Caco Ciocler transforma “patriota do caminhão” em reflexão sobre a crise de escuta no Brasil
Ator e diretor afirma que filme inspirado em meme bolsonarista discute polarização, desinformação e o risco do avanço autoritário
247 - O ator e diretor Caco Ciocler estreia nesta quarta-feira (14) o longa-metragem Eu não te ouço, inspirado no episódio que ficou conhecido nacionalmente como o “patriota do caminhão”, uma das cenas mais emblemáticas da crise política pós-eleição de 2022. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, Ciocler explicou que o filme vai além da sátira e propõe uma reflexão profunda sobre a incapacidade de diálogo na sociedade brasileira.
A produção, segundo o cineasta, nasceu da inquietação provocada pelo episódio em que um manifestante bolsonarista se pendurou na frente de um caminhão para impedir a passagem durante os bloqueios nas estradas após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. O caso viralizou como meme, mas, para Ciocler, escondia algo mais grave. “Em determinado momento eu parei de rir desse meme. Falei: ‘Cara, tem alguma coisa muito trágica acontecendo aqui e acho que a gente não deve só rir disso’”, afirmou.
O diretor contou que decidiu “entrar naquele meme” para entender quem eram aquelas pessoas e o que aquela imagem representava politicamente e socialmente. O resultado foi um filme que, segundo ele, investiga “essa impossibilidade de escuta” que marca o Brasil contemporâneo.
“Ali existia um vidro, uma barreira física que impedia aqueles dois de se comunicar. Esse vidro era também um espelho, então cada um se comunicava com seu próprio reflexo”, explicou. “Isso é uma tradução metafórica do que a gente vive.”
Ciocler afirmou que o longa não busca fazer uma disputa simplista entre esquerda e direita. Segundo ele, o foco está no processo de fragmentação social e na forma como a extrema direita se aproveita da desinformação e das redes sociais para aprofundar divisões.
“O filme é sobre uma cisão na sociedade. E eu ouso dizer que não é só no Brasil, é um fenômeno mundial”, declarou. “Cada lado tem certeza de que vive na realidade e de que o outro lado vive numa maluquice.”
O ator também criticou a apropriação de conceitos históricos pela extrema direita. “Ela sequestrou inclusive o nosso vocabulário. A extrema direita fala em revolução, democracia, liberdade de expressão — termos que historicamente eram usados pela esquerda para lutar contra o fascismo.”
Para o diretor, as redes sociais alimentam uma lógica baseada em “retalhos de informação”, sem profundidade, o que contribui para a radicalização política. “Nada é profundo. A gente reproduz fragmentos que criam uma lógica maluca diante da qual a outra metade do país acha que estamos loucos”, afirmou.
Durante a entrevista ao Boa Noite 247, Ciocler fez um alerta sobre os riscos históricos desse processo. “O limite dessa cisão, dessa crença de que metade da população quer destruir o país, sempre foi historicamente o início do advento fascista.”
Apesar do cenário preocupante, o cineasta defende que os setores progressistas não podem reproduzir a mesma lógica de intolerância. “A gente não pode acusar o outro lado de não querer ouvir e fazer a mesma coisa”, disse. “Ou a gente começa a conversar, ou a gente quebra esse vidro.”
O diretor também destacou o papel da cultura como instrumento de reflexão e resistência democrática. “Todos os movimentos autoritários tentam acabar com a cultura porque ela cria pensamento, destrói certezas”, afirmou.
Eu não te ouço é o terceiro filme de uma trilogia política iniciada após a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Ciocler explicou que os projetos surgiram como respostas artísticas aos principais acontecimentos políticos recentes do país, incluindo a pandemia de Covid-19 e a radicalização bolsonarista.
O longa foi produzido sem leis de incentivo ou patrocínios públicos, com financiamento independente. Segundo Ciocler, o filme foi rodado em apenas quatro dias dentro de um estúdio LED e já alcançou ampla repercussão nas redes sociais, com mais de 1,5 milhão de visualizações do trailer.
A obra participou do Festival do Rio e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O ator Márcio Vito, que interpreta os dois personagens centrais da trama, recebeu o prêmio de melhor ator no Festival do Rio.
Nesta primeira semana, o filme será exibido em apenas duas salas: no Cine Belas Artes, em São Paulo, e no CineSystem Belas Artes, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Ciocler destacou que o desempenho inicial será decisivo para a permanência do longa em cartaz.
“A experiência coletiva transforma o filme. Acho que é um filme muito importante de ser visto no cinema”, afirmou.
Ao final da entrevista, o diretor resumiu o principal objetivo da obra: “É um chamamento para que a gente pare apenas de rir daquele momento e comece a pensar em como quebrar esse vidro. Porque, se a gente não voltar a conversar, o mundo pode retroceder para as piores coisas que já viveu.”
