Ali x Frazier – Uma rivalidade faz 40 anos

Em 1971, dois dos maiores pesos-pesados da era de ouro do boxe travaram o primeiro de trs confrontos que entraram para a histria



No corner à esquerda das câmeras de TV, o invicto campeão mundial dos pesos-pesados, com 26 vitórias, das quais 23 por nocaute; à direita, um desafiante que, com 25 nocautes em 31 lutas, só perdera o cinturão da categoria por se recusar a lutar no Vietnã. Aquela dupla excepcional protagonizou, em 8 de março de 1971, em Nova York, a chamada Luta do Século. O título, como se sabe, foi copiado muitas e muitas vezes, mas os “clones” se perderam na memória, ao passo que o confronto entre Joe Frazier e Muhammad Ali, o primeiro de uma série de três, até hoje acende debates, polêmicas e paixões.

A afobação custou caro a Ali naquela luta. Depois de perder o título e ser proibido de exercer sua profissão, pela recusa em servir às forças armadas dos EUA, o vencedor da medalha de ouro na categoria dos meio-pesados nas Olimpíadas de Roma, em 1960, voltara aos ringues poucos meses antes. Em outubro de 1970, precisou de apenas três rounds para nocautear Jerry Quarry, em Atlanta, mas teve dificuldades, em dezembro, com o argentino Oscar “Ringo” Bonavena, que só conseguiu derrubar no 15º e último assalto, em Nova York. Era evidente que o ex-campeão ainda precisaria enfrentar mais alguns adversários antes de disputar o título com boas chances de vitória, mas ele não pensou duas vezes em desafiar Frazier, que se encontrava no auge da forma.

“Smokin' Joe”, como o detentor do título era conhecido, ocupava o lugar de Ali desde que este fora afastado dos ringues. Em 1967, tornou-se campeão mundial “informal” ao bater Buster Mathis. Assumiu o cinturão de fato ao nocautear Jimmy Ellis no quinto assalto, em combate travado em 16 de fevereiro de 1970, no Madison Square Garden, em Nova York.

Frazier, aos 27 anos, e Ali, aos 29, duelaram no mesmo ginásio, então a catedral do boxe mundial. O desafiante se saiu melhor nos primeiros assaltos, mas o oponente, um dos lutadores mais valentes da história, equilibrou a luta a partir do quarto assalto. Lutando no corpo a corpo, para compensar sua estatura e envergadura inferiores, o campeão começou a minar o adversário, passando a dominar a luta. Os fãs de Ali ainda sonharam com uma reação até o início do 15º assalto, quando um potente gancho de esquerda de Frazier cruzou o ar e acertou a ponta do queixo do rival, derrubando-o na lona. O ex-campeão se levantou rapidamente e voltou a trocar golpes, mas a luta já estava decidida.

Para Frazier, a vitória teve sabor especial. Além de manter o título, ele quebrou a invencibilidade de um lutador que já era apontado à época como um dos maiores de todos tempos e, de quebra, se vingou das provocações do adversário. Ali o havia chamado, por exemplo, de “Uncle Tom”, em referência ao Pai Tomás, o escravo bem-comportado do romance “A Cabana do Pai Tomás”, de Harriet Beecher Stowe.

As provocações foram retomadas três anos depois, às véspera da segunda luta da dupla, em 28 de janeiro de 1974, novamente realizada no Madison Square Garden. O ex-campeão afirmou que era o favorito para o embate por ser mais muito bonito do que Frazier, que, segundo ele, era tão feio que assustava criancinhas. Piadas à parte, as carreiras de ambos os pugilistas inspiravam cuidados. Ali sofrera sua segunda derrota por pontos em 31 de março de 1973, diante de Ken Norton, que lhe quebrou o maxilar. Poucas semanas antes, em 22 de janeiro, Frazier perdera o título e a invencibilidade ao ser espancado, em Kingston, na Jamaica, por George Foreman. O desafiante conquistou o título no segundo assalto, ao derrubar o campeão pela sexta vez na lona.

Para evitar os potentes ganchos de esquerda de Frazier, Ali manteve-se à distância do oponente nos primeiros assaltos daquela noite de 1974. Saltitava ao redor de Smokin' Joe, distribuindo seus potentes jabs e, vez ou outra alguns diretos. Quando Frazier encurtava a distância e o encurralava nas cordas, apelava para os clinches – foram 150 no total. Nos últimos rounds, o adversário passou a se esquivar dos agarrões, levando Ali a optar por punchs, ou seja, trocas de golpes. Deu certo. Ele ganhou a luta por decisão unânime dos jurados: Tony Perez ( 6 - 5), Tony Castellano (7 - 4) e Jack Gordon (8 – 4).

A vitória credenciou Ali a desafiar o temido George Foreman em um confronto por ele batizado de “Rumble in the Jungle” (“Luta na Floresta”), realizado no Zaire, atual república Democrática do Congo, em 30 de outubro de 1974. Azarão na disputa, o desafiante reconquistou o título mundial ao derrubar o até então invicto Foreman no oitavo assalto. Um ano depois, ele enfrentou um adversário infinitamente mais duro em sua quarta defesa do cinturão reconquistado. O nome do pugilista? Joe Frazier, claro.

“Thrilla in Manila” (“Suspense em Manila”) foi o título dado por Ali à sua terceira, última e mais espetacular luta contra Frazier. Nos primeiros assaltos, o campeão manteve o desafiante à distância, disparando jabs e diretos, enquanto saltitava pelo ringue, à exemplo do confronto anterior. No quinto round, Smokin' Joe começou a dar trabalho, muito trabalho. Mais próximo do adversário, começou a castigá-lo, no corpo e na cabeça, com seus potentes ganchos. Tomou o controle das ações e deu à plateia a nítida impressão de que poderia alcançar a vitória por nocaute. No décimo assalto, contudo, o desafiante perdeu o ímpeto, dando a Ali uma chance de reação que ele não desperdiçou.

A partir do 11º round, o dono do cinturão dos pesos-pesados começou a castigar o velho rival com rápidas combinações de golpes. O alvo preferencial das luvas de Ali eram os supercílios e as maçãs do rosto de Frazier, que de tão inchados já dificultavam a visão do pugilista. O flagelo teve sequência nos três assaltos seguintes. Ao se dirigir ao seu corner, no intervalo do 14º para o último round, Frazier, que era praticamente cego de sua vista esquerda, estava literalmente perdido na luta. Seu treinador resolveu que era chegada a hora de acabar com aquele sofrimento e comunicou ao árbitro a desistência de seu atleta.

Joe Frazier e Muhammad Ali nunca mais foram os mesmos. O primeiro pendurou as luvas após sua segunda derrota para George Foreman, na temporada seguinte. Ali seguiu em frente por alguns anos, comprometendo a sua saúde e enfrentando adversários sofríveis. Ambos deveriam ter dado adeus aos ringues naquela jornada de Manila, até hoje considerada pelos experts a maior e a mais violenta luta de boxe de toda história. “Aquilo é o que se pode chegar mais perto da morte”, definiu Ali, após o épico confronto.

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