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Entre cartuns ácidos e camisetas virais: a estratégia de um artista para viver da própria arte

Renan César transformou tiras críticas em produtos digitais e encontrou novas formas de sustentar a produção independente

Entre cartuns ácidos e camisetas virais: a estratégia de um artista para viver da própria arte (Foto: Divulgação )
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Beatriz Bevilaqua, 247 - “Transformar o desprezo pela humanidade em piadas curtas e grossas, porém limpinhas.” É assim que o cartunista Renan César define o próprio trabalho. Aos 37 anos, o artista construiu uma linguagem marcada pelo humor ácido, direto e provocativo, influenciado por nomes como Crumb, Matt Groening, Angeli e Adão Iturrusgarai. O resultado é uma produção que mistura crítica social, ironia e desconforto sem abandonar o riso.

Criador da página “RC Cartum”, Renan reúne mais de 150 mil seguidores nas redes sociais, onde publica tiras rápidas sobre ansiedade, redes sociais, política, hipocrisia cotidiana e o esgotamento da vida contemporânea. Além do Instagram, encontrou no empreendedorismo digital uma forma de ampliar o alcance do próprio trabalho e complementar a renda, vendendo camisetas, canecas e livros com seus personagens e frases provocativas.

“Hoje em dia é difícil viver de arte, ainda mais da minha, que tem muito palavrão e não é todo mundo que gosta, nem toda marca quer patrocinar”, afirma.

O cartunista publicou recentemente o livro “Desculpa se não te ofendi”, uma coletânea de cartuns que resume bem o espírito do seu humor: debochado, desconfortável e sem preocupação em agradar todo mundo. “Teve uma época em que todo mundo estava preocupado em pedir desculpa por qualquer coisa. Aí pensei nesse título”, brinca.

Apesar da forte presença online, Renan mantém um processo criativo quase artesanal. Diferentemente de muitos ilustradores que trabalham diretamente em mesas digitalizadoras, ele prefere desenhar no papel antes de digitalizar as artes. “Todo mundo usa mesa digitalizadora, mas eu não gostava de desenhar nela. Então faço tudo no modo convencional, numa folha, e depois digitalizo.” 

A relação com o desenho começou cedo. Fanático por animações desde criança, especialmente “Os Simpsons”, já produzia pequenos gibis aos 12 anos. “Nunca pensei que isso ia dar dinheiro ou ajudar financeiramente. Continuei porque gostava mesmo.”

Para ele, o incentivo artístico precisa começar ainda na infância, tanto dentro de casa quanto nas escolas. “Se a criança gosta de desenhar, os pais e professores têm que estimular. Comprar material, colocar numa escola de arte. Isso começa pequeno.”

Humor, desconforto e identificação coletiva

Boa parte do sucesso das tiras está justamente na capacidade de transformar angústias contemporâneas em humor compartilhável. Um dos cartuns mais populares mostra um personagem chorando diante do celular enquanto lê: “Veja como todos têm uma vida foda menos você, seu pedaço de merda.”

A piada sintetiza a lógica das redes sociais e da comparação permanente.“É tudo coisa que eu vejo e sinto necessidade de falar. Tenho uma ideia e penso: preciso mostrar isso.”

Renan também não evita temas políticos e figuras populares. Um de seus personagens recorrentes satiriza o jogador Neymar, o “Menino Ney”, provocando reações intensas entre fãs e críticos.“Tem que falar sobre essas coisas. Não dá para trabalhar ignorando o que está acontecendo.”

As publicações frequentemente geram milhares de comentários e discussões acaloradas. Em alguns casos, o cartunista precisou até desativar comentários diante de ataques e ofensas. “Quando começou a faltar respeito, eu desativei. E aí o pessoal fica mais bravo ainda porque não consegue comentar.”

Embora o trabalho artístico tenha ganhado força recentemente, Renan ainda divide a rotina entre a arte e outro emprego. Segundo ele, viver exclusivamente da produção autoral continua sendo um desafio no Brasil.

A primeira tentativa de criar uma loja virtual aconteceu ainda em 2015, mas fracassou. Anos depois, observando o crescimento das plataformas digitais e o comportamento dos seguidores, decidiu tentar novamente. “Fui observando YouTube, Instagram, entendendo como funcionava loja virtual. Hoje é muito mais fácil.” 

O novo projeto começou aproveitando justamente a base já consolidada nas redes sociais. “Pensei: tenho uma página com mais de 150 mil seguidores. Vou abrir um negócio e ver no que dá.”

O modelo funciona sob demanda: as peças só são produzidas conforme as vendas acontecem, reduzindo riscos financeiros. “Você corre risco, claro. Mas tentei estudar antes para não perder tanta grana.”

As camisetas com estampas irreverentes acabaram se tornando um dos produtos mais procurados pelos seguidores. Segundo ele, o próprio público incentivou a expansão. “A galera vivia perguntando por que eu não fazia camiseta. Hoje corro atrás disso e gosto muito.”

Em tempos em que algoritmos premiam conteúdos rápidos e superficiais, seus cartuns encontram público justamente ao tocar em frustrações coletivas, contradições sociais e hipocrisias cotidianas. “Tem dia que vende bem, outros não. Vai indo. Mas vale a pena.” Assista na íntegra aqui: