Irmãos criam canal para democratizar mandarim no Brasil
Com método próprio, Lucas Cheng aposta na combinação entre tecnologia e acompanhamento humano para aproximar brasileiros da língua chinesa
Beatriz Bevilaqua, 247 - A ideia de que o mandarim é impossível de aprender ainda assusta muita gente. Tons, ideogramas, distância cultural. Mas para Lucas Cheng, esse medo tem mais a ver com falta de contato do que com dificuldade real. Ao lado do irmão, ele criou o projeto Irmãos Mandarim, uma escola 100% online dedicada ao ensino de chinês para brasileiros com a missão declarada de tornar o idioma mais acessível.
Descendente de chineses, Lucas carrega no próprio sobrenome a herança que transformou em negócio. “Meu pai é chinês. Minha mãe é baiana”, conta. A identidade multicultural sempre esteve presente dentro de casa.
Foi dessa vivência que nasceu o empreendimento. O irmão, Tiago, já dava aulas desde 2008, após morar na China. Lucas, por sua vez, decidiu empreender alguns anos depois. “Quando eu voltei, tive justamente essa ideia de empreender, de fazer o nosso curso online e trazer esse ensino do mandarim”, explica.
Desmistificando o “idioma impossível”
O principal obstáculo, segundo Lucas, é psicológico. “Essa é uma das pensamentos que a gente mais ouve entre nós, brasileiros. Mas ele garante que o susto inicial não resiste ao primeiro contato estruturado. “Quando as pessoas têm esse primeiro contato, seguindo a metodologia, começamos a perceber que na verdade é muito mais simples.”
Um dos argumentos que ele usa para desmontar o mito da dificuldade é gramatical. “O bom do mandarim é que não tem conjugação de verbos.” Para quem vem do português, com suas flexões verbais complexas, a simplificação pode ser uma vantagem competitiva.
Lucas lembra que não há gênero como no português. Para ele, a soma desses fatores mostra que a dificuldade do mandarim está mais na percepção do que na prática.
Se o ensino é online, a tecnologia é parte central do modelo de negócio. O canal no YouTube dos Irmãos Mandarim acumula milhares de visualizações, com aulas gratuitas que funcionam como porta de entrada. Uma das primeiras aulas já ultrapassou 63 mil visualizações.
A inteligência artificial também já foi incorporada ao sistema da escola. “Ela já era uma realidade, então colocamos a ideia de usar ela para melhorar os nossos estudos”, explica Lucas. A plataforma desenvolvida pela equipe permite que alunos pratiquem conversação, tirem dúvidas, façam leitura de caracteres e treinamentos de tradução.
Mas ele faz questão de delimitar o papel da tecnologia. “Apesar de todos os avanços tecnológicos de tradução simultânea, saber outras línguas continua sendo uma habilidade fundamental.” E reforça a importância do fator humano: “A IA amplia o acesso, mas não substitui o professor. A proposta é soma, não competição”.
Oportunidade econômica e nova geopolítica
O crescimento da China como potência tecnológica e comercial não passa despercebido pelos alunos. Lucas observa que o interesse pelo mandarim tem aumentado junto com as oportunidades profissionais.
“A cada ano que passa, a relação comercial entre Brasil e China vem crescendo mais”, afirma. E isso se reflete no mercado de trabalho. “Cada vez mais vão surgindo oportunidades dentro do mercado de trabalho e oportunidades profissionais que envolvam empresas chinesas.”
Ele destaca que não é preciso ser fluente para começar a aproveitar essas oportunidades. “Muitas vagas surgem para quem esteja nesse primeiro passo como estudo de mandarim, seja no nível básico, seja no nível intermediário.”
Além disso, há um elemento cultural que favorece quem se arrisca. “Esse interesse dos chineses com pessoas que têm muito interesse no mandarim e na cultura chinesa.” Segundo ele, mesmo quem fala apenas frases básicas já percebe “a cordialidade do chinês” ao demonstrar esforço.
Para Lucas, o momento é estratégico. “É um ótimo momento, uma ótima hora para todo mundo dar os primeiros passos para entender o mandarim.”
Empreender ensinando pontes
O modelo da escola combina curso pago com acompanhamento e eventos gratuitos mensais para iniciantes. “Temos algumas opções. Primeira opção, o nosso curso mesmo, onde tem todo o nosso acompanhamento, onde os estudantes têm nosso suporte.” Mas também há a porta aberta: “Outra opção é o curso gratuito de mandarim para iniciantes, que fazemos de mês em mês.”
Mais do que vender aulas, o projeto parece apostar em construir pontes culturais. Ao enfrentar o preconceito linguístico e apostar na democratização digital, os irmãos transformaram herança familiar em estratégia de negócio e idioma em ferramenta de mobilidade social.
Num país que ainda olha para a Ásia com distância, iniciativas como essa sugerem uma pergunta incômoda: se a China já é o maior parceiro comercial do Brasil, por que o mandarim ainda é tratado como exótico? Talvez aprender a língua seja menos sobre pronúncia e mais sobre entender para onde o mundo está se movendo e decidir se queremos apenas assistir ou participar dessa conversa.
Assista a entrevista na íntegra aqui: