Produtores brasileiros exibem identidade na Anuga 2026
Com apoio do Sebrae, empreendedores levam a São Paulo alimentos com origem, técnica e valor cultural para conquistar mercados no Brasil e no exterior
247 - Na vitrine internacional da Anuga Select Brazil 2026, pequenos produtores brasileiros mostram que há muito mais por trás dos alimentos do país do que rótulos e commodities. Com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, empreendedores apresentam, em São Paulo, produtos que combinam origem, técnica e identidade cultural, revelando um Brasil diverso e ainda pouco explorado no mercado global.
A iniciativa reúne negócios de diferentes regiões e cadeias produtivas — do cacau ao café, passando pelo caju e pelo pescado — com foco em produtos prontos para o consumidor, já estruturados com marca, embalagem e certificações. A proposta, segundo o Sebrae, é inserir esses itens em mercados mais exigentes e ampliar sua presença dentro e fora do país.
À frente da estratégia está o gestor de Alimentos e Bebidas do Sebrae Nacional, Bruno Lopes, que destaca o diferencial dos expositores. “A gente trouxe produtos com identidade, com origem e com capacidade de chegar ao mercado, tanto no Brasil quanto fora. Produtos que só tem no Brasil”, afirma.
Do interior de Rondônia para o mundo
No interior de Rondônia, a empreendedora Melissa Almeida transformou a produção local em um negócio com identidade própria. Às margens de uma rodovia em Ouro Preto do Oeste, ela vende chocolates, gelatos e uma criação original: a rapadura de cacau.
“Eu via a necessidade de criar um produto que tivesse a nossa cara, algo regional mesmo”, diz. A receita foi desenvolvida com apoio da avó mineira, que ajudou a chegar ao ponto ideal do doce. “Como eu inventei, é algo exclusivo. Só a gente tem.”
Sua marca, a Cacau Raiz, surgiu com apoio direto do Sebrae, que auxiliou desde a formalização até a construção da identidade visual. Além disso, Melissa estruturou uma rede de fornecimento com mulheres da agricultura familiar, fortalecendo a economia local. “É uma forma de incentivar outras mulheres, de fazer o dinheiro circular e de mostrar que é possível crescer juntas.”
Caju que gera conexão no Ceará
No Ceará, o caju também ganha novos significados nas mãos da produtora Rosimeire Silva. À frente de uma agroindústria no Maciço de Baturité, ela desenvolve doces, melados e outros derivados, articulando produção e impacto social.
“A gente faz essa conexão com as mulheres da região — que é quem mais trabalha! — com quem produz, com quem transforma”, afirma.
O empreendimento vai além da produção: envolve estudantes da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, incluindo jovens estrangeiros, além de alunos de áreas técnicas que encontram no local uma oportunidade de aprendizado e renda. Para Rosimeire, visibilidade é essencial para crescer: “Quem não é visto não é lembrado. Então a gente precisa aparecer.”
Chocolate de origem controlada
Em Brasília, a empresária Isabel Corá aposta em um chocolate com rigor técnico e rastreabilidade. A marca Clemmens utiliza cacau da Bahia e do Pará, com foco em qualidade e certificação orgânica.
“Na hora que a pessoa prova, ela entende”, diz. O negócio foi estruturado com apoio do Sebrae e hoje enfrenta o desafio de crescer sem perder o controle da cadeia produtiva, mantendo padrões elevados de qualidade.
Café com história quilombola
Outro destaque é o trabalho da empreendedora Tarsila Geovana, que leva à feira o Café Quilombo. Produzido em comunidades quilombolas no Espírito Santo, o produto valoriza o território e a história por trás do grão conilon.
“É um café que carrega identidade, que carrega território”, afirma.
Com diferentes formatos de venda, a marca amplia sua presença no mercado com suporte do Sebrae, apostando na valorização da origem como diferencial competitivo.
Gastronomia que conecta saberes
A diversidade dos produtos ganha forma na cozinha montada no evento, comandada pela chef pernambucana Negralinda. Filha de pescadores e ex-marisqueira, ela transforma ingredientes dos expositores em releituras criativas da culinária brasileira.
“A gente pega produtos que só tem no Brasil e faz essa releitura com muita brasilidade”, explica.
Entre os pratos apresentados, estão versões reinventadas como a “paelha do mangue”, brownies com passa de caju e sobremesas com frutas nativas. Além da criação culinária, a chef atua na formação de outras mulheres. “Quando a pessoa entende o processo, ela passa a valorizar o produto de outro jeito.”
Identidade como diferencial competitivo
Entre sabores intensos, histórias locais e cadeias produtivas estruturadas, a participação brasileira na feira evidencia uma tendência: a valorização da origem como ativo econômico. Em um mercado global marcado pela padronização, os pequenos produtores apostam na diversidade cultural e na autenticidade para conquistar espaço.
Mais do que alimentos, os produtos apresentados na Anuga Select Brazil revelam um país múltiplo — que começa a transformar tradição e território em vantagem competitiva no cenário internacional.