Juros elevados travam crescimento e pressionam empresas
Histórico inflacionário ajuda a explicar a postura conservadora da política monetária
247 - Mesmo após quase três décadas do Plano Real, o Brasil ainda convive com juros estruturalmente elevados como principal ferramenta de controle da inflação. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o IPCA acumula alta superior a 700% desde 1994, o que representa perda acima de 85% do poder de compra da moeda. O histórico inflacionário ajuda a explicar a postura conservadora da política monetária e a permanência da taxa básica de juros em patamares elevados por ciclos prolongados.
No cenário atual, a cautela do Banco Central do Brasil está associada à combinação entre inflação ainda pressionada, expectativas parcialmente desancoradas e incertezas fiscais. Com o índice de preços orbitando o teto da banda de tolerância de 4,5%, frente à meta central de 3%, a autoridade monetária opta por preservar credibilidade e previsibilidade, mesmo ao custo de desacelerar a atividade econômica.
Para Beny Fard, engenheiro, especialista em finanças e CEO da fintech DeFin, o país ainda enfrenta os reflexos de desequilíbrios históricos. “O juro alto virou uma espécie de seguro institucional. Ele protege a moeda, mas penaliza o investimento produtivo e empurra empresas para decisões defensivas”, afirma.
O ambiente internacional também reforça essa postura. A condução da política monetária nos Estados Unidos influencia diretamente economias emergentes como o Brasil. A sinalização de juros elevados por período prolongado pelo Federal Reserve fortalece o dólar, pressiona o câmbio e encarece importações, impactando as expectativas inflacionárias domésticas.
Segundo o especialista, esse contexto limita o espaço de manobra da autoridade monetária brasileira. “Quando o juro americano permanece alto, cortes precipitados aqui tendem a gerar fuga de capital e volatilidade cambial. O Banco Central acaba sendo forçado a agir de forma defensiva”, diz.
Os reflexos aparecem na curva de juros, sobretudo nos vencimentos mais longos, que embutem prêmios elevados de risco. Na economia real, o crédito mais caro desestimula o consumo, adia investimentos e eleva o custo médio de capital das empresas. Em muitos casos, torna-se mais atraente aplicar recursos em títulos públicos do que expandir operações ou investir em inovação. “A Selic alta distorce a lógica empresarial. O retorno financeiro sem risco passa a competir diretamente com o investimento no próprio negócio”, avalia Fard.
No campo fiscal, o impacto é expressivo. Com a dívida bruta do governo geral próxima de R$ 9 trilhões e parcela relevante indexada à Selic, cada ponto percentual adicional na taxa básica amplia significativamente o custo de rolagem. Isso reduz o espaço para políticas públicas e aumenta a sensibilidade do mercado a sinais de deterioração fiscal, ainda que política monetária e fiscal sejam formalmente independentes.
Diante de um cenário prolongado de juros elevados, o especialista defende que as empresas adotem uma postura mais estruturada na gestão financeira. “Juros altos não são apenas um problema macroeconômico. Eles exigem maturidade financeira, leitura de risco e decisões mais criteriosas para atravessar ciclos longos de aperto monetário”, afirma.
Entre os principais pontos de atenção, ele recomenda a revisão ampla da estrutura financeira antes de qualquer medida pontual, com foco em previsibilidade e resiliência no médio e longo prazo. A reavaliação do custo real do capital é um dos primeiros passos. “Muitos investimentos que pareciam viáveis em um ambiente de juros baixos passam a destruir valor quando o custo do dinheiro sobe”, alerta.
A renegociação de dívidas e o alongamento de prazos também ganham relevância, especialmente para reduzir a exposição a passivos pós-fixados. “Entender a indexação da dívida é tão relevante quanto o volume contratado”, observa. Outra medida apontada é separar capital operacional de capital estratégico. “Empresas que não fazem essa separação tendem a perder eficiência e margem justamente quando o ambiente fica mais restritivo”, afirma.
A contratação de assessoria especializada é vista como diferencial competitivo. “Cada negócio tem uma dinâmica própria de risco, fluxo de caixa e financiamento. Não existe resposta única”, diz. Ele também sugere avaliar alternativas ao crédito bancário tradicional, como mercado de capitais e estruturas privadas. “O erro é achar que o banco é sempre a única porta. Hoje existem instrumentos mais eficientes para empresas bem estruturadas”, conclui.