Escritor analisa religião e submissão política em tempos de eleições
Em entrevista à TV 247, teólogo e criador de conteúdo desmonta a aliança entre fé institucional e poder político e propõe um novo olhar sobre masculinidade
Beatriz Bevilaqua, 247 - A religião pode ser instrumento de acolhimento, mas também de controle social. É dessa tensão que parte o trabalho do teólogo, pesquisador e escritor Mateus Dolny, autor do livro “deus: a maior mentira já contada”. Nascido em Palmas (TO), doutor em Teologia e criador de conteúdo digital, Dolny reúne mais de 200 mil seguidores nas redes sociais, onde produz vídeos sobre religião, ateísmo, sociedade, masculinidades e pensamento crítico.
Ao longo da entrevista, o pesquisador falou sobre sua trajetória pessoal, a ruptura com a fé cristã, os impactos sociais da religião institucionalizada e os desafios de promover debates críticos em um país onde religião e política seguem profundamente conectadas.
Da vocação pastoral ao pensamento crítico
Dolny conta que sua aproximação com a teologia nasceu dentro da própria experiência religiosa. O desejo inicial era tornar-se pastor. No entanto, o aprofundamento acadêmico acabou levando-o a conclusões diferentes das que imaginava quando iniciou os estudos.
“Eu estudei teologia, sobre o cristianismo, religiões ao redor do mundo, e percebi que eu, pessoalmente, não acreditava naquilo. Mas ainda assim me interessava muito estudar sobre o tema”, afirma. Segundo ele, a motivação para seguir pesquisando nunca esteve ligada apenas à religião, mas a uma busca por liberdade e justiça social. Desde a infância, sentia incômodo diante de práticas de exclusão observadas em ambientes religiosos.
“Eu me incomodava com muita coisa ali na igreja, mas não sabia muito bem explicar o porquê. Sempre estava conectado com temas como preconceito e exclusão de pessoas.” Esse desconforto cresceu ao observar discriminações relacionadas à sexualidade, escolhas pessoais e estilos de vida. Foi a partir dessas experiências que começou a reunir argumentos que mais tarde se transformariam em sua produção acadêmica e digital.
Embora hoje encontre nas redes sociais um público receptivo às suas críticas, Dolny relata que a convivência cotidiana nem sempre foi simples. Durante os anos em que estudava teologia, chegou a esconder suas convicções em situações banais para evitar conflitos.
“Chegou um momento em que eu decidi mentir para as pessoas e falar por cima que era cristão, porque sempre que eu falava que era ateu tinha um retorno negativo.” Ele relembra um episódio marcante vivido durante uma corrida de aplicativo, quando o motorista passou boa parte do trajeto tentando convencê-lo a retornar ao cristianismo.
“Esse é apenas um exemplo de como a vida pode ser afetada quando você deixa de acreditar em algo que é tão popular como o cristianismo aqui no Brasil.” Para o pesquisador, a dificuldade de parte da sociedade em aceitar pessoas sem religião demonstra o quanto a identidade religiosa ainda ocupa um espaço central na construção das relações sociais brasileiras.
Religião, política e mecanismos de poder
Um dos temas centrais do livro de Dolny é a relação histórica entre religião e poder político. Em um dos trechos da obra, ele argumenta que a fé institucionalizada frequentemente ultrapassa o campo das crenças individuais e atua como mecanismo de disciplina social.
“A submissão política era reforçada pela submissão espiritual. Questionar o poder passava a soar como questionar a vontade divina.”
Segundo o autor, esse modelo não pertence apenas ao passado. Na sua avaliação, estruturas semelhantes continuam presentes na política contemporânea. “As pessoas conseguem compreender que isso foi um problema na Europa medieval. Mas, quando trazemos para os dias de hoje, muitas vezes não conseguem perceber que as mesmas estratégias continuam sendo utilizadas. Só trocaram os personagens.”
Dolny cita como exemplo a aproximação entre lideranças religiosas e figuras políticas conservadoras, estabelecendo uma relação de benefício mútuo. “Eles conseguem colocar o outro no poder e o outro atua no poder em benefício dessas pessoas.”
Ao analisar declarações recentes de figuras públicas sobre colonização e religião, o pesquisador afirma preferir atribuir muitas dessas posições à falta de conhecimento histórico. “A igreja está bem registrada historicamente como uma instituição que também se beneficiou financeiramente da escravidão e de diversos processos de violência.”
Para além das redes sociais, Dolny acredita que a principal ferramenta de transformação continua sendo a educação. “Quanto mais os países investem em educação desde os anos iniciais, menos tendem a ser religiosos. Isso está relacionado ao desenvolvimento do pensamento crítico.”
O outro projeto: mostrar que homens também podem ser vulneráveis
Além do perfil principal, focado em religião e sociedade, Dolny mantém o projeto “O Homem Que Chora”, voltado para reflexões sobre masculinidade. A proposta surgiu como contraponto ao crescimento de discursos associados à chamada masculinidade tóxica.
“É importante mostrar que não precisa existir apenas o homem fortão, dominador, que nunca demonstra fragilidade.” No perfil, ele compartilha situações cotidianas, dificuldades pessoais e até momentos de constrangimento.
Questionado sobre a relação entre religião e modelos tradicionais de masculinidade, Dolny argumenta que parte significativa dessas construções está associada a interpretações do cristianismo. Para ele, muitos grupos religiosos ainda utilizam personagens bíblicos para justificar relações hierárquicas entre homens e mulheres.
“A Bíblia foi escrita por homens e para homens. Eles são os protagonistas da narrativa.” Segundo o pesquisador, leituras literais e descontextualizadas acabam reforçando visões de superioridade masculina.
“A referência que muitos recebem é que as mulheres devem ser submissas e servir aos homens.” Ele ressalta, porém, que interpretações mais amplas dos textos bíblicos podem apontar para relações de reciprocidade e cuidado mútuo, algo frequentemente ignorado por lideranças religiosas interessadas em preservar estruturas tradicionais de poder.
Ao olhar para o futuro do Brasil, Dolny admite ter uma visão cautelosa. “Pelo momento, não tenho muita esperança em mudanças tão profundas.” Ainda assim, enxerga sinais positivos no crescimento de criadores de conteúdo que discutem criticamente religião, política e direitos sociais.
“Mais do que aumentar o número de pessoas ateias, está se criando um contexto em que as pessoas se sentem mais livres para expor aquilo que pensavam esse tempo todo.”
Para ele, essa abertura ao debate pode representar uma transformação importante, ainda que lenta. Em um país onde religião, política e costumes continuam profundamente entrelaçados, a disputa por narrativas permanece intensa. A diferença, avalia, é que cada vez mais pessoas passaram a encontrar espaços para questionar certezas antes consideradas intocáveis.
Assista à entrevista:
