Ao se dizer afro, Dunga rompe hipocrisia

"Num lapso o técnico da seleção brasileira, Dunga, rompeu com a hipocrisia da sociedade brasileira, que ainda insiste em ignorar a histórica violência que sempre se abateu sobre a descendência africana no Brasil", diz Silvany Euclênio, em artigo publicado no Portal Áfricas; leia a íntegra

Foto: Rafael Ribeiro / CBF  Dunga convoca a Seleção Brasileira para amistosos de novembro
Foto: Rafael Ribeiro / CBF Dunga convoca a Seleção Brasileira para amistosos de novembro (Foto: Leonardo Attuch)

SALVE DUNGA, UM BRASILEIRO BRANCO SENTINDO-SE AFRODESCENDENTE...

Por Silvany Euclênio, no Portal Áfricas

Num lapso o técnico da seleção brasileira, Dunga, rompeu com a hipocrisia da sociedade brasileira, que ainda insiste em ignorar a histórica violência que sempre se abateu sobre a descendência africana no Brasil.

Sentindo-se injustiçado pelas muitas críticas ao seu trabalho à frente da seleção, disse “Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar. Os caras olham para mim: 'Vamos bater nesse aí'. E começam a me bater, sem noção, sem nada. 'Não gosto dele' e começam a me bater”.

Acho que nem o mais elaborado tratado sobre o racismo brasileiro poderia explicar de forma tão contundente a “naturalização” da violência racial contra a população negra. No inconsciente coletivo racista, um tom de pele, uma textura de cabelo, qualquer símbolo ou signo que remeta à ancestralidade africana, uma indumentária, um adereço, um toque de tambor, e, lá vem violência, simbólica e física. Como bem disse Dunga “começam a me bater, sem noção, sem nada. 'Não gosto dele' e começam a me bater”.

Tenho certeza que não existe um afrodescendente neste país que não saiba o que é isso.

Para mim, o novo está na frase complementar do Dunga “...e gosto de apanhar”. Vale a pena ler de novo “Eu até acho que eu sou afrodescendente de tanto que apanhei e gosto de apanhar”. Isto, eu, mulher negra ativista, nunca parei para analisar, que para o imaginário racista, nós, os afrodescendentes, gostamos de apanhar. E pode estar aí chave da questão, precisamos demonstrar de maneira mais contundente que NÃO GOSTAMOS DE APANHAR!

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