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Startup acreana cria professora de IA para ensinar sobre a Amazônia

Wood Chat nasceu de um projeto científico para combater o desmatamento ilegal e hoje conecta comunidades, escolas e mercados com inteligência artificial

Startup acreana cria professora de IA para ensinar sobre a Amazônia (Foto: Dragos Condrea/Freepik)

Beatriz Bevilaqua, 247 - Da floresta amazônica para o WhatsApp, das comunidades ribeirinhas aos grandes fóruns internacionais de inovação. A trajetória da pesquisadora e empreendedora acreana Fernanda Onofre, fundadora da Wood Chat, é um exemplo de como ciência, tecnologia e saberes tradicionais podem caminhar juntos para enfrentar um dos maiores desafios do nosso tempo: a crise climática.

Em entrevista ao programa Empreender Brasil, Fernanda conta como um projeto de pesquisa voltado à identificação de espécies de madeira se transformou em uma startup de impacto socioambiental, reconhecida internacionalmente, que hoje atua tanto no combate ao desmatamento ilegal quanto na educação ambiental por meio de uma inteligência artificial conversacional conhecida como Violeta, a professora da floresta.

“Eu sou de Rio Branco, no Acre, nascida e criada. Eu digo que tenho sangue de empreendedora. Meu pai vende desde criança, conhece o Acre de ponta a ponta. Meu avô era seringueiro, tinha vendinha. Cresci vendo esse movimento, essa comunicação, esse porta a porta. Na época eu não entendia, mas hoje vejo que tudo isso me formou”, relata Fernanda.

Da pesquisa científica ao negócio de impacto

A Wood Chat surgiu a partir de um edital público chamado “Conexão Floresta”, que buscava soluções para apoiar comunidades no reconhecimento de espécies madeireiras da Amazônia. Fernanda entrou como pesquisadora e reuniu uma equipe familiar: o irmão, engenheiro de software, e o esposo, cientista de dados.

“O desafio inicial era diferenciar espécies de madeira muito parecidas. Conseguimos criar um algoritmo capaz de diferenciar, por exemplo, a violeta do roxinho, que a olho nu são praticamente idênticas, mas têm nomes botânicos diferentes. Ali eu percebi que aquilo não era só pesquisa, era uma dor real de mercado”, explica.

A tecnologia passou a oferecer acuracidade na identificação, rastreabilidade, legalidade para empreendedores da madeira e, sobretudo, redução do desmatamento ilegal. “Quando você leva precisão, você leva sustentabilidade. Não só ambiental, mas econômica e social”, afirma.

Engenheira civil de formação, Fernanda enfrentou resistências ao ingressar em um setor historicamente masculino e com baixa adoção tecnológica. “A primeira dificuldade foi a confiança. Eu vinha da pavimentação, não do setor florestal. Precisei estudar muito, entender o mercado da madeira, ouvir as dores reais.”

A virada aconteceu quando a tecnologia foi testada em uma das maiores madeireiras do país, no interior do Amazonas. “Quando mostramos que funcionava, as portas se abriram. O diretor doou 12 peças de madeira para ampliarmos nosso banco de dados. A partir daí, o ecossistema começou a se formar.”

Esse ecossistema passou a reunir pesquisadores da UFAM, especialistas em física da madeira, profissionais do IBAMA, acadêmicos e comunidades tradicionais. “Eu não precisava saber tudo, mas precisava saber pedir ajuda. E devolver em forma de tecnologia e impacto.”

A professora da floresta no WhatsApp

Foi nesse processo que nasceu a Violeta, a professora da floresta. Inicialmente criada para reconhecer espécies, a equipe percebeu que as pessoas queriam mais do que tecnologia: queriam diálogo!

“A pessoa mandava um ‘oi’ e a Violeta respondia: ‘Oi, tudo bem? Como posso te ajudar hoje?’ E ali começava uma conversa. Entendemos que educação também passa pelo afeto”, conta.

Hoje, a Violeta atua no WhatsApp oferecendo conteúdos sobre educação florestal, manejo sustentável, políticas públicas, certificações ambientais e saberes tradicionais, em linguagem acessível e disponível 24 horas por dia.

“Já atendemos mais de duas mil pessoas. Professores levaram a Violeta para a sala de aula, comunidades ribeirinhas usam no dia a dia, engenheiros florestais consultam para tomada de decisão. Ela virou uma ponte entre conhecimento científico e território.”

Para Fernanda, enfrentar a crise climática exige escutar quem vive na floresta. “Mudança do clima é sobre pessoas e territórios. Quando você não escuta essas pessoas, você não entende o problema real.”

A Wood Chat atua diretamente nesse ponto, oferecendo acesso à tecnologia e à educação ambiental em regiões historicamente marginalizadas. “A floresta fala. A gente só criou um meio para que essa voz seja ouvida.”

Do Acre para o mundo

Vvencedora do “Prêmio Finep Mulheres Inovadoras” na região Norte e selecionada para a incubação na “Casa Brasileira” em Lisboa, iniciativa da Apex Brasil e do Sebrae, Fernanda vê a internacionalização como uma forma de levar o Brasil e o Acre para o mundo.

“Não estamos saindo do Brasil. Estamos levando o Brasil para o mundo. Levando o Acre, a floresta, a nossa voz. Mostrar que o Norte é floresta e também inovação”. Ela reforça que a responsabilidade pela Amazônia não é apenas nacional. “O mundo inteiro precisa se responsabilizar. A floresta é estratégica para o planeta.”

Ao refletir sobre sua trajetória, Fernanda conecta empreendedorismo à memória familiar e à resistência feminina. E deixa um recado para quem deseja empreender: “Coragem não é ausência de medo. É ir com medo mesmo. O conforto paralisa. É preciso escutar a inquietação interna e seguir. Vai errar, vai cair, mas uma hora dá certo.”

Segundo ela, buscar apoio é fundamental. “O Sebrae foi essencial. Chegar e dizer: ‘Tenho uma ideia e não sei o que fazer com ela’. Empreender não é sozinho. A Wood Chat foi criada por muitas mãos.”

Assista a entrevista na íntegra aqui: