Ítala Nandi revisita seis décadas de palco, cinema e resistência cultural
Atriz relembra o Teatro Oficina, a censura, o primeiro nu no palco brasileiro e projetos aos 84 anos
247 - A atriz Ítala Nandi percorre mais de seis décadas da história cultural brasileira ao relembrar sua trajetória artística, marcada por ousadia, engajamento e pioneirismo. Em entrevista ao programa Conversas com Hildegard Angel, a artista fala sobre o Teatro Oficina, o cinema novo, a ditadura militar, o episódio do primeiro nu do palco brasileiro e seus projetos atuais, incluindo uma nova peça autoral que pretende estrear no Rio de Janeiro.
A entrevista reúne memórias pessoais e artísticas de uma das figuras centrais do teatro brasileiro desde os anos 1960, período em que Ítala integrou o núcleo fundador do Teatro Oficina, ao lado de nomes como José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi.
Do escritório ao palco do Oficina
Ítala Nandi conta que sua entrada no Teatro Oficina se deu de forma improvável. Formada em contabilidade, ela começou trabalhando nos bastidores do grupo. “Eu entrei na oficina como contadora, porque eu sou formada em contabilidade”, relembra. A passagem para o palco ocorreu de maneira inesperada, quando precisou substituir, em apenas 24 horas, a atriz Rosa Maria Murtinho em cartaz. “Eu nunca tinha pisado no palco. Em 24 horas substituí ela”, afirmou.
A partir daí, tornou-se uma das atrizes centrais do grupo, participando de montagens históricas como Pequenos burgueses, O rei da vela, Galileu Galilei e Na selva das cidades. Para Ítala, a marca do Oficina sempre foi a ousadia. “A coisa que mais caracterizava o Oficina era a coragem. O Zé falava muito em ‘foco rápido’”, disse.
O primeiro nu do teatro brasileiro
Um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira ocorreu em Na selva das cidades, montagem de 1967. Ítala protagonizou ali o que ficou conhecido como o primeiro nu do teatro brasileiro, em plena ditadura. Segundo a atriz, não havia qualquer intenção de provocar escândalo. “Eu nunca tive a ideia de que estava fazendo o primeiro nu. Era uma declaração de amor”, afirmou.
Ela relata que a cena passou pela censura sem cortes. “O censor disse: ‘Tudo bem, muito pura, não tem problema’”, contou. O impacto veio depois, com a reação do público e da imprensa. “Aí caiu a ficha. Foi um estardalhaço na mídia”, lembrou.
Cinema, ditadura e criação
Nos anos 1970 e 1980, Ítala concentrou sua carreira no cinema, atuando em mais de 36 filmes e trabalhando com diretores como Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Ruy Guerra e David Neves. Ela destaca o ambiente criativo do período, mesmo sob repressão política. “Nem a censura conseguia calar”, afirmou.
Ao falar do cenário internacional e político, Ítala faz críticas ao avanço do autoritarismo e menciona Donald Trump, ao tratar da desinformação e do ataque à cultura. “A verdade é transformada em mentira”, disse, ao refletir sobre o contexto global.
Novos projetos aos 84 anos
Aos 84 anos, Ítala Nandi segue em plena atividade. Ela anunciou que prepara a estreia de uma nova peça escrita por ela, ambientada no dia 13 de dezembro de 1968, data da promulgação do AI-5. “Eu escrevi essa peça e pretendo estrear este ano”, afirmou. O espetáculo terá direção de Lucas Weglinski e produção independente.
A atriz também revelou um desejo ainda não concretizado: integrar a Academia Brasileira de Letras. “Eu gostaria muito de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Acho que é um reconhecimento que eu mereço”, declarou, destacando sua produção literária e acadêmica ao longo da carreira.
Ao revisitar sua trajetória, Ítala Nandi reafirma o papel da arte como força de resistência e transformação. Entre memória, criação e crítica, a atriz segue como uma das vozes mais singulares da cultura brasileira.