HOME > Empreender

Guia alerta empreendedores sobre erros que levam empresas à falência

Documento da Oryx Capital aponta oito falhas recorrentes de gestão financeira e patrimonial que podem comprometer empresas

Guia alerta empreendedores sobre erros que levam empresas à falência (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

247 - Empreender no Brasil exige mais do que disposição para assumir riscos. Em um ambiente econômico marcado por volatilidade e alta complexidade regulatória, a sobrevivência de um negócio depende cada vez mais de planejamento financeiro e de mecanismos eficazes de proteção patrimonial.

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram a dimensão desse desafio. Cerca de 20% das empresas encerram as atividades já no primeiro ano de operação, e mais da metade não consegue ultrapassar cinco anos de funcionamento.

Apesar de muitas vezes associada à falta de faturamento, a principal causa de fechamento de empresas costuma estar ligada a problemas estruturais de gestão financeira e à ausência de estratégias legais de proteção do patrimônio dos fundadores. A análise é da gestora Oryx Capital, especializada em assessoria de investimentos, que lançou recentemente um guia estratégico voltado a empresários.

O material funciona como um “manual” para identificar riscos que, segundo a gestora, costumam passar despercebidos nos indicadores tradicionais de desempenho. Esses chamados “riscos invisíveis” podem não aparecer no resultado mensal da empresa, mas têm potencial para comprometer anos de construção de patrimônio em um único evento adverso.

Entre os problemas mais comuns está o que o documento chama de “paradoxo do sucesso operacional”. Muitos empreendedores acreditam que um negócio lucrativo automaticamente garante segurança financeira e patrimonial. Na prática, porém, a falta de estratégias de proteção e diversificação pode transformar o empresário em refém do próprio negócio e das oscilações do mercado brasileiro.

O guia identifica oito armadilhas recorrentes que comprometem o crescimento sustentável das empresas. A primeira é a chamada “ilusão do caixa”, caracterizada pela mistura entre finanças pessoais e empresariais. Pagar despesas particulares com recursos da empresa, além de distorcer indicadores de rentabilidade, aumenta o risco tributário e pode abrir brechas legais para que dívidas corporativas atinjam o patrimônio familiar.

Outro ponto crítico destacado no documento é a negligência com o capital de giro. Mesmo empresas com vendas elevadas podem enfrentar insolvência quando os prazos de recebimento são longos e não há caixa suficiente para manter a operação no curto prazo.

A segunda grande armadilha é a concentração excessiva de risco. Muitos fundadores seguem a lógica de reinvestir integralmente os lucros no próprio negócio, sem criar uma reserva financeira ou diversificar investimentos. Com isso, todo o patrimônio pessoal acaba vinculado a um único CNPJ.

O guia também aponta o planejamento tributário insuficiente como um erro recorrente. A falta de revisões periódicas do regime fiscal ou falhas na classificação de produtos e serviços pode gerar pagamentos indevidos de impostos ou levar a autuações fiscais. Em alguns casos, as multas podem chegar a 150% do valor do tributo devido.

Outro problema frequente é o crescimento acelerado sem planejamento financeiro adequado. Nesse cenário, pode surgir o chamado “efeito tesoura”: enquanto as vendas aumentam com prazos de pagamento alongados, os custos operacionais crescem à vista, comprimindo o caixa da empresa e forçando a contratação de empréstimos caros para cobrir despesas imediatas.

O documento também chama atenção para a elevada exposição jurídica no ambiente empresarial brasileiro. Como forma de proteção, a gestora aponta instrumentos legais como a criação de uma holding familiar, que pode separar o patrimônio pessoal dos riscos associados à operação do negócio, como disputas trabalhistas, fiscais ou societárias.

No campo dos investimentos, o guia critica o que chama de “mito do gênio”. Empresários acostumados a assumir riscos no próprio negócio muitas vezes reproduzem esse comportamento no mercado financeiro, realizando apostas concentradas. A recomendação da Oryx Capital é diversificar e internacionalizar parte do patrimônio, inclusive com ativos dolarizados, como forma de reduzir a exposição ao chamado “risco Brasil”.

O planejamento sucessório também aparece entre os pontos sensíveis. Segundo a análise da gestora, a ausência de regras claras de governança — como acordos de sócios ou conselhos consultivos — pode paralisar empresas quando ocorre o afastamento do fundador. Nesses casos, a sucessão resolvida apenas por inventário judicial costuma gerar custos elevados e conflitos familiares capazes de comprometer o valor do negócio.

Por fim, o guia destaca o impacto da tomada de decisões isoladas. Muitos empreendedores concentram questões estratégicas exclusivamente no contador ou tentam lidar sozinhos com temas complexos de contabilidade, investimentos e sucessão. Sem uma visão integrada, soluções pontuais podem resolver problemas imediatos de caixa, mas acabam criando passivos fiscais ou patrimoniais no longo prazo.