Após exumação de corpo e denúncia de familiares, tentente coronel da PM fala à imprensa sobre a morte de sua esposa
Morte é cercada de contradições e fatos pouco esclarecidos
247 - O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto falou publicamente pela primeira vez sobre a morte de sua esposa, a policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava no bairro do Brás, região central da cidade de São Paulo. O caso ganhou repercussão após o oficial conceder entrevista nesta quarta-feira (11).
Durante entrevista à Record TV, o tenente-coronel negou qualquer participação na morte da esposa e afirmou que a policial teria tirado a própria vida. Segundo ele, o disparo ocorreu enquanto ele tomava banho no apartamento do casal.
De acordo com o relato apresentado pelo oficial, ele estava no chuveiro quando ouviu um barulho vindo de outro cômodo do imóvel. Ao sair do banheiro, disse ter encontrado a esposa caída no chão, já com sangramento na região da cabeça. Mesmo possuindo treinamento técnico adquirido na corporação, Neto afirmou que não tentou prestar socorro imediato.
Segundo o militar, ele optou por acionar os serviços de emergência por não possuir equipamentos adequados no local. Após o chamado, equipes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros foram enviadas ao apartamento para prestar atendimento.
O tenente-coronel também afirmou que passou mal durante o atendimento e que sua pressão arterial teria atingido níveis elevados. De acordo com o relato apresentado na entrevista, um médico que estava no local teria aferido pressão de 20 por 18, o que exigiu medicação imediata.
Ainda segundo o oficial, diante do mal-estar, ele teria tomado dois remédios e ouviu de um profissional de saúde que poderia estar próximo de sofrer um acidente vascular cerebral ou um infarto. Em meio ao quadro de saúde, afirmou que tomou um segundo banho no apartamento.
O ponto, no entanto, entrou em contradição com a versão apresentada no inquérito policial. Segundo depoimentos de policiais que atenderam a ocorrência, o oficial teria sido orientado a não tomar banho novamente e seguir imediatamente para prestar esclarecimentos na delegacia. Na entrevista, Neto negou ter recebido essa recomendação.
O tenente-coronel também declarou que não se sujou de sangue durante o ocorrido, mas que decidiu se banhar novamente devido ao impacto emocional provocado pela situação.
Outro ponto questionado pela investigação diz respeito ao estado do banheiro do apartamento. Testemunhas relataram que o piso estava seco, o que levantou dúvidas sobre a versão de que o oficial estava tomando banho no momento do disparo.
Na entrevista, Neto contestou a versão e afirmou que havia deixado o chuveiro ligado ao sair do banheiro.
As investigações também analisam marcas no pescoço da vítima que poderiam indicar sinais de esganadura. O tenente-coronel negou ter provocado qualquer lesão e apresentou outra hipótese para as marcas identificadas.
Segundo ele, as marcas podem ter sido causadas pela filha de Gisele, uma criança de 7 anos, durante um momento em que a menina teria sido carregada no colo pela mãe durante uma caminhada.
O oficial também negou ter usado sua posição na corporação para interferir nas investigações. De acordo com ele, naquele momento estava no local apenas como morador do apartamento.
Outro ponto investigado envolve a presença de três policiais militares no apartamento após a morte da soldado. De acordo com depoimento de uma testemunha obtido pelo portal Metrópoles, as agentes teriam ido ao local por volta das 17h48 do mesmo dia para realizar a limpeza do imóvel.
Na entrevista, o tenente-coronel negou ter ordenado a presença das policiais e afirmou que elas teriam sido enviadas pelo seu comandante, depois que o local já havia sido liberado pela perícia.
Outro ponto levantado na investigação diz respeito à conduta do policial no relacionamento. De acordo com relatos, ele apresentava comportamento abusivo em relação a Gisele, chegando a enviar fotos nas quais afirmava que cometeria suicídio caso ela pedisse o divórcio. Os prints dessas mensagens foram encaminhados à polícia pela família da policial, que já percebia atitudes consideradas agressivas e manipuladoras. Segundo os familiares, o homem não permitia sequer que Gisele usasse salto alto ou batom.
A inspetora do condomínio onde o casal vivia, identificada como Fabiana, relatou às autoridades que diversas pessoas passaram pelo apartamento após a morte da policial. Segundo o depoimento, o coronel também teria retornado ao imóvel no mesmo dia para buscar pertences antes de seguir para a cidade de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
A testemunha também afirmou que, após o atendimento inicial à vítima, o oficial permaneceu no corredor do prédio conversando ao telefone e dialogando com policiais que atendiam a ocorrência. Em determinado momento, ao saber que a esposa ainda estava viva, ele teria dito que “ela não vai sobreviver”.
O caso segue sendo investigado pelas autoridades policiais, que analisam os depoimentos, laudos periciais e demais evidências para esclarecer as circunstâncias da morte da policial militar.