Franquias brasileiras ainda não dominam a inteligência artificial
Pesquisa da ABF revela que 85% das redes usam IA, mas apenas 9% operam em estágio avançado, com tecnologia integrada aos processos estratégicos
247 - O setor de franchising no Brasil vive atualmente um paradoxo tecnológico. Embora a inteligência artificial já esteja presente no cotidiano de grande parte das redes, a tecnologia ainda está longe de ocupar um papel central na gestão das operações. O cenário revela uma adoção acelerada, impulsionada pela popularização das ferramentas de IA generativa, mas também expõe dificuldades estruturais para transformar esse uso em ganhos estratégicos de produtividade e governança.
Dados recentes da Associação Brasileira de Franchising (ABF), divulgados em pesquisa sobre maturidade tecnológica no setor, indicam que 85% das redes já utilizam algum tipo de inteligência artificial. Apesar da ampla adesão, apenas 9% afirmam operar em estágio avançado, com a tecnologia efetivamente integrada a processos-chave do negócio.
A situação brasileira contrasta com o avanço observado em mercados mais maduros. De acordo com o levantamento Gartner AI Maturity Survey 2025, cerca de 13% das organizações globais já atingiram um alto nível de maturidade no uso de inteligência artificial. Nesse patamar, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de apoio e passa a atuar como motor de retorno financeiro mensurável e consistente.
No Brasil, a realidade ainda é marcada por experimentação e iniciativas isoladas. Segundo a pesquisa da ABF, 37% das redes estão em fase de testes ou projetos-piloto envolvendo IA. Outros 22% dependem da iniciativa informal de colaboradores que adotam ferramentas por conta própria, sem que haja uma estratégia institucional clara.
Para Reginaldo Kaeneêne, fundador e presidente da rede KNN Idiomas, uma das maiores do segmento no país, o entusiasmo com a inteligência artificial esbarra em um problema estrutural ligado à formação de profissionais qualificados. “O Brasil já entendeu o valor da tecnologia, mas ainda forma pouca gente para operar a tecnologia”, afirma o empresário, que também atua como palestrante e especialista em empreendedorismo.
Segundo ele, a ausência de capacitação adequada faz com que a inovação permaneça na periferia das operações empresariais. “Sem qualificação, a IA vira ferramenta solta — ajuda no curto prazo, mas não muda produtividade nem gestão”, explica. A percepção é reforçada pelos números da pesquisa da ABF: 47% das redes apontam a falta de conhecimento técnico interno como o principal obstáculo à adoção mais avançada da tecnologia, índice superior ao apontado para os custos de implementação, citados por 38%.
Na prática, a inteligência artificial já possui forte presença nas atividades de front-office das franquias brasileiras. O marketing e a gestão de redes sociais concentram 83% das aplicações, seguidos pela produção de materiais internos (62%) e pelo atendimento ao cliente (55%). Ferramentas como chatbots, utilizadas por 75% das redes, e geradores de texto, adotados por 71%, tornaram-se as principais portas de entrada para a tecnologia.
Por outro lado, o uso de inteligência artificial em áreas mais estratégicas — como análise preditiva de dados e apoio a decisões complexas de negócios — ainda é limitado. Esse desequilíbrio evidencia que muitas redes utilizam a tecnologia para otimizar tarefas pontuais, mas ainda não a incorporaram plenamente à gestão.
Outro desafio relevante envolve a governança no uso da IA. Enquanto empresas líderes na Europa e nos Estados Unidos avançam na criação de comitês de ética e políticas formais para proteger dados proprietários e regular o uso da tecnologia, o franchising brasileiro ainda está no início desse debate. Apenas 8% das franquias possuem atualmente uma política formal de uso de inteligência artificial, enquanto 35% ainda não iniciaram qualquer discussão sobre o tema.
Apesar das lacunas, o cenário aponta sinais de transformação nos próximos anos. A pesquisa da ABF mostra que 77% das franqueadoras pretendem ampliar ou estruturar melhor o uso da inteligência artificial nos próximos 12 meses. Na prática, os benefícios já começam a aparecer: 73% das redes relatam aumento de produtividade e 63% afirmam ter automatizado tarefas repetitivas graças à tecnologia.
Para Reginaldo Kaeneêne, o desafio agora é transformar avanços pontuais em uma estratégia consistente de gestão. “Isso passa obrigatoriamente por capacitação, processo e disciplina de execução”, conclui o empresário.