Jogo responsável ganha força e sustenta setor de apostas
Regulação impulsiona mercado bilionário e empresas adotam limites, autoexclusão e educação financeira para conter riscos e garantir crescimento sustentável
247 - O mercado de apostas esportivas no Brasil inicia uma nova fase marcada por maior controle regulatório e pela busca de práticas sustentáveis. Com a entrada em vigor da Lei 14.790/2023, a Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, passou a autorizar oficialmente a operação de plataformas no país. Dados do próprio ministério apontam que 158 empresas já receberam licença para atuar até 2029, com expectativa de arrecadação tributária que pode chegar a R$ 6 bilhões em 2025.
O avanço ocorre em um cenário de forte expansão econômica. Antes da regulamentação, estimativas do setor indicavam que as apostas movimentaram cerca de R$ 150 bilhões em 2023, ainda sob um ambiente pouco controlado. A formalização tende a ampliar a transparência e fortalecer a fiscalização, mas também traz à tona um desafio central: assegurar que o crescimento do mercado seja acompanhado por mecanismos eficazes de prevenção a riscos sociais.
Para Ricardo Santos, especialista em análise estatística e fundador da Fulltrader Sports, a sustentabilidade do setor está diretamente ligada à consolidação de políticas de jogo responsável. “A regulamentação criou um ambiente mais estruturado, mas isso não elimina o risco de comportamento compulsivo”, afirma.
Ele destaca que a responsabilidade deve ser compartilhada entre empresas e usuários. “Plataformas precisam oferecer ferramentas de proteção, e o usuário deve compreender que aposta é entretenimento com risco. Quando essa equação se rompe, o problema deixa de ser individual e passa a afetar todo o mercado”, diz.
Diante desse cenário, empresas têm revisado protocolos internos e adotado práticas voltadas à redução de danos. Entre as principais medidas apontadas por especialistas estão a definição de limites personalizados de depósito e tempo de uso, que ajudam a conter decisões impulsivas e favorecem o controle financeiro dos usuários.
Outro recurso relevante é a autoexclusão voluntária, mecanismo que permite ao próprio apostador suspender o acesso às plataformas por determinado período, funcionando como barreira em momentos de perdas consecutivas. A educação financeira integrada também ganha espaço, com conteúdos explicativos sobre probabilidade, variância e gestão de banca, reduzindo a percepção de ganhos fáceis e reforçando a noção de risco.
Além disso, o monitoramento de padrões de comportamento por meio de sistemas automatizados permite identificar apostas repetitivas ou aumentos abruptos nos valores investidos, possibilitando intervenções preventivas. Já no campo da comunicação, a publicidade responsável, sem promessas de lucro e com clareza sobre os riscos, é considerada essencial para evitar distorções na expectativa do consumidor.
Segundo Ricardo, a adoção dessas práticas vai além da reputação corporativa. “Empresas que estruturam políticas de prevenção reduzem conflitos com reguladores e fortalecem a relação com investidores. Sustentabilidade, aqui, significa continuidade do negócio no longo prazo”, afirma.
Com a regulamentação, as empresas autorizadas também passam a cumprir exigências mais rigorosas, como identificação de usuários, prevenção à lavagem de dinheiro e regras específicas para publicidade. A Secretaria de Prêmios e Apostas mantém uma lista pública de operadores habilitados, o que contribui para diferenciar plataformas legais de sites irregulares.
Apesar dos avanços, especialistas avaliam que a consolidação do setor dependerá também do comportamento do consumidor. “O setor só se torna sustentável quando arrecadação, tecnologia e responsabilidade caminham juntas. Crescimento sem controle amplia o risco social e pode provocar reação mais dura do poder público”, alerta Ricardo.