Jornalista amplia acesso à cultura chinesa no Brasil
Fundadora do “Momento China”, Márcia Carini aposta na comunicação e na vivência cultural para aproximar brasileiros do universo chinês
Beatriz Bevilaqua, 247 - A aproximação entre Brasil e China costuma ser medida por números como a balança comercial, investimentos e exportações. Mas, longe dos gráficos, há quem esteja construindo essa ponte a partir da cultura, da linguagem e das experiências cotidianas. É o caso da jornalista Márcia Carini, fundadora do “Momento China”, uma iniciativa que nasceu na universidade e hoje se desdobra em conteúdos, eventos e conexões entre pessoas e empresas dos dois países.
Em entrevista, Carini revisita uma trajetória de mais de duas décadas no mercado editorial e mostra como transformou a curiosidade acadêmica em um projeto que hoje dialoga diretamente com empreendedorismo e inovação. Após 25 anos em um grande conglomerado de mídia, ela reconhece que o impulso empreendedor já estava presente no dia a dia profissional. “Eu já era uma intraempreendedora. Era alguém que ficava criando coisas, pensando em possibilidades.”
Foi esse olhar inquieto que a fez se interessar pela China - primeiro pela arquitetura e urbanismo, áreas com as quais trabalhava, e depois pela língua. “Aprender uma língua significa se conectar com a cultura de um país”, explica. O interesse virou formação acadêmica, com graduação em mandarim, e, mais tarde, um mergulho ainda mais profundo durante a pandemia.
O momento de ruptura veio junto com a demissão. “Para muita gente poderia ser um choque depois de 25 anos. Para mim não foi”, relembra. A transição abriu espaço para criar algo próprio e alinhado ao que já vinha pesquisando.
O nascimento do Momento China
O Momento China surgiu como uma plataforma digital, inicialmente no Instagram, mas já com ambição de alcance amplo. “A gente já começa trazendo a embaixada da China junto conosco. Quem fez a live de abertura foi o ministro da educação chinês”, conta.
A iniciativa rapidamente extrapolou as redes sociais e ganhou corpo dentro e fora da universidade, com aulas abertas, eventos e conteúdos educativos. O projeto também deu origem a uma startup de intercâmbio linguístico, conectando digitalmente brasileiros e chineses interessados em aprender o idioma nativo um do outro.
“Submetemos esse projeto ao concurso InovaUSP, ganhamos e fomos incubados no Cietec”, diz. No entanto, o avanço da inteligência artificial exigiu uma mudança total de rota”, explica. Hoje, o foco está na conexão com o mundo físico: eventos, encontros e produção de conteúdo estratégico para empresas interessadas em dialogar com o universo China.
A necessidade de adaptação foi uma das principais lições do processo. “O empreendedor tem que ter isso em mente o tempo todo”, afirma Márcia. O que antes era uma plataforma digital escalável passou a atuar como uma ponte de comunicação e serviços.
Atualmente, o Momento China atende empresas de diferentes setores - de turismo a tecnologia - e também explora novas frentes, como parcerias educacionais e divulgação cultural. “Percebemos que no digital não daria certo como imaginado. Então fomos para o físico, para os encontros.”
China: experiência que transforma o olhar
A vivência no país asiático ampliou ainda mais essa percepção. Mesmo com forte base teórica, Márcia relata impacto ao ver de perto o que estudava. “Eu fiquei muito impressionada com os conjuntos habitacionais. É uma escala enorme.”
Outro ponto que a marcou foi a organização urbana e a distribuição da produção agrícola. “Você vê pequenas propriedades produzindo. Isso me deixou emocionada.”
A experiência reforçou também o potencial econômico e tecnológico do país, especialmente no que diz respeito à automação industrial e ao planejamento de longo prazo. “A China não quer mais ser a fábrica do mundo. Ela quer levar tecnologia para que outros países desenvolvam suas próprias indústrias.”
Se há uma mensagem central na trajetória de Márcia Carini, é a de que o Brasil ainda explora pouco as possibilidades dessa relação. Segundo ela, centenas de empresas chinesas chegam ao país todos os anos, demandando serviços locais em um ritmo que impressiona: “é praticamente um novo CNPJ chinês por dia no Brasil”.
“Como os brasileiros vão se inserir nisso? Estou falando de tudo: segurança, direito, transporte”, aponta. Para ela, há um espaço amplo para pequenos e médios empreendedores que saibam atuar como ponte entre culturas.
Mais do que ensinar mandarim ou apresentar costumes, o trabalho de Márcia Carini aponta um dado estratégico. Compreender a China hoje é compreender uma parcela decisiva do futuro econômico global.
Ao transformar conhecimento em conexão e conexão em oportunidade, o Momento China evidencia que empreender também é construir pontes. Nesse caso, entre culturas, mercados e novas possibilidades de negócio.
Assista na íntegra aqui: