Tecnologia brasileira quer interromper ciclo de violência contra a mulher
Plataforma criada por Sabrine Matos cruza dados públicos e usa inteligência artificial para ajudar mulheres a identificar antecedentes e sinais de risco
Beatriz Bevilaqua, 247 - Por trás de muitos casos de feminicídio que estampam as manchetes há um detalhe recorrente: o agressor já tinha histórico de violência. A informação existia, mas estava dispersa, difícil de acessar, perdida em sistemas públicos pouco organizados. Foi a partir dessa constatação que a paranaense Sabrine Matos decidiu criar uma tecnologia com um objetivo direto: impedir que a violência avance até o ponto sem volta.
“A Plink é uma empresa que desenvolve tecnologia para salvar a vida das mulheres e para tornar o Brasil um país mais seguro para mulheres”, afirma. A proposta é simples na superfície, mas complexa na execução: com o nome e o telefone de uma pessoa, a plataforma permite consultar antecedentes públicos. O próximo passo é ampliar o serviço para um aplicativo com cinco prontuários de segurança feminina, abrangendo da saúde mental à proteção física.
Hoje, a empresa soma mais de 45 mil usuários na plataforma e acumula relatos de mulheres que mudaram decisões após a checagem. Para Sabrine, o foco vai além do universo amoroso: trata-se de oferecer uma ferramenta concreta de prevenção.
A ideia nasceu de uma cena doméstica. Sabrine assistia a uma reportagem com a mãe sobre uma jornalista assassinada por um homem com ficha criminal. A vítima desconhecia o passado do agressor. O dado estava lá espalhado em tribunais, sistemas estaduais, registros pouco padronizados. O desafio era transformar esse labirinto em algo acessível. Em abril do ano passado, a ideia começou a ganhar forma. Em julho, a plataforma foi lançada.
Grande parte do desenvolvimento contou com inteligência artificial, o que ajudou a reduzir custos e viabilizar o modelo. Mas o maior obstáculo não foi tecnológico, e sim estrutural: a qualidade dos dados públicos. “Quando falamos de dados públicos, às vezes o dado que está armazenado no TJ de determinada cidade está todo errado, porque colocam de qualquer jeito, aí vem para a gente errado.”
A equipe precisou desenvolver sistemas próprios de tratamento e cruzamento de dados para entregar algo compreensível e funcional para o usuário final. A proposta também buscou viabilidade econômica para que o serviço não se tornasse restrito a um público específico. Para quem precisa de uma consulta pontual, o acesso parte de R$27,00, valor pensado para ampliar o alcance da ferramenta e permitir que mais mulheres possam utilizá-la antes de tomar decisões importantes. Ao longo do processo, Sabrine também passou a dialogar com o setor público. Ela relata conversas frequentes com delegadas, juízas e representantes de secretarias voltadas às políticas para mulheres.”
O feminicídio como ponto final do ciclo
Para Sabrine, a tecnologia atua em uma fase que o poder público ainda não consegue alcançar com eficiência: a prevenção. Segundo dados que ela cita, apenas na cidade de São Paulo, 75% dos homens que cometeram feminicídio já tinham antecedentes criminais. Para a empreendedora, o problema combina crescimento dos casos, maior exposição midiática e sensação de impunidade.
Na avaliação dela, o sistema atua mal no momento preventivo. A resposta costuma chegar quando o ciclo já está avançado demais. Ao falar de políticas públicas, Sabrine amplia o debate. Para além de reformas penais, ela aponta a fragilidade da estrutura nas pontas do atendimento.
“Eu sei de secretarias da mulher que cuidam da nossa secretaria inteira no Excel.” Falta tecnologia, falta integração de dados e, sobretudo, falta preparo para acolhimento adequado. Para ela, o enfrentamento precisa ser “360 graus”: legislação, prevenção, treinamento e estrutura.
A educação de base também entra nesse pacote. O fortalecimento emocional, segundo Sabrine, é determinante para que mulheres reconheçam sinais de abuso antes que estejam imersas no ciclo da violência. “Então, como um fortalecimento mental, vem desde a autodefesa, que também é importante, física, mas também essa construção mental de entender isso, entender o ciclo da violência, entender onde isso começa, entender o que é normal ou não.”
Ela cita casos de mulheres que retiraram queixas e retornaram a relações abusivas por fragilidade emocional. Para a empreendedora, sem orientação desde cedo sobre o que é um relacionamento saudável, muitas jovens demoram a perceber que estão em risco.
A atuação da Plinq se baseia exclusivamente em dados públicos, respeitando os limites da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). O que a empresa faz é organizar, cruzar e tornar inteligível aquilo que já está disponível, mas disperso.
O plano para 2026 é ampliar o alcance do aplicativo e consolidar os cinco prontuários de segurança feminina. A ambição é clara: alcançar o maior número possível de mulheres e tornar a checagem um hábito de autoproteção.
O debate sobre violência contra a mulher costuma se concentrar no depois: na punição, no julgamento, na estatística anual. A proposta da Plinq desloca o foco para o antes. Se a maioria dos feminicidas já tinha antecedentes, quantas histórias poderiam ter seguido outro rumo se a informação estivesse ao alcance da vítima?
Em um país onde o ciclo de violência ainda encontra brechas para se repetir, transformar dado público em alerta pode não resolver tudo. Mas pode significar, para muitas mulheres, a diferença entre perceber o risco a tempo ou descobrir tarde demais.
Assista na íntegra aqui: