"A educação foi sequestrada pelo neoliberalismo", diz Dora Incontri
Educadora critica metas “de banco” na escola pública, alerta para o avanço de uma teocracia e aposta em uma universidade livre
247 – A jornalista e educadora Dora Incontri afirmou que “a educação foi sequestrada pelo neoliberalismo” e denunciou a transformação de escolas em máquinas de metas e indicadores, em detrimento do desenvolvimento integral dos estudantes e do vínculo afetivo entre professor e aluno.
A declaração foi feita em entrevista ao jornalista Leonardo Attuch, nos estúdios da TV 247, em conversa que também abordou a captura da educação básica por fundações e contratos com prefeituras, o adoecimento de professores, os riscos políticos de 2026 e o lançamento da TV Universidade Livre Pampédia, projeto que ela define como uma plataforma de educação “livre, emancipatória, crítica e interdisciplinar”.
Da recusa à mídia corporativa à crítica da escola “como ela é”
Dora se apresentou como jornalista formada pela Cásper Líbero, mas disse ter abandonado cedo a carreira na imprensa por não aceitar “vender a cabeça” para as grandes corporações midiáticas. Ela relatou que recusou convites para trabalhar na revista Veja e decidiu se dedicar à educação, onde seguiu trajetória acadêmica com mestrado, doutorado e pós-doutorado na USP, além de experiência prática em escolas e na direção de faculdade de pedagogia.
No diagnóstico da entrevistada, o modelo escolar vigente se afasta da formação integral e se aproxima de uma lógica de adestramento social. Ela defendeu uma educação “mais livre, mais aberta, mais plural” e se definiu como militante de uma pedagogia emancipatória, com crítica direta à escola tradicional.
Ao explicar suas referências, Dora destacou educadores clássicos que, segundo ela, são pouco estudados no Brasil. Ao falar do suíço Johann Heinrich Pestalozzi, afirmou que ele introduziu o amor e a afetividade como fundamento do ato pedagógico: “Para ele não existia ato pedagógico sem que houvesse uma relação afetiva entre educador e educado”. Ela também apontou a influência de Rousseau, autor de “Emílio”, e colocou Comenius (Komenský) como a grande síntese de uma educação universal.
“Ensinar tudo a todos” e a educação como emancipação
Na entrevista, Dora descreveu Comenius como defensor de uma educação democrática e integral, orientada ao desenvolvimento completo das potencialidades humanas. Ela enfatizou o caráter radicalmente inclusivo do lema comeniusiano, que abraça pessoas de diferentes idades, gêneros, condições e povos.
A educadora associou esse legado a um combate contemporâneo: a resistência contra uma “educação para o mercado”, moldada para formar “soldadinhos” submetidos à lógica empresarial. Para ela, o resultado é uma pedagogia centrada no desempenho mensurável, na competição e no estreitamento do currículo, com perda do sentido humano do ensino.
Dora também trouxe uma crítica à degradação cognitiva na era digital, defendendo que tecnologia deve ser usada com tutoria pedagógica: sem orientação, disse, crianças ficam expostas a estímulos nocivos e redes que corroem atenção e aprendizagem. Na sua leitura, a educação precisa recuperar o protagonismo do educador e o projeto pedagógico, em vez de terceirizar a formação para algoritmos e plataformas.
Escola pública sob “meta de banco” e contratos com fundações
Ao comentar a realidade brasileira, Dora afirmou que a educação neoliberal “está tomando conta das escolas públicas no Brasil” e descreveu um cotidiano em que metas e indicadores se impõem como se fossem exigências do sistema financeiro. Ela relatou que professores estão “adoecidos psiquicamente” por cobrança de desempenho e pressionados a elevar resultados, sem que haja investimento consistente em acolhimento e projetos de desenvolvimento integral.
Na entrevista, ela conectou esse processo a parcerias institucionais e contratos que aproximam empresas e fundações do cotidiano escolar, com influência direta sobre diretores e professores. Questionada sobre o papel das fundações, foi taxativa: “Totalmente. Não é influência, é contrato mesmo com as prefeituras”.
Dora descreveu a escola pública como espaço atravessado por vulnerabilidades sociais — pobreza, carências e violência em territórios dominados pela criminalidade — e criticou o deslocamento do foco pedagógico: em vez de acolher e construir projetos interdisciplinares para formar sujeitos, o sistema exige desempenho padronizado em matemática e língua portuguesa como se todos partissem do mesmo ponto.
Ela também avaliou que governos identificados como de esquerda cederam à lógica neoliberal em áreas-chave. Citou o presidente Lula como exemplo de um governo “melhor do que qualquer outro”, mas apontou concessões, com ênfase na educação básica e na comunicação. Ainda assim, reconheceu como emancipador o aumento do acesso de populações pobres ao ensino superior.
Espiritualidade, política e o risco de teocracia
Além do debate educacional, a entrevista avançou para religião, política e disputa cultural. Dora disse atuar em uma militância de diálogo interreligioso e “suprareligioso”, com dois objetivos: combater fundamentalismo e fanatismo e reafirmar que a espiritualidade pode ser força propulsora de transformação social, sem se confundir com conservadorismo.
Nesse contexto, ela demonstrou preocupação com o avanço de um projeto político-religioso que descreveu como “teologia do domínio”, citando a existência, desde as décadas de 1960 e 1970, de uma estratégia articulada nos Estados Unidos para implementar uma teocracia. Para ela, os sinais no Brasil são concretos e preocupantes, com crescimento de bancadas religiosas e medidas como a adoção da Bíblia como livro didático em iniciativas locais, além de pressões sobre direitos e costumes.
Questionada sobre o cenário eleitoral de 2026, Dora afirmou que sua maior apreensão é o Congresso Nacional, porque parte do eleitorado não percebe a centralidade de escolher deputados e senadores. Na análise apresentada, mesmo com chance de vitória de Lula, o avanço da extrema direita no Legislativo pode bloquear o governo e aprofundar uma agenda “sombria”.
Trump, BRICS e a “queda do império”
No trecho final, Dora avaliou o momento internacional e comentou Donald Trump, a quem chamou de “assustador” e “tenebroso”, comparando-o mais a Mussolini do que a Hitler pela dimensão “caricata”. Ela afirmou enxergar o fenômeno como “sintoma da queda do império” e disse ter esperança de que o BRICS contribua para “mudar a ordem mundial”.
Ao falar sobre turbulências geopolíticas, Dora ponderou que a transição pode ser acompanhada de riscos, citando o ambiente de polarização interna nos Estados Unidos, a difusão de armas e a possibilidade de conflitos sociais escalarem. Sem fazer previsões, ela descreveu um cenário de instabilidade no qual o mundo precisará resistir aos impulsos autoritários.
Encerrando a entrevista, Dora apresentou a Universidade Livre Pampédia, criada em 2015, com cursos acessíveis em diversas áreas — educação, psicanálise, filosofia, política e espiritualidades — e anunciou a inauguração, em fevereiro, da TV Universidade Livre Pampédia, com programas curtos para ampliar o alcance do debate público e “furar bolhas” por meio de conhecimento mais profundo e acessível.


