Aécio enfim assume oposição, mas fica com cara de Serra

Senador mineiro se destaca cada vez mais nos discursos contrários ao PT e ao governo federal. Se a cara mudou, o discurso é quase o mesmo, repetindo o discurso dos bancos na questão dos juros e refletindo temores de ameaça à liberdade de expressão e à democracia. Vai dar certo desta vez?

Aécio enfim assume oposição, mas fica com cara de Serra
Aécio enfim assume oposição, mas fica com cara de Serra (Foto: Montagem/247)

Minas 247 -

O senador Aécio Neves (PSDB) ainda é visto como uma oposição diferente ao governo do PT em Brasília. Com seu estilo conciliador, tem ótimo diálogo com vários segmentos aliados à presidente Dilma Rousseff e a seu sucessor Luiz Inácio Lula da Silva. Nas eleições de 2010, quando pensou em breve instante ser candidato à presidência, ajudou a popularizar o termo "pós-lulismo", o que significava que tentaria "avançar" as conquistas da era Lula, e não rechaça-las, como fariam os "raivosos" da oposição.
O problema para o ex-governador mineiro é que o tempo cobrou e cobra do senador posições, digamos, mais firmes. Como principal nome dos tucanos para tentar impedir a reeleição de Dilma - ou a volta de Lula -, PSDB, DEM e seus simpatizantes criticaram a postura menos incisiva do ex-governador mineiro. Aécio, aos poucos, atendeu os pedidos: em seus artigos semanais na Folha de S. Paulo, questionou com mais veemência o governo federal; nos pronunciamentos no Senado, idem; à imprensa, tentou não deixar dúvidas quanto a ser oposição. Em Belo Horizonte, onde participou nesta quinta-feira do Congresso Mineiro de Municípios, pegou mais firme e satisfez à linha dura.
O problema, para Aécio, é que ele não conseguiu fugir da dificuldade maior da oposição até aqui: falta discurso. Em vários momentos, o senador mineiro se parecia com seu colega e rival de partido, o ex-governador paulista José Serra. Em si, não há mal algum nisso, mas, eleitoralmente, pode-se questionar sua eficácia.
Aécio fez críticas às mudanças na caderneta de poupança anunciadas por Dilma, caindo numa velha armadilha que vários de seus colegas de oposição já caíram. "Achávamos que havia outras possibilidades de impedir uma migração de investimentos para a poupança através da desoneração de outras aplicações", afirmou o senador. Repetiu o discurso dos bancos, pelo qual os spreads bancários são altos porque a carga tributária sobre eles é elevada. Em 2010, quando o governo Lula ensaiou mudanças na caderneta, mesmo economistas ligados ao PSDB admitiam que a queda da taxa Selic só seria sustentável a longo prazo com a queda do rendimento da poupança. É possível que nem o economista José Serra fosse contra essas mudança, embora seus aliados tenham sido os mais fervorosos de seus críticos - agora, acompanhados por Aécio Neves.
Aécio também repetiu velhos discursos dos grupos aliados a Serra, o da defesa da tradicional grande imprensa. "O PT foca em algo que sempre foi um dos objetivos de algumas de suas lideranças, que é o cerceamento da liberdade de imprensa. O PT busca atacar a mídia, já que a mídia o contraria", disse ainda o senador. Sobre os fortes indícios de ligações, digamos, muito "heterodoxas" entre setores da chamada grande imprensa e o contraventor Carlos Cachoeira, Aécio nada falou.
O ex-governador mineiro também repetiu outro velho chavão da oposição, o de que as liberdades democráticas estariam ameaçadas no país: "O que está em jogo é a democracia. No momento em que nós tivermos o Ministério Público Federal fragilizado e a imprensa cerceada, nós temos a democracia em xeque".
Há alguns anos o PSDB busca um nome com maiores chances de êxito contra seu adversário político. Aécio enfim mostrou que quer ser esse nome. O problema é que a cara mudou, mas, até agora, o discurso parece ser o mesmo.

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