Transição tributária impacta rotina das empresas de serviços
Pesquisa aponta que 72% das médias e grandes ainda não estão prontas para adaptar processos, sistemas e rotinas fiscais às novas regras sobre consumo
247 - A partir de 2026, a reforma tributária começa a alterar de forma concreta a rotina das empresas brasileiras, especialmente as prestadoras de serviços. A nova legislação substitui gradualmente PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI por um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual — composto pela CBS, de competência federal, e pelo IBS, de estados e municípios — além de instituir o Imposto Seletivo, com efeitos diretos sobre obrigações acessórias, como a emissão de notas fiscais eletrônicas.
Embora a cobrança efetiva dos novos tributos ainda esteja em fase de testes, as empresas já precisam emitir documentos fiscais eletrônicos, como NF-e e NFS-e, com campos adicionais exigidos pelo novo modelo. Esse período de transição deve se estender até 2033 e impõe uma etapa de adaptação tecnológica e operacional às companhias.
Segundo Augusto Lyra, CEO da Everflow, especializada em soluções tecnológicas de gestão empresarial, a mudança já trouxe aumento da complexidade no dia a dia corporativo. “O preenchimento de notas fiscais eletrônicas passou a demandar dezenas de novos campos de dados, com informações que antes não existiam no XML da NF-e. Quem tentou emitir uma nota corporativa em janeiro já percebeu que o sistema exige detalhes que antes não eram solicitados”, afirma.
De acordo com Lyra, o maior risco neste momento é a paralisação de atividades por falta de preparo para atender às novas exigências fiscais e tecnológicas. Ele observa que, para empresas de serviços que operam com equipes externas, as mudanças exigem revisão da gestão fiscal e financeira. “As mudanças exigem das empresas mais organização, integração de dados e automação e, em contrapartida, trazem maior controle e transparência. Para operar nesse novo formato, sistemas que consigam lidar com essa nova realidade farão a diferença no dia a dia do empresário”, diz. O executivo acrescenta que 2026 foi estruturado como um “ano de testes”, permitindo que empresas, contadores e desenvolvedores de sistemas ajustem seus processos.
O CEO ressalta que a adaptação vai além da emissão de documentos fiscais. Segundo ele, é necessário estruturar e integrar, em tempo real, todo o fluxo de informações — do pagamento de prestadores à apuração de tributos, passando pelo controle de caixa e pela gestão de projetos.
No setor de serviços, especialmente em segmentos que atuam com equipes externas, como energia solar, cabeamento estruturado e infraestrutura de tecnologia, os custos de um projeto podem surgir meses após a emissão da nota ou o reconhecimento da receita. Nesse contexto, a ausência de sistemas integrados compromete a visão financeira do negócio. “Sem um sistema que permita a gestão ‘projeto a projeto’, ao longo de todas as fases de execução, as empresas acabam perdendo visibilidade sobre margem de lucro, fluxo de caixa e aproveitamento de créditos fiscais”, afirma Lyra.
Empresas que não se adequarem às novas regras podem enfrentar erros no cálculo de tributos, recolhimentos indevidos, aplicação de multas, rejeição de notas fiscais e até bloqueios operacionais. Ainda assim, o período inicial é visto como uma oportunidade de ajustes antes da aplicação plena das novas alíquotas nos próximos anos.
Levantamento divulgado pela Agência Brasil, com base em estudo da V360 que ouviu 355 companhias dos setores de varejo, indústria, construção civil, agronegócio e tecnologia, aponta que 72% das empresas brasileiras de médio e grande porte ainda não estão preparadas para adaptar seus processos internos às novas regras de recolhimento e declaração de tributos sobre o consumo. Outra pesquisa, realizada pela Omnitax, indica que 53,5% das empresas preferem manter as operações tributárias integradas ao ERP, citando praticidade operacional e visão integrada do negócio como principais motivos.
A Everflow, que desenvolve sistemas de gestão empresarial (ERP) voltados a organizações com equipes externas e prestação de serviços, projeta crescimento de aproximadamente 40% em 2026, impulsionado pela busca de adequação às novas normas e pela necessidade de segurança jurídica durante o período de transição.
Para Lyra, a integração tecnológica tende a se tornar um diferencial competitivo. “É muito mais fácil e, como falamos, a visão geral do negócio, projeto a projeto, permite mensurar lucro ou prejuízo, direcionando os negócios para a sustentabilidade e o crescimento”, conclui.