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Influenciador indígena usa a internet para preservar a história dos povos originários

Professor, tradutor e criador de conteúdo da Aldeia Karanã, Cauã Wirapayé usa as redes sociais para criar novas formas de empreendedorismo cultural

Cauã Wirapayé, criador de conteúdo da Aldeia Karanã (Foto: Divulgação )
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Beatriz Bevilaqua, 247 - Quando Cauã Wirapayé publicou seus primeiros vídeos na internet, a intenção era simples: compartilhar músicas em Nheẽgatu e divulgar sua produção artística. Anos depois, o indígena Borari da Aldeia Karanã viu seus conteúdos alcançarem dezenas de milhares de pessoas e se transformarem em uma poderosa ferramenta de educação, letramento e enfrentamento ao racismo.

Artista, professor, tradutor da primeira versão da Constituição Federal de 1988 para uma língua indígena e integrante da Academia de Língua Nheẽgatu, Cauã encontrou nas plataformas digitais uma forma de disputar narrativas históricas que, segundo ele, continuam apagando os povos originários do Brasil. “Eu sou uma pessoa apaixonada pela minha cultura, pela minha história, pela minha língua. Desde a infância tive isso como paixão: a floresta, as águas, o rio, a língua. Eu sou um poeta, e a minha poesia também é contada para isso”, afirma.

Combater o apagamento histórico

Um dos vídeos que mais repercutiram em suas redes sociais traz um título provocativo: “Não existia diabo”. A publicação viralizou ao questionar interpretações coloniais sobre as espiritualidades indígenas.

Segundo Cauã, o objetivo não era atacar religiões, mas desconstruir leituras impostas durante séculos de colonização. “A intenção é quebrar essas perspectivas da colonização sobre as nossas espiritualidades e sobre os nossos seres espirituais, que chamamos de encantados”, explica. Para ele, o preconceito muitas vezes alcança até os próprios indígenas, que acabam reproduzindo visões que demonizam suas histórias e tradições.

Esse trabalho de conscientização ganhou força justamente porque o criador de conteúdo percebe uma lacuna persistente na educação brasileira. Embora o ensino da história e cultura indígena seja obrigatório nas escolas desde 2008, ele avalia que o país ainda está distante de um verdadeiro letramento sobre os povos originários.

“Muitas pessoas continuam reproduzindo o mesmo discurso que existia desde o início da chegada dos europeus”, afirma.

Grande parte do conteúdo produzido por Cauã busca enfrentar estereótipos profundamente enraizados. Um dos mais recorrentes é a ideia de que indígenas só existem em territórios isolados ou que precisam corresponder à imagem construída pelos livros didáticos.

“Hoje mesmo vi alguém comentar que eu deveria tirar a barba porque era o primeiro índio barbado que ele via”, relata. Para ele, esse tipo de comentário revela o desconhecimento sobre a diversidade dos povos indígenas e sobre os mais de cinco séculos de contato e miscigenação ocorridos no território brasileiro.

O ativista também chama atenção para a invisibilidade dos indígenas que vivem em grandes centros urbanos. Ele lembra que São Paulo abriga uma das maiores populações indígenas do país e reúne falantes de diversas línguas originárias, mas ainda assim muitos moradores sequer reconhecem essa presença.

“Muitas vezes nos confundem com bolivianos, paraguaios ou até asiáticos. Não conseguem nos enxergar como os povos nativos deste território”, afirma.

Segundo Cauã, essa invisibilidade produz consequências concretas. Em universidades e instituições públicas, ele relata episódios frequentes em que indígenas têm sua identidade questionada apenas porque falam português, estudam ou utilizam tecnologias. “É como se ter celular, CPF ou formação acadêmica anulasse a condição indígena”, critica.

Quando a cultura também gera renda

Embora a militância esteja no centro de seu trabalho, Cauã também encontrou nas redes sociais um caminho para a autonomia financeira.

O crescimento foi acelerado. Seu perfil tinha cerca de 1.600 seguidores até o final de 2025. Após começar a publicar vídeos sobre história indígena antes da colonização, o número saltou para 76 mil seguidores em poucos meses.

Apesar disso, ele explica que a produção de conteúdo não gera renda direta significativa. O valor está na capacidade de abrir portas para outras atividades.

“A produção de conteúdo é uma vitrine. Ela atrai alunos, atrai traduções, atrai pessoas interessadas no meu trabalho artístico. Às vezes vendo uma máscara, consigo uma tradução ou um novo curso”, conta.

Entre essas oportunidades estão as aulas online de Nheẽgatu. Curiosamente, a maior parte dos estudantes não está no Brasil.

“Tenho alunos da Itália, da Alemanha, da Inglaterra e do Japão. Muitos querem conhecer uma língua indígena para além das línguas coloniais. São pessoas interessadas em decolonizar a própria mente”, relata.

Para ele, o empreendedorismo surgiu menos como uma escolha e mais como uma necessidade diante das oportunidades que foram aparecendo ao longo da trajetória. “Eu me vejo como uma pessoa autônoma, inclusive pensando no meu futuro e no meu processo de envelhecimento”, afirma.

A internet como território de disputa

A experiência digital de Cauã está longe de ser apenas uma busca por audiência. Ele enxerga as plataformas como espaços estratégicos para combater preconceitos históricos e ampliar o acesso ao conhecimento sobre os povos indígenas.

Esse compromisso vem de longa data. Em 2017, participou da elaboração de um material educativo produzido em parceria com órgãos públicos para enfrentar o preconceito contra povos indígenas nas escolas. O projeto nasceu após denúncias de racismo vivenciadas por estudantes indígenas no ambiente universitário.

Ao ocupar as redes sociais, ele dá continuidade a esse trabalho, agora dialogando diretamente com milhares de pessoas.

A trajetória de Cauã Wirapayé mostra que empreendedorismo nem sempre nasce apenas da criação de um negócio. Em alguns casos, surge da capacidade de transformar conhecimento, cultura e identidade em instrumentos de autonomia econômica e transformação social.

Ao ensinar uma língua indígena para alunos espalhados pelo mundo, vender sua arte, traduzir documentos e produzir conteúdo que questiona narrativas coloniais, ele constrói uma ponte entre ancestralidade e tecnologia.

Assista a entrevista na íntegra aqui: