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Aracaju terá sua versão do rolezinho no shopping

Organizador da versão sergipana do ato, o jornalista Arthuro Paganini explica, em entrevista ao Sergipe 247, que o objetivo "é dizer que o rolezinho é algo comum, acontece diariamente, em cada lugar, seja em uma visita de um grupo de turistas ao shopping ou ao mercado, ou a ida de um grupo de alunos para assistir filmes no cinema"; mas não só isso: "Este é um debate sobre um país cuja discriminação é notória e claramente está intrínseca em nós que fazemos parte dele"; rolezinho está agendado para ocorrer no Shopping Jardins, no sábado; 184 pessoas confirmaram presença

Organizador da versão sergipana do ato, o jornalista Arthuro Paganini explica, em entrevista ao Sergipe 247, que o objetivo "é dizer que o rolezinho é algo comum, acontece diariamente, em cada lugar, seja em uma visita de um grupo de turistas ao shopping ou ao mercado, ou a ida de um grupo de alunos para assistir filmes no cinema"; mas não só isso: "Este é um debate sobre um país cuja discriminação é notória e claramente está intrínseca em nós que fazemos parte dele"; rolezinho está agendado para ocorrer no Shopping Jardins, no sábado; 184 pessoas confirmaram presença (Foto: Valter Lima)

Valter Lima, do Sergipe 247 - O Shopping Jardins será o ponto de encontro para o rolezinho de Aracaju, agendado para ocorrer no próximo sábado (18), a partir das 18h. Na mesma data, estão previstas manifestações homônimas em várias partes do país. O movimento, iniciado em São Paulo, despertou a atenção do jornalista Arthuro Paganini. Ele então resolveu organizar a realização do ato também na capital sergipana, "justamente em apoio ao que vem acontecendo em São Paulo e no Rio de Janeiro", conforme explicou ao Sergipe 247.

"É chocante ler as notícias como as pessoas, que são cidadãos, estão sendo tratados em São Paulo e no Rio. Quem quer que seja está sofrendo uma discriminação arbitrária, higienista e, porque não dizer, sádica. É tão chocante que resolvi ecoar esse grito a ponto de criar um evento semelhante aqui em Aracaju, mostrando que todos nós temos direito à diversão", explica Paganini. Segundo ele, o objetivo do ato em Aracaju "é dizer que o rolezinho é algo comum, acontece diariamente, em cada lugar, seja em uma visita de um grupo de turistas ao shopping ou ao mercado, ou a ida de um grupo de alunos para assistir filmes no cinema".   

Questionado pelo Sergipe 247, se acredita que as manifestações de agora podem desencadear protestos como os que ocorreram no ano passado em todo o país, Paganini diz não saber, mas frisa que deseja "profundamente" que o debate sobre essa situação ganhe a dimensão que merece. "É um debate sobre um país cuja discriminação é notória e claramente está intrínseca em nós que fazemos parte dele. Em princípio, não há uma subversão política, mas espero que o contexto político faça parte dos argumentos e discursos das pessoas que ali estão envolvidas", diz o jornalista, que afirma não ter participado das manifestações do ano passado, embora tenha sido favorável a elas. 

No Facebook, mais de 1 mil pessoas já foram convidadas para o evento. Até o início da tarde desta quarta-feira, 184 pessoas já tinham confirmado presença. 

Abaixo a entrevista na íntegra:

Sergipe 247 - De onde partiu a ideia de fazer uma versão do rolezinho aqui em Aracaju? Como ela ocorrerá? Qual a expectativa de quantidade de pessoas que irão participar?
Arthuro Paganini - A ideia partiu justamente em apoio ao que vem acontecendo em outras capitais como São Paulo e Rio de Janeiro. Copiar o evento é um efeito dominó de forma positiva. É chocante ler as notícias como as pessoas, que são cidadãos, estão sendo tratados nesses dois lugares. Quem quer que seja está sofrendo uma discriminação arbitrária, higienista e, porque não dizer, sádica. É tão chocante que resolvi ecoar esse grito a ponto de criar um evento semelhante aqui em Aracaju, mostrando que todos nós temos direito à diversão. Sobre a expectativa quero deixar claro o seguinte ponto: tive o cuidado de não mencionar um ponto específico, mas tão somente que acontecerá no Shopping Jardins, ou seja, quem estiver por lá estará dando seu rolezinho, ordinariamente ou não. Até o momento, mais de 130 pessoas confirmaram a presença.

247 – Qual será o objetivo principal da manifestação aqui? Será apenas uma forma de reunir a galera no espaço do shopping? É uma forma de solidarizar com o movimento de SP, que já sofre repressão? Ou tem também o conceito mais político de crítica à sociedade de consumo?
AP - O que era um simples encontro de jovens acabou se transformando em uma questão política. Tanto que a presidente Dilma Rousseff resolveu convocar uma reunião com a cúpula da segurança pública para tratar do assunto. A situação fugiu do controle justamente porque a polícia, em uma ação orquestrada com os proprietários desses estabelecimentos, decidiram reprimir, de maneira violenta, essa movimentação por parte dos jovens. O objetivo em Aracaju é, a um só tempo, dizer que o rolezinho é algo comum, acontece diariamente, em cada lugar, seja em uma visita de um grupo de turistas ao shopping ou ao mercado, ou a ida de um grupo de alunos para assistir filmes no cinema.

247 - Pelas pessoas que estão confirmando presença, o rolezinho em Aracaju tende a não ser tão ligado a jovens da periferia. Isso não descaracteriza o movimento?
AP - O rolezinho, como eu disse anteriormente, não se trata de uma tendência de jovens de periferia. Isso seria simplificar o movimento. O nome é apenas uma expressão, que outrora praticamos sem ao menos nos dar conta disso. A diferença é a dimensão, a quantidade de pessoas. O espaço público é hoje um lugar feudalizado e quando há uma tentativa de acabar com esse feudo espera-se no mínimo que haja uma resistência por parte daqueles que querem se manter isolados da realidade social. Desde quando surgiram as redes sociais, a exemplo do mIRC, esses grupos reúnem-se para encontrar as pessoas que conhecem pela internet. Nunca houve represália em relação a isso. 

247 - O rolezinho será pacífico? Você não teme que haja algum tipo de excesso, com quebra-quebra ou ação virulenta da polícia ou de seguranças do shopping?
AP - Não vejo motivo nenhum para que isso aconteça. Roubos, furtos e outros crimes que acontecem na sociedade não são fruto de eventos desta natureza. Se há um show, por exemplo, e milhares de pessoas participam dele, há uma grande chance de acontece algum crime. E de fato acontece. Nem por isso esses grandes shows são impedidos de ser realizados. Seria uma imbecilidade pensar que pode haver algum excesso em um simples passeio no shopping.

247 - O Shopping Jardins tem um histórico muito ruim de ação violenta de seus seguranças. Um homem já foi morto dentro do estabelecimento e jovens foram espancados. Isso não cria algum tipo de temor?
AP -Esse é um problema que o próprio shopping deveria responder. Quando vamos a um espaço público como o shopping pensamos em ir pelo entretenimento e não com o receio de que algo de ruim possa acontecer.

247 - O ato deste sábado está articulado com algum movimento nacional?
AP - Não. Apesar de ser um apoio indireto ao que está acontecendo em São Paulo. Quero deixar claro que não estou mobilizando ninguém. Apenas criei o evento e a própria internet, como território livre que é, acaba fazendo esse tipo de mobilização. Por isso a política tem medo da internet. A internet tem vida própria.

247 - Você acha que os rolezinhos podem ganhar a proporção dos protestos de junho do ano passado, que, inicialmente, eram contra o aumento da tarifa do transporte público e depois se tornaram uma manifestação "contra tudo que está aí"?
AP - Se vai se tornar um protesto de grandes proporções, eu não sei. Porém, desejo profundamente que o debate sobre essa situação ganhe a dimensão que merece, que é sobre um país cuja discriminação é notória e claramente está intrínseca em nós que fazemos parte dele. Em princípio, não há uma subversão política, mas espero que o contexto político faça parte dos argumentos e discursos das pessoas que ali estão envolvidas.

247 - Você participou dos atos de junho do ano passado? O que achou deles? Acha que se repetirão neste ano? Você é contra ou a favor da Copa no Brasil e por que?
AP - Não participei. No entanto considerei válido, até mesmo os protestos mais violentos. Espero que a intensidade dos protestos que poderão acontecer sejam maiores, tanto na participação efetiva dos cidadãos, quanto nas ideias. Sou a favor da Copa porque amo o futebol, gosto de vibrar, torcer. Futebol é a cultura em seu mais alto grau. O problema da Copa de 2014 é como ela está sendo realizada, atropelando os direitos das pessoas, que estão sendo desocupadas de suas casas, como aconteceu no Rio de Janeiro. São os superfaturamentos das obras que revela a corrupção política. É a utilização de verbas públicas que deveriam ir para outras áreas como a saúde ou a educação. Acredito que o legado dessa Copa será negativo.