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Robério Diógenes detalha bastidores e criação do delegado em 'O agente secreto'

Ator celebra prêmio internacional, comenta método de Kléber Mendonça e fala do impacto do filme para o cinema nordestino

Kleber Mendonça Filho conquista Globo de Ouro de melhor produção de líongia não inglesa (Foto: Reuters)

247 - O ator Robério Diógenes, intérprete do delegado Euclides em "O agente secreto", revelou bastidores da produção, comentou o processo de construção do personagem e avaliou o significado do reconhecimento internacional do filme para o audiovisual brasileiro. As declarações foram feitas durante uma entrevista à TV 247, na qual o artista falou sobre o clima de celebração, o trabalho em set e sua trajetória no teatro e no cinema.

Na entrevista, Robério relatou que acompanhou a premiação em Fortaleza, cercado por colegas do meio artístico. “Eu convidei todos pra gente assistir o filme aqui na minha casa. Comprei o champanhe, fizemos uma festa na hora da premiação”, contou. Segundo ele, o anúncio do prêmio provocou comemoração imediata. “Quando falou o vencedor, filme internacional, O agente secreto, já foi uma festa”, disse, lembrando que a repercussão foi instantânea. “Eu já acordei com 1000 ligações de entrevista, passei o dia hoje dando entrevista.”

Para o ator, o reconhecimento extrapola o plano individual. “Esse prêmio fortalece o cinema nacional, fortalece o cinema nordestino, fortalece o cinema vigoroso de Pernambuco e do Ceará”, afirmou. Ele também destacou iniciativas recentes no estado, como a criação de uma empresa pública voltada ao setor audiovisual. “No momento em que no Ceará está se criando uma empresa pública de cinema, a Ceará Filmes, isso vem fortalecer ainda mais.”

Ao falar do filme, Robério ressaltou a ambientação histórica da narrativa. “O agente secreto mostra como vivia o Recife em 1977, a atmosfera da ditadura militar”, explicou. O ator lembrou que chegou ao projeto por meio de um processo seletivo amplo. “Esse personagem foi um teste aberto para o Brasil inteiro. Passei por três fases”, relatou, até chegar à etapa final com o diretor Kléber Mendonça.

Segundo Robério, o cineasta destacou desde o início a complexidade do papel. “O Cléber falou que eu dava profundidade e leveza ao personagem, que ele tinha camadas a mais para descobrir”, disse. Um dos momentos decisivos, de acordo com o ator, ocorreu durante a prova de figurino. “Quando eu vesti o figurino e me olhei no espelho, eu entendi o que era o personagem e o que o diretor queria.”

O método de direção também marcou o processo. “O Kléber trabalhou muito a questão do silêncio, do tempo estendido. Ele dizia: ‘eu não tenho pressa da cena’”, relatou. Para Robério, essa condução foi determinante para a tensão dramática. “Ele pedia pausa, observação. Para mim foi uma aula de cinema.”

O ator explicou que a construção do delegado passa por contradições. “É um personagem que tem o lado humano. Existe sempre a contradição do vilão”, afirmou. Segundo ele, o roteiro sugere vínculos e gestos de proteção que convivem com a violência do cargo. “Ele diz: ‘ninguém mexe com vocês. Mexeu com você, mexeu comigo’”, lembrou.

Sobre o trabalho em cena com Wagner Moura, Robério destacou o clima de parceria. “O Wagner é super companheiro de cena”, disse, ressaltando também a postura do diretor. “O Kléber Mendonça é um gentleman, sabe muito bem o que quer e mantém o set como um organismo vivo.” Para o ator, a generosidade entre os profissionais elevou o resultado final. “Quando todo mundo entrega o melhor de si, a cena fica três, quatro vezes melhor.”

Ao final da conversa, Robério refletiu sobre a própria carreira e o ofício artístico. “A gente como artista nunca sabe bem o que é estar consolidado. Nós estamos sempre começando”, afirmou. Ele lembrou que iniciou no teatro nos anos 1980 e que cada trabalho representa um ciclo. “Você nasce naquele trabalho, morre nele e depois renasce no próximo.”

Robério também destacou o alcance do longa. “O filme já é a maior bilheteria e o maior número de espectadores de um filme produzido no Nordeste”, afirmou. Para ele, o sucesso reforça uma ideia central: “O cinema pernambucano é forte, o cinema cearense é forte. Não é regional, nós somos nacionais, nós somos Brasil.”