Aluno tira zero na redação da Fuvest ao usar 'palavras difíceis' e processa reitor da USP
A redação chamou atenção pelo uso intenso de vocabulário sofisticado e construções complexas
247 - Um candidato de 18 anos foi eliminado da segunda fase da Fuvest após receber nota zero na redação do processo seletivo de 2026. O caso ganhou repercussão após o estudante decidir acionar a Justiça para obter uma justificativa formal da correção. As informações são do g1.
O jovem, Luis Henrique Etechebere Bessa, disputava uma vaga no curso de Direito da Universidade de São Paulo. Segundo ele, a decisão de processar a banca organizadora não tem como objetivo reverter a nota, mas entender os critérios que levaram à sua eliminação. “Recebi um e-mail genérico quando perguntei qual o motivo da eliminação. Juntamente à minha mãe, que é advogada, entrei com pedido de mandado de segurança”, afirmou. “Ainda estou aguardando uma resposta do reitor da USP. Só queria entender minha nota.”
A redação chamou atenção pelo uso intenso de vocabulário sofisticado e construções complexas. O texto começa com a frase: "Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito.”
De acordo com a Fuvest, o candidato foi eliminado por não atender ao tema proposto — “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado”. Em nota, a instituição afirmou que “não há indícios suficientes que demonstrem essa compreensão [do tema] e desenvolvimento (...), o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual".A banca também destacou que a redação passou por múltiplas correções independentes. Segundo a organização, o texto “passou por mais de três avaliações cegas”, e não há possibilidade de revisão da nota, já que o modelo envolve até quatro avaliadores.
Após a repercussão, o estudante chegou a comentar o caso nas redes sociais, mas apagou as publicações após receber críticas e ironias sobre o estilo adotado. Entre os trechos mais comentados estão passagens como: “Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária.”
Especialistas em redação ouvidos pela reportagem concordaram com a avaliação da banca. Para professores de cursinhos pré-vestibulares, o principal problema não foi apenas o vocabulário rebuscado, mas a falta de clareza e de conexão com o tema central.
A professora Marina Rocha destacou que “o aluno elabora construções sintáticas extremamente confusas devido ao alto teor de formalidade. Essas estruturas comprometem a compreensão do texto, o que é um grave problema em termos de vestibular”.
Já o professor Sérgio Paganim classificou o texto como um exemplo típico de nota zero, apontando ausência de articulação clara das ideias e desconexão com a proposta. Segundo ele, “há uma série de afirmações, de autores e de conceitos que são arrolados no texto”, mas sem vínculo direto com o tema.
Outro ponto levantado foi o excesso de citações. Para especialistas, o candidato priorizou referências teóricas e linguagem erudita em detrimento da construção de uma tese consistente. Como resumiu o professor Thiago Braga, “o que pode parecer uma qualidade, na verdade, é o maior defeito dessa redação”.