Turismo com viés político impulsiona agência focada em países socialistas
Agência brasileira transforma viagens em experiências históricas e culturais por países socialistas e destinos pouco explorados
Beatriz Bevilaqua, 247 - Viajar pode ser mais do que colecionar cartões-postais. Para a Estrela Vermelha, agência fundada em 2023, o turismo é também uma forma de mergulho político, histórico e cultural. Especializada em destinos fora do circuito tradicional, a empresa brasileira tem atraído viajantes interessados em entender o mundo para além das narrativas mais difundidas.
À frente do projeto está Cauê Araújo, bibliotecário de formação e empreendedor por vocação, que transformou uma inquietação pessoal em negócio. Em entrevista ao programa “Empreender Brasil”, da TV 247, ele conta como uma viagem despretensiosa acabou dando origem à agência, hoje responsável por roteiros que cruzam três continentes e incluem mais de 80 cidades.
Antes de entrar no setor de turismo, Cauê já atuava na área de formação política. Criador da plataforma “Classe Esquerda”, dedicada a cursos de orientação marxista, ele construiu uma rede de produção de conteúdo voltada ao debate crítico.
“Eu só trabalhava com curso online na época”, relembra. A virada aconteceu em 2022, durante uma viagem pela Geórgia e Armênia ao lado de Rodrigo Ianhez, que viria a se tornar seu sócio. “Durante essa viagem o Rodrigo me perguntou se eu não tinha vontade de abrir uma agência de viagens com ele. Eu passei quase dois dias sem dormir direito, pensando nisso.”
A decisão foi rápida. Em poucos meses, a ideia saiu do papel. “Em dezembro já estávamos abrindo a empresa, e em maio de 2023 lançamos a Estrela Vermelha.”
Turismo como experiência política e sensorial
A proposta da agência vai além do turismo convencional. Os roteiros combinam visitas a pontos históricos, experiências culturais e contato direto com a realidade local, incluindo escolas, cooperativas e espaços simbólicos.
“Conhecer a história por meio dos livros é uma jornada enriquecedora. Mas tocar, sentir, falar e interagir com o povo e com a cultura é uma experiência ainda mais profunda”, afirma Cauê. Em países como Cuba, por exemplo, o itinerário vai além de praias e centros históricos e inclui visitas a instituições sociais. “É uma viagem até de solidariedade também.”
A Rússia é outro destino central. A agência organiza viagens para eventos como o “Dia da Vitória”, além de roteiros pelo Ártico em busca da aurora boreal. “É de chorar de emoção quando você presencia uma aurora boreal na sua frente”, descreve.
Criar uma agência com esse perfil, no entanto, não é simples. Cauê aponta obstáculos que vão desde o custo elevado das passagens aéreas até entraves geopolíticos. “Trabalhar com países sancionados tem uma dificuldade maior”, explica, citando limitações em sistemas de pagamento internacional. Além disso, o cenário pós-pandemia ainda impacta o setor. “As passagens aumentaram muito e nunca mais voltaram ao preço de antes.”
Para Cauê, empreender não se limita à lógica do lucro, mas envolve inovação, pesquisa e transformação social. Ao citar a União Soviética como exemplo, ele provoca: “Foi um empreendedorismo de inovação absurdo. Mudou a humanidade em várias áreas.” E completa: “O que difere é o objetivo, para quem e para quê você está empreendendo.”
Ao apostar em roteiros que fogem do padrão e conectam turismo com formação crítica, a Estrela Vermelha revela um nicho ainda pouco explorado no Brasil. Mais do que viagens, a proposta é oferecer experiências que questionam, ampliam repertórios e colocam o viajante em contato direto com outras formas de organização social.
Veja a entrevista na íntegra aqui: