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Expedição revela força do empreendedorismo indígena no Alto Solimões

Imersão em Benjamin Constant destaca protagonismo de mulheres ticuna e modelo sustentável que une tradição e mercado

Produção de artesanato na Associação das Mulheres Artesãs Ticunas (Foto: Rodrigo Amorim/Divulgação Sebrae )

247 - Uma expedição realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Alto Solimões, no Amazonas, evidenciou a força do empreendedorismo indígena na região. A iniciativa foi detalhada pela Agência Sebrae de Notícias (ASN), que acompanhou a imersão no município de Benjamin Constant, localizado na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

A ação integra uma agenda estratégica que conecta o projeto Brasilidades ao programa Cidade Empreendedora no estado. O objetivo é fortalecer atividades econômicas locais, com destaque para o artesanato, considerado uma das principais vocações produtivas do território.

Segundo dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam), o município reúne 66 comunidades rurais e mais de 48 mil habitantes. Cerca de 90% dessas comunidades têm no artesanato sua principal fonte de renda, evidenciando o peso econômico da atividade.

Protagonismo das mulheres ticuna

Na comunidade Bom Caminho, a equipe conheceu o trabalho da Associação das Mulheres Artesãs Ticunas (Amatu), formada por aproximadamente 200 mulheres formalizadas. O grupo transforma conhecimentos ancestrais em produtos com valor comercial, integrando uma cadeia produtiva que envolve homens e mulheres de diferentes idades.

Mais do que peças artesanais, o que se observa é um modelo estruturado de negócio baseado na sociobioeconomia — conceito que alia geração de renda, preservação ambiental e valorização cultural. A produção inclui itens como cestos, luminárias e biojoias, feitos a partir de matérias-primas da floresta.

Desafio e sustentabilidade na produção

O processo produtivo começa na coleta de insumos naturais, como o arumã, fibra essencial para o artesanato local. A extração exige longas jornadas na mata, enfrentando condições adversas e limitações naturais. Nem todo material coletado pode ser utilizado, o que aumenta o valor das peças finais.

Além disso, há uma preocupação constante com o manejo sustentável, garantindo a reposição dos recursos naturais. Esse conhecimento tradicional, transmitido entre gerações do povo Ticuna, posiciona os artesãos como guardiões da floresta.

A gestora do Projeto de Artesanato do Sebrae Amazonas, Lilian Sílvia Simões, destacou a importância desse modelo. “Quando alguém adquire um produto desses, não está comprando apenas artesanato. Está contribuindo diretamente com a preservação da floresta e com a continuidade de um modelo de vida. Essa é a lógica da sociobioeconomia que orienta a atuação do Sebrae nesses territórios.”

Acesso a mercado e reconhecimento internacional

O trabalho do Sebrae com o povo Ticuna não é recente. Há mais de uma década, a instituição atua na estruturação do setor, oferecendo capacitação, apoio à gestão, inovação e acesso a mercados. O reconhecimento de Benjamin Constant como polo de artesanato surgiu a partir de mapeamentos realizados durante o ciclo da Copa do Mundo de 2014.

Atualmente, os artesãos estão cadastrados no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab), participam de feiras nacionais e já exportaram peças para países como Itália e Inglaterra. O próximo passo é a obtenção de Indicação Geográfica (IG), selo concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial, que reconhece a origem e autenticidade dos produtos.

Valorização da cultura e geração de renda

Para o gerente nacional de Comunicação do Sebrae, Felipe Damo, a experiência reforça a diversidade cultural brasileira. “A impressão que a gente tem é de que o Brasil é uma fonte inesgotável de criatividade. O artesanato traduz isso de forma muito genuína, com valor enorme, mas que muitas vezes não é reconhecido. Estar aqui é permitir que mais brasileiros, e o mundo, conheçam essa riqueza cultural e histórica”, afirmou.

Ele também destacou o caráter mais amplo da iniciativa. “O Sebrae está fazendo, em 2026, um mergulho profundo na brasilidade. É um retorno ao Brasil real, que muitas vezes é invisível, mas precisa ser visto, compreendido e conectado ao mercado.”

Na ponta desse processo está Rosa Chota Davilla, presidente da Amatu e reconhecida entre as melhores artesãs do país na 5ª edição do Prêmio Top 100. Ela ressaltou o impacto do apoio institucional. “O Sebrae é muito importante para nós. A gente se sente acolhida e assistida, porque eles nos apoiam junto com a Prefeitura e outras instituições. Esse incentivo é fundamental para que a gente continue, melhore o nosso negócio e fortaleça o artesanato, que é a nossa principal fonte de renda.”

Próximos passos e expansão

O fortalecimento do setor inclui ações contínuas de formalização, organização produtiva e preparação para novos mercados. Como parte dessa estratégia, artesãos de diferentes comunidades participarão da rodada de negócios “Encontro para tecer negócios”, prevista para 22 de abril.

A expectativa é ampliar a visibilidade e transformar o reconhecimento cultural em geração de renda, consolidando um modelo de desenvolvimento que preserva tradições e amplia oportunidades econômicas na região amazônica.