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Empreendedorismo ajuda mulheres a romper ciclos de violência

Autonomia financeira fortalece autoestima, amplia rede de apoio e cria caminhos de recomeço para mulheres que deixam relacionamentos abusivos

Empreendedorismo ajuda mulheres a romper ciclos de violência (Foto: Reprodução/Freepik)

247 - Abrir o próprio negócio tem se mostrado, para muitas mulheres vítimas de violência doméstica, um caminho de reconstrução pessoal e autonomia. Mais do que gerar renda, o empreendedorismo pode representar independência, fortalecimento emocional e a possibilidade de retomar o controle da própria vida após experiências de abuso.

Dados e relatos reunidos em reportagem do Sebrae mostram que a independência financeira é um fator determinante para que mulheres consigam romper ciclos de violência. A gerente de Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão do Sebrae Nacional, Georgia Nunes, destaca que o acesso à renda própria amplia as possibilidades de decisão das vítimas.

“Quando uma mulher conquista autonomia financeira, ela amplia sua capacidade de romper ciclos de violência, porque passa a ter mais condições concretas de decidir permanecer ou sair de uma relação abusiva”, afirma Georgia. Segundo ela, o empreendedorismo também fortalece laços sociais e emocionais importantes nesse processo de reconstrução. “Esses são fatores fundamentais nesse processo de recomeço”, acrescenta.

Estudo da Universidade de Brasília (UnB), intitulado “Independência financeira e violência contra as mulheres: uma análise documental de relatórios institucionais brasileiros”, reforça essa relação. A pesquisa aponta que 61% das mulheres afirmam que a ausência de renda própria dificulta ou impede a denúncia de agressões.

O trabalho foi apresentado no ano passado pela doutoranda em Psicologia Clínica e Cultura da UnB, Carolina Campos Afonso, durante o Congresso Internacional de Direitos Humanos de Coimbra, realizado em Coimbra. O levantamento analisou relatórios institucionais brasileiros para compreender como a dependência econômica influencia a permanência das mulheres em relações abusivas.

Caminhos de recomeço

A trajetória da empreendedora Érica Pereira ilustra como a atividade empresarial pode se tornar uma oportunidade de reconstrução. Moradora de Nossa Senhora do Livramento, ela decidiu recomeçar após o fim de um relacionamento abusivo.

Com medo de ameaças, Érica chegou a deixar a cidade e enfrentou crises de pânico e ansiedade. Ao retornar, buscou apoio no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), onde recebeu atendimento psicológico e auxílio do programa Bolsa Família. Nesse período, teve contato com capacitações oferecidas pelo Sebrae.

“Fiz duas capacitações na área de beleza. Consegui um emprego como auxiliar em um salão e consegui montar um espaço dentro da minha casa. Hoje tenho uma renda melhor e consigo comprar coisas para minha filha. Antes não era possível”, relata a empreendedora.

Durante esse processo, Érica também encontrou apoio pessoal para seguir adiante. Ela conta que o atual companheiro ajudou na estrutura inicial do negócio. “Ele me ajudou a montar o salão. Comprou a cadeira do lavatório. Ele falou que vai me apoiar em tudo que me faça feliz”, comenta.

De acordo com Georgia Nunes, histórias semelhantes são recorrentes no atendimento a mulheres empreendedoras. “No cotidiano do atendimento a empreendedoras, observamos histórias de mulheres que, ao iniciar um pequeno negócio, conseguem reorganizar a rotina, retomar projetos interrompidos e reconstruir perspectivas de futuro”, explica.

Negócios com impacto social

Iniciativas voltadas ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade também têm surgido em diferentes regiões do país. Em Brasília, o Instituto RevEllas oferece atendimento integrado que inclui assessoria jurídica, acolhimento psicológico, consultoria parental e orientação para registro de ocorrências e medidas protetivas.

A instituição foi criada a partir da experiência da advogada e delegada aposentada Patrícia Bozolan, que atuou por muitos anos na Delegacia da Mulher. O instituto prepara um novo serviço voltado ao acompanhamento pós-divórcio, com foco na reconstrução profissional e emocional das mulheres atendidas.

“É fato que quando ocorre um divórcio, a mulher passa por um período de adequação financeira”, afirma Patrícia. Ela observa que muitas mulheres encontram dificuldades para retornar ao mercado de trabalho após anos dedicadas exclusivamente à família. “Atendo mulheres que até têm um diploma, mas nunca exerceram a profissão porque eram dedicadas exclusivamente para a família.”

Para esses casos, a advogada considera o empreendedorismo uma alternativa viável. “Atendemos uma maioria de mulheres na faixa etária de 45 a 55 anos. Dependendo das circunstâncias e o tempo longe da formação acadêmica dela, o retorno é por meio do empreendedorismo. Tenho uma cliente que começou a promover roupas de multimarcas e agora trabalha como influencer”, conta.

Segundo o Sebrae, alguns setores são mais acessíveis para quem inicia um negócio com poucos recursos. Georgia Nunes explica que atividades ligadas à alimentação, beleza, moda, artesanato, serviços digitais, revenda, cuidados pessoais e prestação de pequenos serviços costumam exigir investimentos menores e aproveitam habilidades já desenvolvidas.

“Hoje, inclusive, há muitas oportunidades no ambiente digital, que permitem começar de casa, com custo mais baixo”, afirma.

Reconhecida por esse trabalho, Patrícia Bozolan venceu no ano passado o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Pequenos Negócios. Em cinco anos de atuação, o Instituto RevEllas já atendeu cerca de 350 mulheres em situações que envolvem violência psicológica, patrimonial, física e outras formas de abuso, incluindo alienação parental e violência vicária.

“É um modelo de negócio com um propósito muito forte. Tentamos praticar valores acessíveis em um espaço privado porque queremos gerar um impacto social para as mulheres que nos procuram”, conclui Patrícia.