Turismo de base comunitária impulsiona renda e preserva cultura no Quilombo Kalunga
Modelo de gestão coletiva desenvolvido na comunidade Engenho II, em Goiás, movimentou quase R$ 12 milhões em dois anos e se tornou referência nacional
247 - O turismo de base comunitária tem transformado a realidade da Comunidade Kalunga do Engenho II, localizada em Cavalcante, na Chapada dos Veadeiros (GO). Além de fortalecer a economia local, o modelo contribui para a valorização da cultura quilombola e para a permanência dos moradores em seu território. As informações foram divulgadas pela Agência Sebrae de Notícias (ASN), com base em estudo realizado pelo Sebrae Goiás em parceria com a comunidade.
De acordo com o levantamento, a atividade turística gerou quase R$ 12 milhões em impacto econômico direto entre 2022 e 2023 e recebeu mais de 70 mil visitantes nos últimos três anos. O diferencial do modelo está na gestão conduzida pelos próprios moradores, que organizam e definem as regras da atividade, oferecendo serviços como hospedagem, alimentação, transporte, condução de visitantes e experiências culturais.
Para a coordenadora de Comércio, Serviços e Economias de Futuro do Sebrae Nacional, Ana Clévia Guerreiro, o protagonismo da comunidade é o principal elemento que diferencia esse formato de turismo.
"Ele se caracteriza pelo protagonismo das pessoas daquele local, daquele destino, daquele território. O visitante se conecta com aquilo que é mais autêntico, com a história, os desafios e as conquistas daquela comunidade."
O apoio do Sebrae ao território Kalunga começou em 2002, com a realização da Cavalgada Científica Kalunga, uma das primeiras iniciativas voltadas ao desenvolvimento do turismo em parceria com os moradores. Desde então, diversas ações foram implementadas, incluindo capacitação de condutores de visitantes, fortalecimento da agricultura familiar, estudos de identidade territorial (branding) e a criação da Rede de Agentes de Roteiros Turísticos, iniciada em 2022.
Segundo a gestora estadual de Turismo do Sebrae Goiás, Priscila Vilarinho, esse novo ciclo de atuação foi estruturado sobre quatro eixos principais: gestão colaborativa, organização da atividade turística, qualificação dos produtos e experiências oferecidas e fortalecimento da promoção comercial.
"Todas as iniciativas foram executadas de forma colaborativa, respeitando a identidade, o tempo social da comunidade, seu protagonismo e seu processo de empoderamento", destaca.
Turismo movimenta diversos setores da comunidade
Os recursos gerados pelo turismo beneficiam diferentes segmentos da economia local. Conforme o estudo, entre 2022 e 2023, a Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE) arrecadou cerca de R$ 5 milhões. Guias e condutores de visitantes receberam R$ 3,5 milhões, enquanto os transportadores movimentaram R$ 1,8 milhão e os restaurantes registraram R$ 1,5 milhão em receitas.
O impacto financeiro também alcança atividades como agricultura familiar, artesanato, hospedagem, alimentação e serviços de apoio, criando uma cadeia produtiva que mantém a renda circulando dentro da própria comunidade.
Outro destaque é a participação feminina. O levantamento aponta que mulheres administram todos os restaurantes da comunidade e 75% dos meios de hospedagem. Elas também representam 42% dos condutores de visitantes, além de liderarem grande parte da produção artesanal.
A liderança comunitária Dominga Natália Moreira dos Santos, que atua como professora, condutora de visitantes e empreendedora na área de hospedagem, afirma que o turismo abriu novas oportunidades para mulheres e jovens da comunidade.
"Minha primeira fonte de renda foi como condutora de visitantes. Fiz o curso com apoio do Sebrae e, a partir daí, comecei minha trajetória no turismo."
Gestão coletiva fortalece investimentos locais
A administração da atividade turística é realizada pela Associação Kalunga Comunitária do Engenho II. As decisões são tomadas em assembleias e, após o pagamento das despesas operacionais e dos funcionários, parte dos recursos é destinada a investimentos definidos pelos próprios moradores.
Entre as melhorias promovidas com esses recursos estão obras em estradas, aquisição de veículos e máquinas, instalação de internet e rede de abastecimento de água, apoio a eventos culturais, estruturação de atrativos turísticos, oferta de cursos, compra de equipamentos comunitários, ações na área da saúde e iniciativas voltadas ao fortalecimento da gestão territorial.
Além disso, a associação mantém trabalhadores contratados formalmente em áreas como recepção, administração, reservas, limpeza, manutenção e loja.
Para Priscila Vilarinho, o caso do Quilombo Kalunga demonstra que o sucesso do turismo comunitário depende da liderança exercida pelos próprios moradores.
"O sucesso do turismo de base comunitária está diretamente ligado ao respeito ao tempo da comunidade. O planejamento técnico precisa caminhar junto com os processos de empoderamento e legitimidade local."
Cultura quilombola amplia experiência dos visitantes
Embora a Cachoeira Santa Bárbara permaneça como um dos principais atrativos turísticos da região, a comunidade tem ampliado sua oferta de experiências culturais. Atualmente, os visitantes também participam de rodas de conversa, degustam a gastronomia quilombola, conhecem histórias contadas pelos anciãos, acompanham atividades da agricultura familiar, visitam espaços de artesanato e participam de festas tradicionais.
Para Ana Clévia Guerreiro, essa valorização da identidade cultural é um dos principais diferenciais do turismo de base comunitária.
"Quanto mais singular e genuíno é um território, mais ele desperta interesse. É essa identidade, construída ao longo de décadas ou séculos, que faz com que as pessoas queiram conhecer aquele lugar."
O trabalho desenvolvido pela comunidade recebeu reconhecimento nacional em 2023, quando a Associação Kalunga Comunitária do Engenho II conquistou o Prêmio Nacional do Turismo, concedido pelo Ministério do Turismo, na categoria de melhor iniciativa de Turismo de Base Comunitária do Brasil.
Para Dominga Natália Moreira dos Santos, a premiação representa o resultado de um esforço coletivo desenvolvido ao longo dos anos.
"Foi um reconhecimento gigantesco para a gente. Mostrou que estamos andando em um bom caminho e que a comunidade sente de perto a importância desse trabalho", afirma.
