Moda indígena como negócio e resistência: Juca Juká transforma ancestralidade em inovação sustentável
Artista paraense utiliza biojoias, grafismos e comunicação digital para fortalecer a cultura indígena e gerar impacto ambiental positivo
Beatriz Bevilaqua, 247 - Para a artista e comunicadora indígena Juca Juká, empreender vai muito além de comercializar produtos. Seu trabalho une moda, memória, identidade e sustentabilidade em um projeto que busca preservar saberes ancestrais, ampliar a representatividade dos povos originários e propor alternativas de produção alinhadas ao respeito à natureza.
Natural do Pará e pertencente ao povo Juká, ela construiu sua trajetória rompendo barreiras sociais e educacionais. Foi a primeira pessoa de sua família a concluir um curso superior e transformou essa conquista em uma plataforma para dar visibilidade à realidade de sua comunidade e de outros povos indígenas brasileiros.
“Essa necessidade nasceu da minha última visita ao meu território. Percebi que meu povo precisava de um porta-voz, de alguém que pudesse mostrar que ainda estamos lá, que continuamos vivos, falando nossa língua e mantendo nossa cultura, mesmo depois de tantas violências coloniais”, afirma.
Um negócio que nasce da ancestralidade
A escolha pela moda como principal linguagem do empreendimento não foi casual. Para Juca, roupas, acessórios e biojoias também comunicam posicionamentos políticos e culturais.
“Quando indígenas, quilombolas e ribeirinhos colocam sua visão estética dentro de um sistema que sempre tentou impor padrões eurocêntricos, isso também é fazer política. Produzir acessórios, roupas com grafismos e peças que remetam à nossa ancestralidade é mostrar que não temos mais medo de nos esconder e que seguimos resistindo.”
Seu trabalho é especialmente voltado à produção de biojoias confeccionadas com sementes, fibras naturais e materiais biodegradáveis ou recicláveis, priorizando processos que reduzam impactos ambientais e valorizem recursos locais.
Segundo ela, a moda indígena representa uma alternativa concreta aos modelos tradicionais da indústria têxtil, frequentemente associados ao elevado consumo de água, poluição e geração de resíduos.
“Aprendemos nosso artesanato com nossas anciãs, que também aprenderam com as gerações anteriores. A moda indígena é uma solução biosustentável construída com respeito à natureza.”
Sustentabilidade baseada no reaproveitamento
Entre os questionamentos que mais recebe está o uso de penas em brincos, cocares e outros adornos. Juca explica que os materiais utilizados não resultam de maus-tratos aos animais.
“As penas são coletadas já caídas na mata ou nos campos. Em alguns casos, encontramos animais que morreram naturalmente e reaproveitamos esses elementos para produzir arte. Tudo é feito de forma orgânica, sem desmatamento, sem exploração e sem sujeira.”
Na avaliação da empreendedora, esse modelo evidencia que é possível desenvolver produtos de valor cultural e econômico utilizando práticas compatíveis com a conservação ambiental.
Além da produção artesanal, Juca utiliza as redes sociais para desconstruir estereótipos sobre os povos indígenas e ampliar o debate sobre identidade, política e direitos territoriais.
Ela destaca que muitos brasileiros ainda enxergam os indígenas como figuras restritas ao passado e demonstram surpresa ao encontrarem profissionais indígenas atuando em espaços urbanos, acadêmicos ou digitais.
“Os povos indígenas são tratados como estrangeiros dentro da própria terra. Muitos acreditam que precisamos viver no passado e não conseguem compreender que somos contemporâneos sem abandonar nossa ancestralidade.”
Segundo a comunicadora, essa percepção contribui para invisibilizar desigualdades históricas e reforçar formas persistentes de discriminação.
Empreendedorismo também é preservação ambiental
Para Juca, discutir sustentabilidade exige olhar para além dos produtos e considerar a proteção dos ecossistemas onde esses conhecimentos se desenvolvem.
Ela argumenta que grande parte das áreas ambientalmente preservadas no Brasil coincide com territórios indígenas e defende que sua proteção é essencial para enfrentar a crise climática.
“Demarcar um território não significa apenas entregá-lo aos povos indígenas. Significa reconhecer que aquele espaço precisa ser preservado. Nem tudo precisa virar pasto, soja ou plantação. Precisamos manter os biomas vivos para garantir nossa própria segurança diante das mudanças climáticas.”
Ao transformar tradição em inovação e cultura em oportunidade econômica, Juca Juká demonstra que o empreendedorismo pode funcionar como instrumento de preservação, geração de renda e fortalecimento da identidade coletiva.
Assista a entrevista na íntegra aqui:
