arumã na produção de cestarias, luminárias e utensílios com grafismos inspirados em pinturas corporais tradicionais. A produção é acompanhada por programas do Sebrae e comercializada por meio da marca Arte Baniwa, criada em parceria com organizações indígenas e socioambientais.
Patrícia também destaca a importância da preservação cultural, herdada de sua avó, Lucinda Emilio dos Santos, indígena Baniwa que completará 103 anos em 2026. “Minha avó aprendeu a fazer artesanato ainda jovem, com a família, e nunca deixou essa prática se perder, mesmo quando não era valorizada. Hoje, ver a cestaria Baniwa reconhecida fora da nossa comunidade nos deixa muito felizes, porque mostramos a nossa cultura e a história do nosso povo para o mundo”, afirma.