Pietro Alarcón: vitória inédita da esquerda é esperança de paz na Colômbia

'Desafio que temos agora é vencer o medo', afirma jurista colombiano ao comentar as eleições do dia 29 de maio, que têm Gustavo Petro como favorito

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Pietro Alarcón (Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247)


Opera Mundi - Às vésperas da eleição presidencial na Colômbia, no próximo domingo (29/05), o jurista colombiano Pietro Alarcón conversou com o jornalista Breno Altman no 20 MINUTOS INTERNACIONAL desta quinta-feira (26/05), afirmando que a realidade sobre a violência no país ficou evidente após o Acordo de Paz de 2016 entre o Estado e a Forças Armadas Revolucionárias (Farc). 

Segundo Alarcón, a elite dominante sofreu um golpe contundente quando o pedido de paz se tornou o centro da política do movimento guerrilheiro. “O povo colombiano perguntou: se os violentos são os guerrilheiros, por que o Estado estaria contra a paz?”, resumiu. 

Seis anos após o acordo, o favorito nas pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial é, pela primeira vez, um candidato à esquerda, o ex-prefeito de Bogotá e ex-guerrilheiro Gustavo Pietro, hoje à frente da coalizão eleitoral Pacto Histórico.

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O jurista descreveu o que está em jogo no processo eleitoral em relação aos direitos humanos, à soberania e à autodeterminação do país: “a Colômbia praticamente renunciou à ideia de interesse nacional e assumiu o interesse nacional da potência hegemônica no poder internacional, os Estados Unidos. Tornou-se um território de funcionamento de sete bases militares dos Estados Unidos, uma espécie de plataforma de agressão a outros Estados”. 

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Para o colombiano, o papel determinante da candidata a vice-presidente pelo Pacto Histórico, Francia Márquez, oriunda dos estratos populares da Colômbia afrodescendente e da luta pela terra e pela reforma agrária.

Alarcón explicou que os movimentos se organizam em torno de Petro, com origem na fundação do partido União Patriótica, nos anos 1980, agregando diversos setores que acreditavam em um projeto de convivência política pacífica entre os colombianos. Seus inimigos, segundo o jurista, eram os do encerramento da situações de guerra civil, violência, indignidade e falta de reconhecimento de direitos de grande parte da população colombiana. 

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“A União Patriótica sofreu a perseguição dos grupos paramilitares e do terrorismo de Estado, a ponto de ter entre 5 e 6 mil militantes assassinados. É uma amostra da agressividade do regime político colombiano e das forças que fazem parte da classe dominante”, disse, lembrando que a Câmara Interamericana de Direitos Americanos reconheceu a existência de uma política de extermínio na Colômbia.

No presente, explicou Alarcón, a União Patriótica faz parte da coluna vertebral de algo maior, o Pacto Histórico, integrado por organizações como o Partido Comunista, a Colômbia Humana do candidato Petro, o Polo Democrático de Francia Márquez, forças desprendidas dos segmentos tradicionais, como o Partido Liberal, e forças sociais dispostas a concretizar os acordos de paz para dar fim à guerra civil em vigor desde 1964.

Segundo as pesquisas eleitorais, Petro tem hoje 44% das intenções de voto contra 40% dos dois principais adversários somados e empatados. Esses são Federico Gutiérrez, alinhado com a direita e a centro-direita (inclusive ao ex-presidente Álvaro Uribe e o atual mandatário Iván Duque), e o populista Rodolfo Hernández, representante, na definição de Alarcón, de uma espécie de terceira via que proclama a salvação do país diante dos dois supostos extremos.

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A eleição presidencial de domingo desperta atenção internacional porque, diferentemente de outros países da América Latina, como Brasil, Argentina, Equador e Venezuela, jamais a Colômbia teve um governo de esquerda. “Historicamente, a classe dominante constituiu uma hegemonia e, no último período, tem criado uma condição muito negativa para o desenvolvimento interno e para a integração latino-americana, através de um setor muito conservador que acredita na guerra como saída para os problemas nacionais e tem compromisso com setores do narcotráfico e paramilitares”, definiu.

Ele defendeu que a guerrilha no país tem uma razão de ser: "as causas da violência na Colômbia são objetivas e têm a ver com o fechamento dos espaços democráticos para fazer política e oposição. Petro vem daí. Rejeito, porque não corresponde à realidade, a visão de que os grupos guerrilheiros eram grupos de pessoas psicologicamente afetadas que faziam a violência pela violência, ou que fosse uma importação da Revolução Cubana”.

Alarcón observou que o Pacto Histórico corresponde, hoje, a um acúmulo histórico que aglutina todas as forças que têm denunciado e manifestado uma oposição “rebelde, mas consciente” ao Estado oligárquico, defendendo a estratégia de combinar institucionalidade com a força das ruas para rejeitar a violência como mecanismo de resolução de conflitos, o que torna a Colômbia um país permanentemente à beira da explosão social.

Explicando o que representa o uribismo na Colômbia, o jurista interpretou o fortalecimento dessa corrente a partir do salto da tolerância da elite dominante ao narcotráfico, com acordos feitos pelos setores dominantes para que a “economia submersa” alimentasse projetos da oligarquia tradicional. Álvaro Uribe surgiu representando setores que começaram a fazer campanha política com os recursos do narcotráfico e o paramilitarismo. Para ele, a paz declarada em 2016 foi resultado também das contradições entre setores dominantes mais liberais ou mais conservadores.

"Não é preciso um golpe militar no estilo clássico do Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. Na Colômbia encontramos o que Eduardo Galeano retratou como 'democradura' ou 'ditacracia'”, definiu. O sistema obedece às forças armadas, apesar de não ter acontecido nenhum golpe militar nos últimos 70 anos.

Segundo Alarcón, com o acordo de paz de 2016 a Colômbia conseguiu vencer a hegemonia de pensamento de setores militaristas e fascistas que pregam a guerra como única saída política possível, sob o argumento de que “nós precisamos fazer a guerra para derrotar a insurgência”. Todo esse processo, de acordo com o jurista, demonstrou com nitidez de onde vem a violência na Colômbia. 

Lembrou que, desde 2016, ex-combatentes das Farc, sindicalistas, camponeses e lideranças sociais e indígenas têm sido submetidos a um aniquilamento sistemático, pois não foram paralisadas as estratégias de assassinato do paramilitarismo e do militarismo. Diante de números citados pelo juristas, Altman observou que o Estado colombiano mata, direta ou indiretamente, uma Marielle Franco por dia. 

"O Brasil não pode se tornar Colômbia. Precisa conter as milícias, o paramilitarismo e as forças que pretendem tornar a violência uma normalidade perversa. É o que temos na Colômbia, a solução dos problemas políticos a partir do aniquilamento do outro, que deixa de ser adversário político e se torna inimigo objetivo militar", afirmou, lembrando os assassinatos de sucessivos candidatos oposicionistas à Presidência como um dos motivos para o insucesso histórico das forças progressistas no país. “Um dos desafios que temos agora é vencer o medo”, concluiu Alarcón.

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