Empreendedoras negras ampliam acesso ao Ensino Superior, mas ainda enfrentam desigualdade de renda
Levantamento revela avanço da escolaridade entre mulheres negras donas de negócios, enquanto faturamento segue abaixo de outros grupos empreendedores
247 - As empreendedoras negras brasileiras registraram um expressivo avanço educacional nos últimos 13 anos, alcançando níveis de escolaridade superiores aos de homens negros e até mesmo de parte dos empreendedores brancos. Apesar desse progresso, a renda gerada por seus negócios ainda permanece significativamente inferior à de outros grupos. Os dados são de uma pesquisa do Sebrae divulgada pela Agência Sebrae de Notícias (ASN).
De acordo com o estudo "Empreendedorismo Negro no Brasil Sob a Ótica da PNAD Contínua", que analisou informações entre o primeiro trimestre de 2012 e o quarto trimestre de 2025, 24,8% das mulheres negras empreendedoras possuem Ensino Superior completo. O índice representa um crescimento de 16,8 pontos percentuais no período, desempenho superior ao observado entre os homens negros donos de negócio, cuja evolução foi de 8,6 pontos percentuais.
A pesquisa mostra uma transformação gradual no perfil educacional desse grupo. Em 2015, o Ensino Médio passou a ser o nível de escolaridade predominante entre as empreendedoras negras, superando o Ensino Fundamental incompleto. Já em 2022, o Ensino Superior consolidou-se como o segundo nível educacional mais representativo entre essas empresárias.
Apesar da melhora na qualificação, os ganhos financeiros não acompanham o avanço acadêmico. Segundo o levantamento, as mulheres negras concentram os menores rendimentos entre todos os grupos analisados. Atualmente, elas recebem pouco mais de R$ 2 mil por mês, valor que corresponde a cerca de 54% da renda obtida por mulheres brancas proprietárias de negócios.
O contraste se torna ainda mais evidente quando comparado ao faturamento dos empreendedores brancos, que alcançam rendimento médio mensal de R$ 5.144. O estudo também aponta que, embora 42,2% das mulheres negras empreendedoras tenham Ensino Médio completo, percentual superior ao registrado entre empreendedoras brancas, elas recebem menos de 56% do rendimento desse grupo.
Outro dado relevante é a participação feminina no empreendedorismo negro. Atualmente, uma em cada três pessoas negras que empreendem no país é mulher. No último trimestre de 2012, as mulheres negras representavam 30,3% dos empreendedores negros. Desde então, houve crescimento de 1,9 ponto percentual, embora elas continuem sendo minoria dentro desse universo.
A pesquisa também revela o papel central dessas mulheres na sustentação de suas famílias. Entre todos os grupos analisados, as empreendedoras negras apresentam a maior proporção de chefes de domicílio, com 57,9%, superando empreendedoras brancas e homens empreendedores, independentemente da raça ou cor.
A dedicação ao negócio também apresenta diferenças. As mulheres negras trabalham, em média, 33 horas semanais em suas empresas. Entre os homens negros, a média sobe para 39 horas, enquanto os empreendedores brancos dedicam cerca de 41 horas por semana às atividades empresariais. O levantamento destaca que as mulheres, independentemente da raça ou cor, permanecem abaixo da média geral de horas trabalhadas.
Para a diretora de Administração e Finanças do Sebrae Nacional, Margarete Coelho, fatores estruturais ajudam a explicar a persistência das desigualdades. Segundo ela, o Sebrae vem desenvolvendo ações estratégicas voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo feminino, mas ainda existem obstáculos significativos.
“Um dos motivos para essa condição ainda muito desigual pode estar na divisão de tarefas nos lares brasileiros. Infelizmente, sabemos que a cultura da rotina doméstica, da forma como se dá hoje, massacra o potencial de muitas futuras empresárias e dificulta o crescimento de vários negócios liderados por mulheres”, afirmou Margarete.
A diretora acrescenta que o chamado “trabalho invisível” — relacionado aos cuidados com a casa, os filhos e os idosos — pode estar diretamente ligado aos indicadores apresentados pela pesquisa, limitando o tempo disponível para a gestão e expansão dos empreendimentos liderados por mulheres negras.
