Brasil entra na corrida da proteína do futuro com inovação à base de fungos
Com produção em 24 horas e baixo impacto ambiental, Typcal quer levar ao mercado global um novo ingrediente que combina proteína, fibra e sustentabilidade
Beatriz Bevilaqua, 247 - Uma nova geração de alimentos começa a ganhar forma longe das lavouras tradicionais e dos rebanhos. Em vez de depender de meses de cultivo ou criação, uma startup brasileira aposta em um organismo quase invisível, mas já presente no nosso dia a dia para produzir proteína em escala industrial: o micélio, estrutura dos fungos.
À frente dessa proposta está a Typcal, foodtech que desenvolveu um processo biotecnológico capaz de transformar micélio em um ingrediente versátil, nutritivo e sustentável. A ambição é alta: reposicionar a forma como a indústria alimentícia produz proteína e, ao mesmo tempo, responder às pressões crescentes por sistemas alimentares mais eficientes.
Apesar de ainda causar estranhamento em parte do público, o consumo de fungos está longe de ser novidade. Pelo contrário, ele já faz parte da rotina alimentar há gerações, ainda que muitas pessoas não percebam.
“Quando falamos de proteína de fungo, no nosso inconsciente às vezes vem a ideia de algo estragado, mas é exatamente o oposto. O mundo dos fungos é cheio de super nutrientes”, explica Paulo Ibri, CEO da Typcal.
Ele recorre a exemplos simples para aproximar o conceito do cotidiano. “Aquela camada branca do queijo brie, que realça o sabor, é micélio. Os fungos do gorgonzola também são micélios. Já consumimos há muitos anos, só não estamos acostumados a consumir da forma como a nossa empresa propõe”, explica.
Na prática, o micélio pode ser entendido como a “raiz” dos fungos. Enquanto cogumelos como shiitake ou champignon são a parte visível, ou seja a frutificação, o micélio é a base estrutural que cresce no ambiente.
Tecnologia brasileira para o Mundo
A inovação da Typcal está em cultivar esse micélio em larga escala por meio de fermentação. “Nós fermentamos o micélio, que são as raízes desses fungos, e transformamos em um novo superingrediente para a indústria alimentícia”, afirma Ibri.
Diferentemente de outras alternativas do mercado, a proposta não se limita a substituir carne. “Ele não está diretamente conectado a um substituto de carne. É uma nova proteína. Pode ser como uma proteína de soja, de ervilha ou até substituir o whey protein”, diz.
O potencial de aplicação é amplo: de pães e massas a snacks, bebidas e até produtos pet, sempre com o objetivo de reforçar o teor nutricional com proteína e fibra.
Um dos principais diferenciais da tecnologia está na velocidade. Enquanto a produção de proteína animal ou vegetal depende de meses e de grandes áreas de cultivo, o micélio cresce em questão de horas. “A nossa tecnologia de fermentação é a mais rápida do mundo. Em 24 horas conseguimos crescer o micélio e transformá-lo em ingrediente”, explica o CEO.
Além do tempo reduzido, o processo ocorre em ambiente controlado, com menor uso de recursos naturais. “Por metro quadrado, conseguimos produzir 7 mil vezes mais proteína do que a soja”, afirma.
Esse ganho de eficiência coloca o micélio como uma alternativa relevante diante dos limites ambientais da produção tradicional de alimentos.
Empreender com impacto e os desafios no caminho
A motivação para tirar a ideia do papel veio justamente desse potencial de transformação. “O que mais me motivou foi o impacto positivo que podemos gerar na vida das pessoas, no ecossistema da indústria alimentícia e no meio ambiente”, diz Ibri.
Mas o caminho não foi simples. Um dos principais desafios esteve na formação do time. “Eu venho do mundo corporativo, de vendas e marketing. Não tenho a formação técnica para desenvolver a tecnologia”, conta.
A solução foi construir uma sociedade complementar. “Hoje somos dois cofundadores. Eu e o Eduardo, nosso CTO, que liderou o desenvolvimento tecnológico. Esse equilíbrio entre negócio e tecnologia foi fundamental.”
Segundo ele, muitas startups falham justamente por não equilibrar essas competências. “Ou têm só time técnico ou só business. A gente quis esse blend desde o começo.”
A proposta da Typcal ganha ainda mais relevância diante do agravamento da crise climática, que afeta diretamente a produção de alimentos em todo o mundo.
“O setor de alimentos carecia de disrupção. Os modelos atuais estão ficando insustentáveis”, afirma Ibri. Ele cita exemplos que vão além das proteínas, como o cacau, cuja cadeia produtiva enfrenta aumento de custos e instabilidade.
Nesse contexto, a estratégia da empresa não é competir diretamente com marcas finais, mas atuar como fornecedora de ingredientes. “Não vamos colocar um produto nosso no supermercado. Queremos trabalhar com multinacionais, que já têm distribuição e força de marca para levar isso ao consumidor.” A lógica é acelerar a transformação do sistema alimentar por dentro da indústria.
Mais do que uma tendência de consumo, o avanço de alternativas como o micélio aponta para uma mudança estrutural na forma como produzimos e pensamos a alimentação. Em um contexto de pressão ambiental, aumento de custos e transformação de hábitos, soluções que unem ciência, eficiência e nutrição tendem a ganhar espaço.
Assista na íntegra aqui: