HOME > Empreender

Catadores ganham destaque em iniciativa do Sebrae que reforça papel da reciclagem na economia circular

Jornada em São Paulo reúne representantes de 24 estados e evidencia a importância da reciclagem para inclusão produtiva e preservação ambiental

Catadores ganham destaque em iniciativa do Sebrae que reforça papel da reciclagem na economia circular (Foto: Tulio Vidal/Sebrae)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - A atuação dos catadores de materiais recicláveis foi colocada no centro do debate sobre desenvolvimento sustentável, geração de renda e gestão de resíduos durante a 1ª Jornada Desafio Pimp, promovida pelo Sebrae em São Paulo. Segundo informações da Agência Sebrae de Notícias (ASN), o evento reuniu consultores, gestores e parceiros de 24 estados brasileiros em uma imersão voltada à compreensão dos desafios enfrentados pelos profissionais que atuam na reciclagem.

A iniciativa integra o Encontro Técnico Nacional do Projeto Pró-Catadores e foi realizada em parceria com o Movimento Pimp My Carroça, organização reconhecida pelo trabalho de valorização dos catadores e fortalecimento da reciclagem inclusiva. O objetivo foi aproximar os participantes da realidade vivida diariamente por milhares de trabalhadores responsáveis por recolher materiais recicláveis que retornam à cadeia produtiva, gerando benefícios econômicos e ambientais.

Durante a abertura das atividades, o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, ressaltou que a discussão sobre reciclagem vai além das questões ambientais e envolve também desenvolvimento econômico, empreendedorismo e inclusão produtiva.

“Grande parte do que chamamos de lixo tem valor econômico. O desafio é criar condições para que esse valor seja aproveitado de forma mais eficiente, beneficiando quem está na ponta dessa cadeia. É possível promover inclusão produtiva e desenvolvimento sustentável quando as cooperativas são fortalecidas e há apoio na gestão dos negócios”, afirmou.

Soares também destacou a importância do Projeto Pró-Catadores dentro das políticas públicas voltadas ao setor. “O projeto Pró-Catadores faz parte de uma estratégia nacional do governo federal, com olhar que conciliar negócio, renda, sustentabilidade e educação ambiente”, declarou.

Reciclagem e responsabilidade compartilhada

A programação da Jornada Desafio Pimp incluiu visitas a iniciativas ligadas à reciclagem e experiências práticas voltadas à compreensão do funcionamento da cadeia de resíduos sólidos. A proposta foi estimular reflexões sobre o papel dos catadores e os desafios relacionados ao reconhecimento profissional, à infraestrutura e à geração de renda.

O debate ganha relevância diante das metas estabelecidas pela Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê responsabilidade compartilhada entre governos, empresas e cidadãos na destinação adequada dos resíduos.

Para Rodrigo Soares, o engajamento da população é fundamental para o sucesso das políticas de reciclagem.

“Não existe solução para a questão dos resíduos sem a participação da sociedade. Separar corretamente os materiais, reduzir desperdícios e apoiar iniciativas de reciclagem são atitudes que fazem diferença. Os catadores já fazem a parte deles todos os dias. A pergunta é: estamos fazendo a nossa?”, questionou.

Atualmente, o Projeto Pró-Catadores está presente em 24 unidades da federação. Em 2025, a iniciativa alcançou 421 organizações de catadores, beneficiou 5.931 trabalhadores e chegou a 244 municípios. De acordo com o Sebrae, as entidades participantes registraram crescimento médio de 21,7% no faturamento e avanço de 30,1% nos indicadores de maturidade de gestão. Os investimentos mobilizados pelo programa já somam R$ 29 milhões.

O gerente de Políticas Públicas do Sebrae Nacional, Augusto Togni, defendeu uma ampliação do reconhecimento dos catadores como agentes estratégicos para a economia e para o meio ambiente.

“Quando uma cidade funciona melhor porque menos resíduos vão para os aterros, quando uma indústria recebe matéria-prima reciclada e quando uma família consegue gerar renda por meio da reciclagem, existe uma conexão direta com o trabalho dos catadores. Eles não fazem parte do problema. Eles são uma parte muito importante da solução”, enfatizou.

A trajetória de Gustavo na reciclagem

Entre os participantes da jornada esteve Gustavo Pereira Rodrigues, de 35 anos, que atua como catador de materiais recicláveis há quase uma década em São Paulo. Pai de dois filhos, ele encontrou na atividade uma alternativa para superar as dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho.

“Eu estava procurando serviço e não conseguia encontrar uma oportunidade que compensasse. Um amigo me falou sobre a reciclagem e resolvi tentar. Quando comecei, gostei do trabalho e me dediquei de verdade”, relatou.

Ao longo dos anos, Gustavo ampliou sua atuação e construiu uma rede própria de clientes. Além da coleta de recicláveis, passou a realizar serviços de retirada de entulho, móveis, madeira, eletrônicos e outros resíduos.

“Meu telefone toca bastante. As pessoas me chamam para retirar materiais e fazer limpezas. Fui criando uma clientela e isso fez muita diferença na minha vida”, contou.

Durante a Jornada Desafio Pimp, Gustavo liderou um dos grupos participantes da atividade prática realizada pelas ruas da capital paulista. Na ocasião, compartilhou conhecimentos adquiridos ao longo da experiência profissional e explicou que o trabalho exige planejamento e conhecimento do território.

“Tem lugar que gera mais material e tem horário certo para passar. Comércio, prédios residenciais e algumas empresas costumam separar bastante coisa. Com o tempo, a gente aprende onde vale a pena ir e cria uma rota mais eficiente”, explicou.

A segurança também foi tema das orientações dadas aos participantes. Segundo Gustavo, a atenção constante é indispensável para quem trabalha diariamente nas ruas.

“A gente precisa prestar atenção o tempo todo. Tem que saber atravessar, evitar ruas muito perigosas e sempre ficar atento aos carros e motos. Trabalhar na rua exige cuidado”, afirmou.

Outro aspecto destacado pelo catador foi a importância da relação de confiança construída com moradores, comerciantes e empresas.

“Tem que tratar todo mundo com respeito. Muitas vezes a pessoa passa a separar material porque conhece você e entende para onde aquilo vai. Foi assim que consegui muitos clientes ao longo dos anos”, disse.

Reconhecimento e valorização

A rotina de Gustavo envolve percorrer entre 40 e 80 quilômetros por dia em busca de materiais recicláveis. Apesar do esforço, ele afirma que a atividade foi decisiva para transformar sua vida e garantir o sustento da família.

“Foi um trabalho que mudou a minha vida. Todo dia você consegue produzir alguma coisa. Se você tem disposição para trabalhar, consegue gerar renda. Foi isso que me ajudou a cuidar dos meus filhos e construir a minha história”, declarou.

Para ele, a falta de reconhecimento ainda é um dos principais desafios enfrentados pela categoria.

“Muita gente ainda não enxerga o valor do nosso trabalho. A gente ajuda a manter a cidade limpa, encaminha materiais para reciclagem e evita que resíduos sejam descartados de forma errada”, destacou.

Gustavo também acredita que iniciativas como a Jornada Desafio Pimp contribuem para ampliar a compreensão da sociedade sobre a relevância dos catadores.

“O que eu mais gosto no Pimp My Carroça é o respeito. Aqui a gente se sente valorizado. E quando as pessoas entendem o que a gente faz, elas também passam a olhar para o lixo de outro jeito”, afirmou.

Resultado da jornada

As estratégias compartilhadas por Gustavo durante a atividade prática renderam resultados concretos. A equipe liderada por ele venceu a dinâmica ao recolher 242,5 quilos de materiais recicláveis, volume que gerou R$ 146,80 em receita.

Somando todos os grupos participantes, foram arrecadados 503,8 quilos de resíduos recicláveis, resultando em R$ 455,78 de renda. Como reconhecimento pela participação, os catadores envolvidos receberam novas carroças, além da remuneração pelo dia de trabalho e dos valores arrecadados por suas respectivas equipes.