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Historiador transforma militância em negócio digital e cria cursos de pensamento crítico

André Jacobina usa YouTube e plataformas online para ampliar o acesso à formação política e mostra como é possível empreender sem abrir mão de convicções

Historiador André Jacobina (Foto: Divulgação )

Beatriz Bevilaqua, 247 - A trajetória de André Teixeira Jacobina não começa no empreendedorismo e nem poderia. Historiador, doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e filho de dois professores universitários profundamente ligados à ciência e à democracia, ele construiu sua carreira movido por uma inquietação central: entender as injustiças do mundo e agir sobre elas.

Hoje, à frente do canal “A Nova Máquina do Tempo”, com mais de 160 mil inscritos, Jacobina encontrou uma forma de transformar conhecimento em projeto sustentável. Entre vídeos políticos, análises e cursos sobre autores da esquerda, ele consolidou um modelo que une formação crítica, militância e geração de renda.

Antes de chegar ao YouTube, a história de Jacobina passa pela própria história de seus pais: ambos médicos, professores e militantes. “Eu sou historiador e acredito que, para contar minha história, tenho que começar pela história do meu pai e da minha mãe”, afirma.

O pai, de origem humilde, encontrou nos livros uma virada de destino. “Minha avó materna lhe emprestou um livro e disse: ‘da próxima vez que vier aqui procurar minha filha, me diga o que achou’. Ele começou lendo apenas a orelha, mas logo percebeu que precisava ler de verdade  e nunca mais parou”, conta.

Esse ambiente moldou não apenas o gosto pelo conhecimento, mas também o compromisso político. “Ambos lutaram contra a ditadura militar, defendem a democracia, são filiados ao Partido dos Trabalhadores. São duas inspirações extraordinárias pra mim.”

Ao escolher a própria carreira, Jacobina foi direto ao ponto: queria entender por que o mundo é desigual. “Eu queria compreender as injustiças do mundo e contribuir para que ele fosse mais justo. Mesmo que de forma pequena”, diz. A resposta veio na história: “A história da humanidade era a ferramenta mais poderosa para compreender o poder e a política.”

O doutorado, a crise e a virada digital

A formação acadêmica seguiu o caminho esperado de graduação, mestrado em História Política e doutorado em Saúde Coletiva, articulando política, movimentos sociais e saúde pública. Mas o plano de se tornar professor universitário foi interrompido por um fator externo: o desmonte das políticas de financiamento e a ausência de concursos.

“Eu me preparei a vida toda para ser professor universitário. E não tinha concurso”, relembra. Foi nesse cenário que surgiu a alternativa de criar um canal no YouTube.

Inspirado por criadores internacionais, Jacobina decidiu testar o formato como espaço de expressão política. “Era uma espécie de veículo para a minha militância, para falar que igualdade e liberdade são valores complementares.”

O crescimento veio aos poucos e depois, de forma acelerada. Um vídeo analisando o programa Roda Viva marcou o ponto de virada. “Meu canal era pequeno, tinha pouco mais de mil inscritos. Esse vídeo teve mais de 10 mil visualizações. Depois, outro bateu mais de 100 mil.”

A parceria com a TV 247 ampliou ainda mais o alcance. “Grande parte dos inscritos veio dessa relação com o canal, com Leonardo Attuch e outras pessoas da TV 247.”

Com a consolidação do canal e a chegada da pandemia, Jacobina transformou seu conteúdo em cursos online. A proposta é oferecer formação acessível sobre autores e temas fundamentais da esquerda, como Marx, Gramsci, Bourdieu e George Orwell. Os cursos são vendidos em plataformas digitais e contam com um programa de afiliados, no qual qualquer pessoa pode divulgar o conteúdo e receber comissões.

“Eu pensei: como transformar isso em algo sustentável? E os cursos foram um caminho”, explica. O modelo também dialoga com a lógica contemporânea do empreendedorismo digital, mas com uma diferença central: o conteúdo não é neutro. Pelo contrário, assume posição política clara.

“Eu percebi que o neofascismo era uma ameaça civilizatória. E isso, pra mim, foi um chamado para a luta”, afirma. “Mais importante do que ganhar dinheiro, é estar do lado de quem quer uma sociedade mais justa.”

Entre técnica, militância e propósito

Os desafios foram muitos, especialmente no início. “Eu não sabia qual equipamento usar, não sabia mexer nos programas. Fui aprendendo tudo na prática.”

Além da técnica, houve também resistência dentro do próprio meio acadêmico. “Existe um certo ceticismo com o que eu faço.” Ainda assim, Jacobina seguiu apostando na ideia de que o conhecimento precisa ultrapassar os muros da universidade.

Hoje, o canal e os cursos representam não apenas uma fonte de renda, mas uma extensão de sua atuação política. A experiência de André Teixeira Jacobina aponta para um caminho cada vez mais relevante no Brasil de transformar produção intelectual em projetos independentes, capazes de gerar renda e impacto social ao mesmo tempo.

Ao levar debates complexos para plataformas digitais e criar formas de financiamento coletivo, ele demonstra que o empreendedorismo pode ser também um instrumento de disputa de ideias. No fim das contas, sua motivação segue a mesma que o levou à história ainda jovem: “Eu queria dormir sabendo que fiz o que pude para que menos gente sofresse.”

Em um ambiente digital muitas vezes dominado por desinformação, iniciativas como a dele sugerem que também há espaço para o conhecimento como ferramenta de transformação e como negócio. Assista a entrevista na íntegra aqui:

Assista à entrevista: