Entre livros e política, “Velho dos Livros” amplia voz progressista nas redes
Professor viu seu público crescer ao transformar indignação política em análise crítica sobre o avanço da extrema direita no Brasil
247 - O que começou como uma tentativa despretensiosa de falar sobre literatura nas redes sociais acabou se transformando em um dos perfis políticos mais contundentes do campo progressista nas plataformas digitais. Com mais de meio milhão de seguidores, o criador de conteúdo conhecido como “Velho dos Livros” construiu uma audiência fiel ao unir repertório acadêmico, linguagem direta e críticas contundentes ao avanço da extrema direita no Brasil.
Professor, com mestrado e doutorado na área, ele conta que jamais planejou se tornar influenciador político. Seu projeto de vida, desde os primeiros anos da universidade, era a carreira acadêmica. “Desde o início da graduação eu queria ser professor universitário. Entrei em laboratório de pesquisa, fiz iniciação científica e aquele ambiente acadêmico sempre foi meu objetivo de vida”, relembra.
Ao longo da trajetória, ele chegou a dar aulas na universidade, mas uma mudança abrupta em sua vida pessoal alterou os planos. Após um sequestro vivido por um familiar no Rio de Janeiro, ele precisou reorganizar a rotina e interrompeu temporariamente as atividades em sala de aula. Foi nesse período que decidiu gravar vídeos.
O Velho dos Livros afirma que o ambiente político dos últimos anos tornou impossível permanecer em silêncio diante do que considera absurdos cada vez mais naturalizados no debate público. “Diante de tantos absurdos normalizados no Brasil, comecei a falar sobre política porque aquilo estava me fazendo mal. Era uma forma de desabafar também.”
Ele costuma fazer análise política sobre o avanço da extrema direita, o uso eleitoral da religião e os impactos do bolsonarismo no debate público. Em vídeos que viralizam com frequência, ele critica o que considera a instrumentalização da fé por setores conservadores.
“Eu não tenho problema nenhum com fé. O problema é quando grandes igrejas funcionam como grandes empresas e transformam isso em projeto político-eleitoral e econômico.” Segundo ele, esse movimento ajuda a sustentar estruturas históricas de desigualdade no país.
“Esses grupos são muito funcionais para manter uma sociedade profundamente desigual. Enquanto o trabalhador continua sem acesso à dignidade básica, vendem a promessa de recompensa em outra vida”, questiona.
O preço de se posicionar nas redes
Com visibilidade crescente, vieram também ataques, processos e tentativas de intimidação. Ainda assim, ele trata os episódios com ironia. “São seis ou sete processos. Quando olho quem está me processando, até fico orgulhoso, porque geralmente são pessoas com falas racistas, homofóbicas ou transfóbicas.”
Apesar das ameaças ocasionais, ele reconhece que mulheres criadoras de conteúdo político costumam sofrer ataques muito mais violentos. “O nível de ameaça contra mulheres é muito maior. Eu sou homem, branco e hétero. Isso me protege em alguma medida dentro dessa lógica violenta.”
A autenticidade também se tornou uma das marcas de seu trabalho. Sem roteiros rígidos, ele prefere gravar de forma espontânea, apostando em uma linguagem direta que aproxima seguidores.
O resultado é uma base de fãs extremamente engajada e também críticos igualmente barulhentos. Ao analisar o cenário político brasileiro, o influenciador não esconde o pessimismo em relação às próximas eleições. “A previsão eleitoral é tenebrosa.”
Para ele, o problema vai além da comunicação do campo progressista e está diretamente ligado ao aprofundamento das desigualdades econômicas e aos efeitos prolongados da crise do capitalismo iniciada em 2008. Ele também reconhece os limites das redes sociais como ferramenta de convencimento político.
“As redes funcionam como nicho. O algoritmo privilegia bolhas. Meu conteúdo não tem como objetivo converter ninguém. Muitas vezes, é só um desabafo.”
A sinceridade talvez explique por que tantos seguidores se identificam com suas falas: elas traduzem um sentimento compartilhado por parte do campo progressista diante do crescimento da extrema direita.
Para além do personagem
Apesar do tom combativo nos vídeos, ele diz que, fora das redes, leva uma vida tranquila e lida com uma questão cada vez mais comum entre criadores de conteúdo: a dificuldade de separar personagem e vida pessoal. “Cada vez mais eu sou o Velho dos Livros e cada vez menos eu sou só eu. Isso tem sido uma questão.”
Entre livros, política e algoritmos, o Velho dos Livros representa um fenômeno cada vez mais presente no Brasil: intelectuais que encontraram nas redes sociais uma forma de ampliar o debate público para além dos muros da universidade.
E, em tempos de radicalização política e desinformação em escala industrial, talvez esse movimento diga tanto sobre o criador quanto sobre o país que o transformou em fenômeno digital.
Assista na íntegra aqui: