Cafeterias ampliam faturamento com clubes de leitura em Fortaleza
Encontros literários elevam receitas em até 20%, fidelizam clientes e impulsionam setores da economia criativa na capital cearense
247 - Os clubes de leitura têm se consolidado como uma estratégia capaz de unir cultura, convivência e geração de negócios em Fortaleza. Além de estimular o hábito da leitura, esses encontros vêm contribuindo para aumentar o fluxo de clientes e fortalecer o faturamento de cafeterias, confeitarias e outros estabelecimentos que apostam em experiências coletivas. As informações foram publicadas originalmente pelo Diário do Nordeste.
Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Ceará (Abrasel-CE), o crescimento dos clubes de leitura tem produzido efeitos positivos tanto na movimentação financeira quanto na fidelização do público. A entidade observa que os encontros ajudam a criar comunidades em torno dos estabelecimentos, ampliando a frequência de visitas e fortalecendo o vínculo entre consumidores e empresas.
Um dos exemplos é a confeitaria Sublime, que mantém um clube de leitura desde agosto de 2016. De acordo com o proprietário Airton Correia, os dias em que ocorrem os encontros registram faturamento cerca de 20% superior ao de períodos sem a atividade. A iniciativa surgiu da paixão pela literatura e do desejo de promover espaços de troca cultural, e não com foco inicial em resultados financeiros.
Clube literário fortalece movimento da confeitaria
As reuniões acontecem sempre no último sábado de cada mês e costumam reunir cerca de 30 participantes, número próximo à capacidade do local, que dispõe de 32 assentos. Em algumas ocasiões, a procura supera todas as expectativas.
Na edição mais recente, dedicada à obra Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, o encontro reuniu 64 participantes. O público excedeu a capacidade do espaço, com pessoas acompanhando a discussão em pé e sentadas no chão. Segundo Airton Correia, o grupo já recebeu escritores como Socorro Acioli, Stênio Gardel, Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto.
O aumento do movimento exige reforço operacional. Nos dias de encontro, a confeitaria acrescenta um funcionário à equipe e reorganiza os horários de trabalho para garantir atendimento adequado durante toda a programação.
Retorno financeiro não é o único objetivo
Apesar dos resultados positivos, Airton ressalta que a atividade exige dedicação e não deve ser encarada como uma fonte simples de lucro. A participação é gratuita e não há obrigação de consumo por parte dos frequentadores.
O empresário relata que parte dos participantes passa a frequentar a confeitaria em outras ocasiões, enquanto outra parcela comparece apenas aos encontros literários. Por isso, embora o volume de vendas aumente, o consumo médio individual tende a ser menor em comparação aos dias comuns.
Airton afirmou que, quando criou o grupo, não conhecia iniciativas semelhantes em Fortaleza e que a proposta sempre esteve ligada ao encontro entre leitores. Segundo ele, o crescimento das vendas ocorreu como consequência natural da atividade, já que muitos participantes sequer realizam consumo durante os eventos.
Clientes retornam após experiências positivas
Para a Abrasel-CE, os clubes de leitura contribuem para elevar o ticket médio dos estabelecimentos. Os participantes costumam permanecer mais tempo nos locais, consumir diferentes produtos e retornar posteriormente com familiares, amigos ou parceiros.
A analista de sistemas Ana Beatriz Mamede, de 20 anos, participa de um clube de leitura há oito meses e afirma que costuma voltar aos estabelecimentos quando a experiência é satisfatória. Segundo ela, os encontros geralmente acontecem em cafeterias e espaços mais acolhedores, mas também vêm ocupando pizzarias, bares e outros ambientes com propostas diferenciadas.
Ana Beatriz calcula gastar aproximadamente R$ 60 por encontro, valor destinado principalmente a refeições leves e lanches. Para manter o equilíbrio financeiro, ela reserva cerca de R$ 100 mensais especificamente para despesas relacionadas às reuniões literárias.
Impacto alcança outros segmentos da economia
Além do consumo em cafeterias e restaurantes, os clubes de leitura estimulam a movimentação de diversos setores. Ana Beatriz relata que sua participação nos encontros ampliou significativamente o interesse por livrarias, papelarias e produtos ligados ao universo literário.
O economista Thiago Holanda, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), avalia que os clubes transformam a leitura em uma atividade social capaz de gerar circulação de pessoas, serviços e renda. Segundo ele, o impacto envolve não apenas a compra de livros, mas também gastos com alimentação, transporte, papelaria, brindes, divulgação, fotografia e locação de espaços.
Na avaliação do especialista, bairros com vocação cultural, turística ou universitária podem sentir de forma mais intensa esses efeitos econômicos. Ele destaca ainda que a atividade favorece livrarias, sebos, editoras, empresas de eventos, espaços culturais, bibliotecas, escolas e universidades.
Economia criativa ganha espaço com encontros culturais
Thiago Holanda também aponta reflexos sobre o mercado de trabalho. Segundo ele, a expansão dos clubes de leitura pode ampliar a demanda por profissionais como atendentes, baristas, vendedores, produtores culturais, fotógrafos, designers, mediadores de leitura, influenciadores literários e especialistas em marketing digital.
O fortalecimento desses grupos, afirma o economista, contribui para o desenvolvimento da economia criativa e para a circulação de renda em diferentes territórios, especialmente quando os encontros ganham escala e passam a estimular feiras literárias, oficinas, cursos e lançamentos de livros.
Para pequenos empreendedores, a recorrência dos encontros representa uma oportunidade de construir uma base de clientes fiéis e criar novas possibilidades de comercialização associadas ao universo cultural.
Cafeterias investem em experiências para atrair leitores
Diante da crescente procura por espaços para encontros literários, cafeterias e restaurantes vêm adaptando suas estruturas. Segundo o presidente da Abrasel-CE, Taiene Righetto, muitos empresários passaram a oferecer reservas de ambientes, condições especiais para grupos e programações culturais próprias.
Righetto observa que os clubes de leitura atraem um público interessado em experiências, convivência e permanência nos estabelecimentos, fatores que favorecem a construção de relacionamentos duradouros com os clientes.
Essa visão inspirou a criação do Junto Café Bar, inaugurado em outubro de 2024 em Fortaleza. Instalado em um casarão que também abriga uma loja colaborativa, o espaço nasceu com foco em atividades culturais e criativas.
Junto Café Bar aposta em diversidade de clubes
Além dos encontros literários, o estabelecimento recebe oficinas de brincos, velas, sabonetes, arranjos florais, bordado, crochê e até defesa pessoal. Ainda assim, os clubes de leitura permanecem entre as atividades mais frequentes.
A sócia-proprietária Raquel Praxedes afirma que o café recebe entre três e quatro encontros em um mesmo dia durante os fins de semana. Segundo ela, a proposta sempre foi criar um ambiente voltado para conexões, criatividade e fortalecimento da cena cultural da cidade.
Raquel relata que os eventos geram aumento no faturamento e atraem novos clientes, embora o impacto financeiro varie conforme o formato adotado pelos grupos. A empresária também observa a necessidade de reforçar a equipe nos dias de maior movimento, com a contratação de três a quatro funcionários extras para atender à demanda crescente.
