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Startups brasileiras enfrentam desafio para avançar da tração à escala

Mesmo com ecossistema mais maduro, poucas empresas conseguem transformar crescimento inicial em expansão sustentada, aponta análise do Sebrae Startups

Startups brasileiras enfrentam desafio para avançar da tração à escala (Foto: Freepik )

247 - A transição entre as fases de tração e escala segue como um dos principais gargalos para startups brasileiras. Embora o país tenha avançado nos últimos anos em captação de recursos, programas de aceleração e apoio à fase de ideação, o salto para um crescimento sustentado e previsível ainda é exceção no ecossistema nacional.

Dados do Sebrae Startups mostram que a maior parte das startups permanece concentrada nas etapas iniciais do ciclo de vida. À medida que o negócio avança, há uma redução significativa no número de empresas que conseguem atingir o estágio de crescimento estruturado, o que evidencia a dificuldade de transformar bons produtos em operações escaláveis. As informações são do Sebrae.

“O desafio não é mais começar uma startup, é escalar”, afirma Cristina Mieko, head de startups do Sebrae. “Em 2026, o diferencial das empresas será a capacidade de estruturar canais de aquisição, comprovar um modelo de receita sustentável e implementar uma lógica de expansão repetível e eficiente.”

No ciclo de vida de uma startup, a tração representa o momento em que o produto encontra seu mercado, alcançando o chamado product-market fit e passando a crescer de forma consistente. Já a escala ocorre quando esse crescimento deixa de depender de esforços pontuais e passa a ser sustentado por processos replicáveis, estrutura organizacional madura e previsibilidade de receita.

A principal diferença entre essas etapas está na complexidade da operação. Enquanto a tração pode ser impulsionada diretamente pelos fundadores, a escala exige investimento em time, processos, tecnologia e capital. Muitas startups ficam presas na fase de tração justamente porque as estratégias que funcionaram no início deixam de ser eficazes quando o negócio precisa operar em maior volume.

“Existe um abismo entre crescer com improviso e crescer com consistência. E é nesse abismo que muitas startups promissoras acabam ficando pelo caminho”, afirma Cristina Mieko.

Três requisitos para escalar em 2026

Especialistas do Sebrae Startups apontam três pilares considerados essenciais para que startups brasileiras consigam escalar de forma sólida nos próximos anos. O primeiro é o domínio dos canais de aquisição. Segundo o Sebrae, é necessário ir além da venda feita diretamente pelo fundador e construir canais escaláveis de aquisição e retenção de clientes, orientados por dados e desempenho. Isso envolve estratégias claras de go-to-market (GTM), integrando posicionamento, marketing, vendas e atendimento.

“Escalar não é só vender mais, é vender melhor. Um bom canal de aquisição precisa ser previsível, mensurável e sustentável ao longo do tempo”, destaca Cristina Mieko.

O segundo pilar é a comprovação do modelo de receita. Validar que os clientes estão dispostos a pagar e que o negócio possui margem para crescer é considerado um passo decisivo antes de qualquer expansão acelerada. Testes com MVPs, métricas de tração e ajustes de precificação são fundamentais nesse processo. De acordo com a metodologia Lean Startup, escalar sem validação pode gerar um crescimento ilusório, marcado por alto consumo de caixa e baixa retenção de clientes.

Por fim, a lógica de expansão estruturada aparece como o terceiro requisito. Startups que conseguem escalar com consistência tendem a investir em processos claros, contratações no ritmo adequado e organização dos times por função. Estruturas de governança compatíveis com o novo porte da empresa e o uso de ferramentas como automação, CRM, ERP e análise preditiva ajudam a transformar o crescimento em algo sistemático.

“Escalar é uma decisão estratégica”, comenta Cristina Mieko. “Não se trata apenas de abrir filiais ou contratar mais gente. É sobre sistematizar o que já deu certo e replicar com eficiência.”

Para 2026, a expectativa do Sebrae é de um ambiente de negócios mais exigente, mas também mais organizado para startups. Segundo Cristina, a tendência é que o mercado valorize cada vez mais empresas capazes de dominar não apenas a inovação, mas também a lógica do crescimento sustentável. “O mercado deve premiar quem dominar a ciência do crescimento, e não apenas da inovação.”