Carioca transforma espiritualidade em estampas que confrontam o racismo
Criada após uma imersão em um terreiro de Candomblé na Bahia, a Agayu utiliza símbolos, frases e referências à ancestralidade africana
Beatriz Bevilaqua, 247 - A trajetória de Paulo Lucas não começou nas passarelas. Nascido e criado em Copacabana, no Rio de Janeiro, ele sonhava com uma carreira no futebol. Lesões no joelho e o desencanto com os bastidores do esporte profissional o levaram a buscar novos caminhos. Foi na moda que encontrou sua primeira reinvenção. Anos depois, uma experiência ainda mais profunda transformaria não apenas sua carreira, mas também sua forma de enxergar o mundo.
Após um período de imersão em um terreiro de Candomblé na Bahia, Paulo passou a revisitar a própria história, questionar narrativas que havia aprendido ao longo da vida e aprofundar sua conexão com a ancestralidade africana. Dessa vivência nasceu, em 2025, a Agayu, marca que utiliza estampas, símbolos e frases provocativas para estimular debates sobre identidade, espiritualidade, diversidade e combate ao racismo.
Em entrevista ao programa “Empreender Brasil”, parceria entre a TV 247 e o Sebrae Nacional, o empreendedor falou sobre sua jornada, o papel da moda como instrumento de transformação social e o impacto que suas mensagens vêm gerando dentro e fora das redes sociais.
Um renascimento em Salvador
Paulo costuma dizer que nasceu no Rio de Janeiro, mas renasceu em Salvador. A frase resume uma mudança profunda em sua trajetória pessoal.
“Quando conheci Salvador, há praticamente dez anos, comecei a ressignificar minha vida. Há seis anos entrei para a religião e acredito que foi um processo em que realmente consegui esse resgate ancestral. Comecei a entender o que era compatível com minha energia, o que eu acreditava e o que me movimentava”, afirma.
Formado em Administração, ele fundou sua primeira marca em 2013, trabalhou como consultor de estilo na Oficina Reserva e também atuou como personal stylist. Mas foi o contato com a espiritualidade que deu novo significado ao seu trabalho.
“Por conta desse resgate, busco mostrar para as pessoas que o mundo é muito mais do que nos apresentam. Por meio da moda, podemos ressignificar identidades e ajudar a construir uma sociedade melhor.”
A Agayu surgiu justamente dessa necessidade de traduzir em produtos os aprendizados adquiridos ao longo do processo de reconexão com suas raízes.
Quando uma camiseta vira conversa
Frases como “Cria de Iemanjá”, “Reeducar é libertar” e referências a orixás, entidades e símbolos das religiões de matriz africana estampam as peças da marca e despertam curiosidade mesmo entre pessoas que não têm ligação com essas tradições.
Segundo Paulo, as ideias nascem das vivências cotidianas dentro do terreiro. “São aprendizados do dia a dia. A partir dessas conversas criamos estampas e mensagens como forma de pertencimento. Se hoje podemos falar sobre essas questões é porque houve uma resistência muito grande dos nossos ancestrais. Muitas pessoas sofreram para que tivéssemos essa liberdade.”
Para ele, cada peça funciona como um convite ao diálogo.“Quero trazer essa ancestralidade à tona e falar sobre temas que durante muitos anos foram silenciados. Sou extremamente feliz por poder fazer isso com o meu trabalho.”
A estratégia tem dado resultado. Muitas pessoas compram as peças pela estética e acabam buscando conhecer o significado dos símbolos estampados. Para Paulo, esse movimento já representa uma forma de transformação.
“Uma advogada me escreveu dizendo que comprou um casaco com símbolos de Xangô e brincou que nem sabia se era filha de Xangô, mas que tinha achado a peça maravilhosa. É exatamente sobre isso. A marca não existe para criar barreiras. Existe para despertar curiosidade, promover educação e ampliar o diálogo.”
O impacto inesperado do Big Brother Brasil 26
A visibilidade nacional da Agayu ganhou força quando a participante Ana Paula Renault passou a usar peças da marca durante sua participação no Big Brother Brasil. O episódio aconteceu de forma completamente espontânea.
“A Ana entrou em contato como qualquer cliente. Comprou nove camisas e perguntou se conseguiríamos entregar antes de determinada data. Naquele momento eu nem sabia que era ela”, relembra. Somente depois Paulo descobriu que as peças seriam usadas dentro do programa.
“Foi uma conexão muito natural. Ela já acompanhava a marca e se identificava com as pautas que defendemos.” O resultado foi imediato. A exposição nacional despertou a curiosidade do público e impulsionou o crescimento da Agayu.
“Tínhamos cerca de seis mil seguidores. Hoje estamos próximos dos 50 mil. O mais importante é que muitas pessoas passaram a entender por que a marca existe.”
Para Paulo, o interesse de Ana Paula não se limitou à estética das roupas. “Ela compreende seu lugar de privilégio e levanta pautas importantes. Não usa as peças apenas porque são bonitas. Existe um entendimento da causa.”
Educação e a necessidade de reaprender conceitos
Ao longo da entrevista, Paulo refletiu sobre como a educação brasileira ainda reproduz visões limitadas sobre a formação do país.
Ele cita a própria experiência escolar para ilustrar o problema. “Estudei em um colégio católico e aprendi que o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares Cabral. Cresci acreditando nisso. Depois comecei a entender que a história é muito mais complexa.”
O contato com o terreiro foi determinante para ampliar sua visão. “Quando você convive com entidades africanas, indígenas e europeias dentro de um mesmo espaço espiritual, percebe que aquilo é o Brasil. É a mistura do Brasil. Todos são tratados da mesma forma, independentemente da cor, da classe social ou da origem.”
Essa percepção influenciou diretamente a construção da Agayu. “Acredito que nossa educação é falha e que precisamos nos reeducar. A marca existe muito por isso.”
Em tempos em que a moda de luxo transforma símbolos afro-brasileiros em estética sem contexto, Paulo Lucas faz o caminho inverso: devolve o símbolo à sua origem, carregado de história, e o coloca no corpo de quem quiser carregá-lo, seja de religião ou não, seja preto ou branco. A única exigência implícita é curiosidade. E, talvez, coragem para sair da zona de conforto quando a camiseta começa a fazer perguntas.
Assista na íntegra aqui:
