Como a “Bispa Damares” transformou humor político em mais de 1 milhão de seguidores
Criadora de conteúdo transforma sátira contra o bolsonarismo em projeto digital e planeja entrar na política para enfrentar a desinformação
Beatriz Bevilaqua, 247 - Entre ironias, memes e comentários afiados sobre a política brasileira, a personagem “Bispa Damares” conquistou um público fiel nas redes sociais. A criadora de conteúdo Damares Oliveira usa o humor, que ela própria chama de “deboche santo”, para comentar diariamente as notícias políticas, desmontar narrativas da extrema direita e defender a democracia.
O resultado desse trabalho é uma audiência que já ultrapassa 1 milhão de seguidores em diferentes plataformas. Mas o caminho até se tornar uma voz influente na internet não foi simples. Antes do sucesso digital, Damares enfrentou anos de dificuldades, empregos precários e episódios pessoais dramáticos.
Em entrevista ao programa “Empreender Brasil”, da TV 247, ela contou como transformou sobrevivência em empreendedorismo digital e como pretende levar essa atuação também para a política institucional.
Da infância humilde ao microfone
Damares define a própria trajetória como uma história de sobrevivência. Filha de um pernambucano e criada em uma família humilde, ela cresceu aprendendo com os pais valores que carrega até hoje. “Eu me considero uma sobrevivente, porque venho de uma família extremamente humilde, com um pai que me ensinou valores, a ser honrada e, sobretudo, a ser honesta”, conta.
A vida adulta veio acompanhada de grandes desafios. Ela se casou duas vezes, criou três filhos praticamente sozinha e precisou trabalhar em vários empregos ao mesmo tempo para sustentar a casa. Apesar das dificuldades, a comunicação sempre esteve presente. Desde criança, Damares brincava de gravar áudios imitando artistas e sonhava com o rádio e a televisão. A primeira oportunidade surgiu na pequena loja do pai, em Caraguatatuba, no litoral norte paulista.
A partir dali, passou por rádios comunitárias e depois por emissoras maiores da região. Sem formação formal na área no início, diz que entrou no jornalismo “pela porta dos fundos”, aprendendo na prática.
A trajetória profissional foi interrompida diversas vezes por crises pessoais e financeiras. Um dos episódios mais difíceis ocorreu quando ela foi vítima de um golpe aplicado por um ex-parceiro. Segundo Damares, ele morou com ela por mais de um ano e depois desapareceu levando dinheiro, cartões e equipamentos.
“Ele roubou tudo que eu tinha... pegou meus cheques, meus cartões, tudo que podia, e foi embora para a Paraíba com outra pessoa”, relata. Na mesma época, um dos seus filhos enfrentava um grave problema de saúde, chegando a ficar entre a vida e a morte no hospital. Sem recursos e acumulando dívidas, ela precisou recorrer à ajuda de terceiros, mas, ainda assim, continuou trabalhando e tentando recomeçar.
A virada veio durante a pandemia de covid-19. Na época, Damares trabalhava como gerente de perfumaria em um shopping de São José dos Campos. Com o fechamento das lojas, perdeu o emprego. “Eu falei: meu Deus, o que eu vou fazer agora?”, lembra. Para sobreviver, ela buscou alternativas criativas: vendeu bebidas por aplicativos, comercializou roupas entre colegas de trabalho e fez pequenos bicos. Paralelamente, começou a explorar as redes sociais.
No início, tentou criar conteúdos motivacionais, mas logo percebeu que aquilo não tinha a ver com sua personalidade. “Claro que não bombou, porque quando você não faz um negócio que você ama, aquilo não funciona”, afirma.
A virada aconteceu quando decidiu falar de política, tema que começou a compreender melhor após participar de reuniões do Partido dos Trabalhadores anos antes. Misturando análise política com o humor nordestino herdado da família, encontrou seu próprio estilo. “Também com o deboche que já é do pernambucano, já é do nordestino... a gente encontrava felicidade onde não tem”, diz.
O primeiro vídeo viralizou durante as eleições de 2022. “Eu viralizei o primeiro vídeo falando justamente que eu era filha de nordestino e por que que eu ia votar em Lula, mas começando o vídeo de uma maneira que dava a entender que eu ia atacar o Lula”, conta. A estratégia de humor e provocação furou bolhas ideológicas e conquistou audiência. “Na primeira plataforma, no primeiro mês, eu ganhei mais de mil dólares.”
O preço da visibilidade
Com o crescimento nas redes, vieram também ataques e ameaças. Damares relata que passou a receber mensagens violentas e chegou a sentir medo de sair de casa.
“Eu comecei a receber muitas ameaças de gente extremamente violenta”, afirma. Para preservar a saúde mental, decidiu restringir os contatos e bloquear mensagens privadas. Mesmo assim, manteve o estilo direto e irreverente que conquistou o público. “Eu sou extremamente autêntica. Essa Damares que vocês veem nos vídeos debochada sou eu na vida real”, diz.
Esse ano a criadora de conteúdo planeja dar um novo passo e disputar um cargo político. “Eu pretendo me candidatar pois quero muito servir ao povo, quero muito fazer a diferença”, afirma. Segundo Damares, a decisão surge da convicção de que é preciso enfrentar diretamente a desinformação e o avanço da extrema direita. “Não adianta eu ficar da minha cadeira reclamando. Eu tenho que arregaçar as mangas e fazer a minha parte”, explica.
A trajetória de Damares Oliveira combina reinvenção e empreendedorismo digital. Entre empregos improvisados, dificuldades financeiras e desafios familiares, ela encontrou nas redes sociais uma forma de transformar a indignação política em trabalho e humor em ferramenta de mobilização.
“Todo mundo tem um talento, minha dica é invista nele”, aconselha. “Quando você empreende numa coisa que você não tem amor, aquilo não vai vingar.” No caso da “Bispa Damares”, esse talento se converteu em sátira política e agora ocupa um espaço relevante na disputa pela narrativa pública no Brasil.
Assista a entrevista na íntegra aqui: