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Ângela Vieira diz que a arte ensina a olhar o outro

Atriz relembra início no balé, fala sobre teatro, TV, política e defende a liberdade como valor central da vida artística

Ângela Vieira diz que a arte ensina a olhar o outro (Foto: Brasil247)

247 - Ângela Vieira afirmou que a experiência artística moldou sua maneira de observar as pessoas e compreender o mundo. Ao participar do programa Conversas com Hildegard Angel, a atriz revisitou a passagem do balé para a dramaturgia, falou sobre a formação construída na prática e associou a arte a uma disposição permanente de atenção ao outro. “A arte nos faz olhar o outro”, resumiu.

Em entrevista à Hildegard Angel da TV 247, a artista contou que sua trajetória começou ainda na infância, quando foi levada ao balé por orientação médica e acabou se apaixonando pela dança. A partir daí, passou pela Escola de Dança, ingressou no corpo de baile e, em paralelo, cursou programação visual na PUC, até estrear no teatro e consolidar a mudança para a carreira de atriz. 

Ao relembrar esse início, Ângela descreveu o universo do Teatro Municipal do Rio de Janeiro como um espaço de encantamento e reverência. Segundo ela, conviver com nomes mais experientes do balé era uma experiência marcante, tanto na sala de aula quanto nos espetáculos. “Era muito, muito emocionante estar ali na mesma sala de aula que eles”, disse. Também recordou a atmosfera dos bastidores e a memória sensorial daquele ambiente. “Uma coisa que eu jamais na minha vida vou esquecer é o cheiro do teatro”, afirmou.

Para a atriz, esse convívio intenso com o palco e com os artistas ajudou a formar uma sensibilidade específica do ofício. “A gente vive do outro”, declarou, ao explicar que a observação das pessoas se transforma em matéria-prima para compor personagens. Na avaliação dela, esse exercício cotidiano de percepção é uma espécie de marca da profissão, porque traços aparentemente banais podem reaparecer mais tarde no trabalho de interpretação.

Na conversa, Ângela também tratou da ideia de “diva” no meio artístico e defendeu uma separação entre o brilho da cena e a vida cotidiana. Ao citar Irene Ravache e Eva Wilma, destacou a convivência entre grandeza artística e humanidade fora dos palcos. “Dá para você diferenciar isso, mas quando ela entra num palco, ela é uma diva”, observou.

Um dos pontos centrais da entrevista foi a lembrança de personagens que marcaram sua carreira na televisão. Ao comentar a reprise de Terra Nostra, Ângela contou que voltou a ser abordada pelo público por causa da personagem Janete, uma figura inicialmente dura e preconceituosa, que depois atravessa um processo de transformação. Ela recordou inclusive uma reação bem-humorada que ouviu na rua: “Devolve aquela criança, pô”.

Ao falar da construção dessa personagem, a atriz atribuiu papel importante ao diretor Jaime Monjardim e, principalmente, ao ator Raul Cortez. Segundo ela, o colega lhe ofereceu uma orientação decisiva em uma cena de forte carga emocional, gesto que jamais esqueceu. “Posso te dar uma dica?”, teria perguntado Raul, antes de sugerir caminhos internos para o monólogo. Ângela disse que se emocionou profundamente com a ajuda recebida: “Foi um momento lindo”.

Sem formação em escola de teatro, Ângela afirmou que desenvolveu seu trabalho sobretudo na prática, embora sempre tenha valorizado o estudo. Ela lembrou a importância de Cecil Thiré nesse processo, ao contar que o ator lhe indicou leituras decisivas quando ela começou a atuar na televisão. “Ele foi esse grande parceiro, esse grande mestre para mim”, afirmou.

A entrevista também avançou sobre posicionamento político. Ângela disse que nunca deixou de expressar suas convicções, embora reconheça o custo disso nas redes sociais. “Sou muito agredida nas redes pelo meu posicionamento”, relatou. Ainda assim, afirmou que não abre mão da própria opinião e associou sua postura à formação familiar e ao apreço pela convivência democrática. “A boa convivência com os contrários é um dos suportes da democracia”, declarou.

Ao recordar o período da ditadura militar, a atriz contou que sua consciência política se formou na juventude, em contato com pessoas atingidas diretamente pela repressão. Segundo ela, esse contexto ajudou a definir sua visão de mundo e sua identificação ideológica. “Na minha cidadania política, eu sou uma pessoa de esquerda”, disse. Em outro trecho, reforçou: “Eu me identifico com o discurso da esquerda”.

Durante a conversa, Ângela também criticou a agressividade presente no debate público e disse ver com preocupação a deterioração do diálogo. “A boa convivência com os contrários é um princípio da inteligência”, afirmou. Para ela, o problema não está na divergência em si, mas na ausência de abertura para a troca de ideias.

Sobre o mercado audiovisual, a atriz comparou a cadência das novelas do passado com o ritmo atual das produções. Na avaliação dela, as cenas perderam tempo de maturação e passaram a ser conduzidas com mais rapidez. “Agora é tudo muito clipado”, disse. Ela afirmou que esse novo formato altera a experiência do ator e também a relação do público com a narrativa, reduzindo o espaço para o desenvolvimento mais amplo das cenas.

Ainda nesse tema, Ângela comentou a presença de pessoas sem formação artística em papéis de destaque na televisão. Embora tenha reconhecido que há talentos intuitivos, ponderou que o ofício exige percurso e preparo. “Há que se trilhar um caminho para isso”, declarou. Em sua análise, colocar alguém sem experiência diante das exigências do estúdio pode ser uma exposição excessiva: “É jogada aos leões”.

Ao longo da entrevista, a atriz relembrou passagens por diferentes emissoras e destacou que viveu um período em que era possível fazer sucesso na dramaturgia fora da TV Globo, citando trabalhos na Manchete e na Band antes de passar muitos anos contratada pela emissora carioca. Ela também observou que a robustez da dramaturgia televisiva de outras décadas estava ligada à permanência de elencos, diretores e equipes técnicas, o que permitia continuidade e aprofundamento.

No teatro, Ângela afirmou que continua buscando desafios e revelou entusiasmo com um novo projeto em preparação, centrado em uma personagem inspirada na escritora Patricia Highsmith. Segundo ela, o desejo foi escolher um texto que a obrigasse a se investigar como atriz. “Eu quero fazer uma coisa que me faça estudar, que me faça me pesquisar”, afirmou. Na montagem, ela deve dividir o protagonismo com Vitor Thiré.

A atriz ainda falou da vida pessoal, da maternidade, do casamento com o cartunista Miguel Paiva e da experiência de anos em terapia. Sobre esse processo, foi enfática ao defender a importância do acompanhamento profissional. “Eu acho que o processo de uma terapia é necessário para todo mundo”, afirmou. Para ela, o espaço terapêutico permite confrontar desejos, memórias e contradições com mais clareza.

No encerramento da conversa, Ângela voltou a associar arte, liberdade e dignidade. Disse que a profissão que escolheu pressupõe liberdade para ousar, criar e se expressar, e rejeitou a ideia de que pessoas devam ser punidas por suas escolhas pessoais ou políticas. “A coisa mais preciosa que tem numa pessoa é a sua liberdade pessoal”, afirmou.