Startups brasileiras consolidam IA como infraestrutura básica
Relatório do Sebrae aponta que 51,8% das startups já usam inteligência artificial e mostra expansão do ecossistema, com avanço acelerado do Nordeste
247 - A inteligência artificial deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ocupar o centro da estrutura operacional das startups brasileiras. É o que revela o Sebrae Startups Report Brasil 2025, lançado pelo Observatório Sebrae Startups, que aponta que 51,8% das empresas inovadoras do país já incorporam IA em seus produtos ou operações.
O levantamento mapeou 22.869 startups até dezembro de 2025, número 26,7% superior ao registrado no ano anterior. A evolução demonstra a rápida expansão do ecossistema: eram 11.336 negócios em 2023, 18.056 em 2024 e agora o total se aproxima da marca de 23 mil empresas.
Além da consolidação da IA, o estudo evidencia um mercado majoritariamente voltado ao modelo B2B, com predominância de receitas recorrentes via SaaS (Software as a Service) e forte concentração de empresas ainda na fase de validação. O cenário indica um ambiente marcado por experimentação estruturada e ajustes contínuos de soluções. Embora o Sudeste mantenha a liderança, o Nordeste desponta como a região de maior crescimento proporcional, reforçando a transição para um modelo mais distribuído de inovação no país.
Crescimento acelerado e nova geografia da inovação
A distribuição regional confirma a liderança histórica do Sudeste, que concentra 36% das startups brasileiras. O Nordeste já ocupa a segunda posição, com 25,2%, superando o Sul (20,3%), o Centro-Oeste (9,7%) e o Norte (8,8%).
No recorte estadual, São Paulo (5.119 startups), Santa Catarina (2.239) e Minas Gerais (1.385) lideram em volume, respondendo juntos por 38,3% do total mapeado. Entre os estados com maior representatividade, Pernambuco registrou o crescimento percentual mais expressivo, com alta de 72,2%.
No âmbito municipal, a cidade de São Paulo concentra 10,6% das startups do país — 2.416 empresas, com avanço de 26,4% no ano. Em seguida aparecem Florianópolis (921; +18,1%), Rio de Janeiro (724; +24,6%), Recife (640; +46,1%), Fortaleza (571; +40,6%), Brasília (541; +20,8%), Belo Horizonte (490; +22,8%), Curitiba (481; +15,9%), Porto Alegre (450; +27,8%) e Teresina (440; +19,2%). O ranking evidencia a descentralização gradual dos polos de inovação.
Perfil do ecossistema: B2B e software predominam
O retrato setorial aponta forte orientação ao mercado corporativo. Mais de 70% das startups atuam em modelos B2B (50,5%) ou B2B2C (22,6%), enquanto 19,2% vendem diretamente ao consumidor final.
O setor de Tecnologia da Informação lidera, com 14,5% das startups. Na sequência aparecem Saúde e Bem-Estar (11,8%), Educação (8,5%), Agronegócio (7,5%) e Impacto Socioambiental (6,1%).
No modelo de receita, 39,1% operam por meio de SaaS. Vendas diretas representam 27,9%, enquanto modelos transacionais somam 9,4% e marketplaces, 6,6%. O principal produto oferecido é software (39,3%), seguido por serviços (35,8%). Produtos físicos correspondem a 16,3%, e hardware a apenas 2,1%, indicando baixa presença de deep tech e predominância de soluções digitais.
A concentração no B2B posiciona as startups como vetores de modernização das pequenas e médias empresas, embora o foco em PMEs traga desafios de escala, diante de tickets médios menores e elevada pulverização de clientes.
Ecossistema jovem e digital desde a origem
O estudo mostra que o ambiente ainda está em estágio inicial de maturidade. A maior parte das startups encontra-se na fase de validação (37,7%), enquanto 25,1% estão em ideação. Somadas, mais de 60% permanecem nos estágios iniciais.
No aspecto financeiro, 56,1% ainda não geram receita, em linha com o estágio de desenvolvimento. Outras 29,7% faturam até R$ 81 mil, 12,8% registram receitas entre R$ 81 mil e R$ 360 mil, e apenas 1,3% superam R$ 4,8 milhões. Em relação à estrutura societária, predominam equipes enxutas: 47,1% têm de dois a três sócios, enquanto 27,1% atuam de forma individual.
Além da inteligência artificial, outras tecnologias relevantes incluem APIs (26,7%), tecnologia sustentável (24,8%), computação em nuvem (22,6%), visualização de dados (19,1%), análise de dados (18,7%) e chatbots (16,8%).
Tendências estruturais e agenda estratégica
O relatório aponta quatro movimentos centrais. O primeiro é a consolidação do modelo multi-hub, com avanço de polos fora do eixo tradicional. O segundo é o crescimento acima da média nacional em estados do Nordeste, impulsionado por universidades, hubs locais e políticas de incentivo.
O terceiro movimento é o fortalecimento das startups como agentes de modernização das PMEs, ao oferecer soluções de gestão, automação, crédito, saúde, educação e logística. Por fim, o estudo destaca que, apesar do dinamismo, há baixa presença de deep tech, o que indica a necessidade de ampliar parcerias com universidades, centros de pesquisa e mecanismos de financiamento de longo prazo.
O papel do Sebrae
O relatório também destaca o avanço institucional do Sebrae, que registrou 93.288 atendimentos a startups em 2025, crescimento de 17,2% frente ao ano anterior.
Entre os formatos de apoio, predominam orientação (39,87%), ferramentas digitais (13%), palestras (12,67%) e consultorias (11,47%). A principal demanda está ligada à gestão da inovação (39,85%), seguida por transformação digital (7,19%) e comportamento empreendedor (6,05%). A quase totalidade das empresas atendidas é formada por microempresas (92,96%), majoritariamente do setor de serviços.
O presidente do Sebrae, Décio Lima, afirmou: “A inovação tecnológica é um novo paradigma para os pequenos negócios, a exemplo da sustentabilidade socioambiental. Nesse sentido, precisamos apoiar o desenvolvimento de políticas públicas que facilitem o acesso desses empreendedores”.
Ele acrescentou: “Acreditamos que as micro e pequenas empresas guiadas por um planejamento estratégico, visão de futuro e missão clara podem prosperar, ajustando suas ações com a bússola da inteligência competitiva para atingir os objetivos estabelecidos e contribuir também com o aumento da produtividade da própria economia brasileira”.
Já o diretor técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick, destacou: “A plataforma Sebrae Startups, juntamente com o Observatório Sebrae Startups, tem permitido uma atuação qualificada e focada do Sebrae e de seus parceiros para o desenvolvimento de iniciativas em prol dos empreendedores brasileiros”.
Ele completou: “São duas ferramentas fundamentais para que o Sebrae possa ser referência na promoção do empreendedorismo e na geração de valor para os pequenos negócios, nossa visão de futuro”