Cientista brasileira cria startup de engenharia genética para diminuir dependência tecnológica do exterior
Com 86% dos insumos estratégicos importados, país ainda depende do mercado internacional para produzir proteínas usadas em vacinas, testes e medicamentos
Beatriz Bevilaqua, 247 - Em um país que importa cerca de 86% dos insumos estratégicos em biotecnologia, segundo dados do próprio setor, iniciativas capazes de internalizar conhecimento e produção tornam-se estratégicas para a soberania nacional. É nesse cenário que surge a Biolinker, startup fundada pela cientista brasileira Mona Oliveira, especializada em biologia sintética e engenharia genética aplicada à produção acelerada de proteínas recombinantes.
Em entrevista ao programa “Empreender Brasil”, na TV 247, Mona detalha como a empresa domina a leitura e a reprogramação do DNA para produzir, em bactérias e leveduras, proteínas que originalmente seriam encontradas em vírus, plantas, animais marinhos ou até venenos de serpentes. Essas moléculas estão na base de testes diagnósticos, vacinas, medicamentos e pesquisas científicas.
“Quando as pessoas ouvem ‘proteína’, pensam em whey ou carne. Mas estamos falando da molécula ativa de um medicamento, como ocorre com fármacos modernos desenvolvidos por empresas como a Novo Nordisk, responsável por terapias baseadas em proteínas recombinantes”, explica a cientista.
O princípio é simples e revolucionário: o DNA contém a “receita” para produzir proteínas. A Biolinker identifica esse código genético, sintetiza o DNA em laboratório e insere a informação em microrganismos capazes de fabricar a proteína em larga escala. Trata-se de uma tecnologia com quase 100 anos de desenvolvimento global, mas ainda pouco consolidada na indústria brasileira. A startup desenvolvida pela Mona está na vanguarda nacional.
Autonomia científica em tempos de crise
A relevância estratégica da iniciativa ficou evidente durante a pandemia de Covid-19. Com o fechamento de fronteiras e a corrida global por insumos, o Brasil enfrentou dificuldades para importar proteínas virais utilizadas em testes PCR, testes rápidos e estudos para vacinas.
A Biolinker, então recém-criada por uma equipe de quatro pessoas, multiplicou seu crescimento por cinco em poucos meses. “Recebemos contato do Ministério da Economia e injeção de recursos para produzir proteínas do vírus. Trabalhei dois meses praticamente sem parar”, relembra Mona.
Apesar da capacidade técnica para desenvolver as moléculas em tempo recorde, o desafio estava na escala e na regulação. O Brasil não possuía infraestrutura consolidada nem integração eficiente entre órgãos reguladores para esse tipo de produção. A startup levou três anos para estruturar certificações e processos regulatórios compatíveis com padrões internacionais.
Hoje, a empresa afirma estar preparada para responder rapidamente a novos surtos virais, como o recente alerta internacional envolvendo o vírus Nipah, ainda sem circulação no Brasil, mas monitorado por autoridades sanitárias globais. Para Mona, autonomia produtiva não é apenas uma pauta econômica, mas de segurança nacional.
Da universidade ao mercado
Doutora em bioquímica e nanotecnologia, com parte da formação realizada na Europa, Mona é a primeira da família a seguir carreira acadêmica. Mãe desde os 19 anos, construiu uma trajetória científica marcada pela curiosidade e pela vocação para resolver problemas complexos.
Filha de microempreendedores, cresceu em um ambiente onde vender, produzir e negociar eram parte da rotina familiar. A combinação entre formação científica de alto nível e vivência empreendedora moldou o perfil que hoje lidera uma empresa de base tecnológica.
“O que sempre me incomodou foi a dificuldade de transformar a descoberta científica em algo que chegue à sociedade. A ciência brasileira produz conhecimento de excelência, mas muitas vezes ele não se converte em inovação industrial”, afirma.
Embora tivesse como horizonte inicial a estabilidade do concurso público, Mona optou por empreender para enfrentar um gargalo estrutural: a baixa industrialização da ciência no Brasil. Em vez de permanecer exclusivamente na academia, decidiu criar uma ponte entre laboratório e mercado.
A Biolinker nasce, portanto, em um território ainda incipiente da indústria nacional, o de empresas deep tech voltadas à biologia sintética. Ao internalizar a produção de proteínas estratégicas, a startup contribui para reduzir a vulnerabilidade do país diante de crises sanitárias e disputas comerciais globais.
Em um contexto de reindustrialização e debate sobre soberania tecnológica, experiências como a de Mona Oliveira mostram que inovação não é apenas sinônimo de disrupção digital, mas também de autonomia científica. E que investir em ciência nacional pode ser um dos caminhos mais concretos para diminuir a dependência externa e fortalecer o desenvolvimento sustentável do país.
Assista na íntegra aqui: