Arenas de sangue

O estádio do Morumbi está irregular e uma nova arena não pode ser construída, mas diretores do Clube tripudiam dizendo: o time da toga é são-paulino!

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Arena era o palco de luta nos circos romanos. Tinham o piso forrado de areias brancas que eram trocadas quando ficavam vermelhas e perdiam o poder de enxugar o sangue jorrado. Agora a disputa é pelas arenas, mais sangrenta, pois não é religiosa ou esportiva, mas pelo dinheiro sujo de sangue das obras em parcerias com as empreiteiras. Cada clube arrumou um novo sócio capitalista, que apita, quando não decide o jogo.

Greve de peão no circo

Pão e circo na velha Roma, no Morumbi, no Parque Antártica, no Itaquerão, complexo do Jaraguá e em todas as obras da Copa do Mundo. O BNDES financia a arena, no torneio mata-mata, não mais de gladiadores nem de cristão jogado às feras, com o dinheiro suado do trabalhador que sustenta o FAT – Fundo de Amparo do Trabalhador. Inacreditável! O proletário empresta a grana ao patrão o qual o obriga a comer grama que nem plantou. Mas há muito tempo não se via greve de peão de construção civil, quais as das obras de campos de futebol, que faz lembrar os de concentração. Trabalha dia e noite, sem descanso semanal, com alojamento, rancho, uniforme e salários ruins. Tudo é permitido, em nome da pátria de chuteira! As primeiras greves ocorreram no Mineirão, depois a rodada passou ao Maracanã, à Fonte Nova, ao Brasilião, ao Pernambucão, voltou ao Mineirão e não vão parar a confusão. A greve, no papel do Curupira, contaminou até as águas poluídas de mercúrio nas barragens de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, inclusive turvou as límpidas do Rio Xingu ao paralisar as obras da mal assombrada Usina de Monte Belo.

Alienação geral

A mídia, a propaganda enganosa e as instituições que devem cuidar da coisa pública são os culpados. Parece que vivemos num mundo sem lei, dominado pela alienação geral, onde ninguém mais fica indignado.

Causa espanto, quando o Governador do Estado de São Paulo, o Prefeito da capital e diversas autoridades se reúnem na sede do SPFC para anunciar a construção, por uma empresa particular, sem ônus em troca da receita, da nova arena coberta do Morumbi, com um complexo hoteleiro, em zona estritamente residencial – Z1. Mas, ninguém reclama!

Será que ninguém informa aos mandatários da esfera oficial estadual e municipal que a situação do Estádio do Morumbi e do Clube do SPFC está irregular e as obras divulgadas não podem ser realizadas, até por impedimento real, pelas enchentes. O Córrego Antonico foi escondido debaixo do tapete verde, mas não foi dominado.

Acima da lei

O terreno ocupado pelo SPFC foi uma doação feita em 04/08/1952 pelo Prefeito Armando de Arruda Pereira e objetivava dar ao Clube uma área de 98.873 m² para construir exclusivamente um conjunto esportivo em ¾ do terreno. No restante do terreno, que deveria ser ampliado por outro meio e o foi, o SPFC assumiu o compromisso de entregar ao município: um parque infantil público e um estacionamento com 25.000 m², em cada um. Não tendo sido feita nem uma nem a outra contrapartida e usando a área para finalidade alheia ao futebol, há desvio de função e descumprimento de contrato. Por isso, a doação pode ser revertida. A própria Secretaria de Negócios Jurídicos da Prefeitura está pedindo a devolução da área como também o Ministério Público pelo I.C. 405/2010 e o mandato de segurança de doação ilegal e imprescritível. A medida é reforçada por uma Ação Popular impetrada pelo cidadão, em nome da sociedade, Sergio Orlando Santoro. Ilustre desconhecido, na qualidade de vizinho prejudicado, defende a todos nós e tem suportado sozinho o poderio do Clube que o massacra na justiça.

Orlando Furioso

O inconformado corajoso, em vez perder a razão por amor à causa, qual o xará do poema épico de Ludovico Ariosto consagrado na ópera de Antônio Vivaldi Orlando Furioso, tomou o caminho mais longo. Impetrou na Justiça, para combater o Clube, oito ações tipo tiro de canhão, contra os fatos que desrespeitam a doação, a lei de zoneamento, do silêncio e do meio ambiente. Em troca recebeu igual número de ações, inclusive criminal por suposto atentado à bala de revolver, contra a vida de vigilantes do São Paulo; calunia e difamação por terem sido divulgados no Blog do Paulinho os fatos que denunciou na Justiça. Inclusive o Ministério Público, que também, por iniciativa própria ou estimulado pelo Orlando, denuncia o Clube por diversas irregularidades, age de forma dúbia. Acusa e não insiste na solução. As ações contrárias ao Clube não andam e alguns diretores tripudiam vazando que: as cortes da justiça são são-paulinas. Em vez de republicanas. Portanto, se debaixo da toga há uma camisa do Clube, no tapetão o jogo está ganho! Já as ações no sentido de quebrar a moral e o bolso do querelante andam a passos céleres e com vícios processuais gritantes. É possível um idoso, com mais de setenta anos ser condenado à prisão? A decisão da Juíza não teve perdão e deu pena de dois anos de reclusão, por suposto atentado, sem provas cabais periciais e de balística. Arma devidamente registrada recebida de herança do pai e estava guardada de lembrança, sem nunca ter sido usada há 50 anos. Porém, para a polícia técnica a bala estava boa, sem ter deixado munição para contra prova, de tiro de arma de cano curto quase certeiro a 150 metros, da sacada de seu sobrado ao Portão 11A do Clube. Impossível de acertar o alvo até no cinema, sem assustar os cachorros e acordar a empregada testemunha e vizinho algum. É o legítimo poder de fogo do Clube, não da arma de coleção.

Testemunha

Fui intimado como testemunha a comparecer à audiência, caso necessário por coerção, na última audiência de 01/12/2011, quando pude dar o depoimento sobre meu velho conhecido, cidadão de moral ilibada. Ocasião que assisti perplexo, na sala de espera do Fórum Criminal da Barra Funda, o réu ser citado por um oficial de Justiça de outro Fórum, o de Pinheiros, em mais uma ação impetrada contra o querelante. Essa é a agilidade que a Justiça deveria ter em todos os casos e lados das ações. Já certo Senador da República, conforme a televisão noticiou: não é encontrado para receber citação judicial de processo da ex-esposa. O coitado do meu amigo é condenado à prisão, cuja idade não permite mais esta pena, e recebe intimação de outra ação que vai ter de pagar em dinheiro, por ofensa de calunia e de difamação contra o Clube, que deveria provar por outro meio que possui honra.

Retorno da barbárie

Por outro lado o Ministério Público Estadual, frente ao descumprimento do TAC – Termo de Acordo de Compromisso de Ajustamento Conduta de 15/09/2009, resultado do Inquérito Civil 279-07, teve de proibir, a partir daquela data, o uso do Estádio para show ou jogos após as 22h00 devido ao barulho acima de 45 decibéis e transtornos aos vizinhos. Os shows periciados ultrapassam 76 decibéis e os três do U-2 terminaram às 23h49, 23h15 e 23h45 no Estádio e prosseguiram na rua. O show continua, o Ministério Público proíbe, mas o Controle Urbano municipal libera. Durma-se com um barulho deste!

O jardim em frente ao Estádio, antes usado como estacionamento pelo Clube, por ação do santo cidadão Santoro de desvio de uso de bem público foi, em 2010, devolvido a municipalidade a qual diz que vai recuperar o espaço para o lazer, o qual deveria por mérito levar o nome do defensor do Morumbi. Por conta do honrado cidadão, o horário do Clube que varava a noite com atividades barulhentas e até algazarras, por força judicial, agora fecha os portões sociais às 10h00 da noite.

Ademais, o Estádio não possui as condições mínimas de funcionar, uma vez que desde a construção não obedeceu às normas sanitárias de lançamento de seu esgoto tratado pela entidade ou jogado na rede da SABESP. Incrível, pois depois de inúmeras denúncias, o Clube passou a pagar taxa de esgoto à SABESB, mas até então, se é que de fato ligou seu esgoto à rede, jogava direto no Córrego Antonico, afluente do Pirajuçara cujas águas sujas são despejadas no Rio Pinheiros. Recebeu multa de apenas um milhão de reais, referente aos últimos dois anos, mas acima da lei, não paga.

A galeria do Córrego que passa por baixo do campo é subdimensionada, a qualquer chuva, enche e represa a água na parede do estádio, onde inclusive há um letreiro de alerta: área sujeita a inundações. Este muro já foi derrubado várias vezes pelas águas. O vizinho, Colégio Visconde de Porto Seguro, abriu mão de uma faixa de terra de seu domínio para a Prefeitura fazer o alargamento da Rua João de Castro Prado e a canalização da drenagem rebelde, mas a obra prometida para ficar pronta em 2008, não sai da prancheta. É impossível embocar uma galeria maior numa menor, localizada embaixo do Estádio do Morumbi.

O Prefeito Kassab, na verdade não sabe nada, pois declarou que vai ser preciso fazer: uma pequena adequação na lei de zoneamento e acha que os vereadores vão ajudar. Esquece ou desconhece os códigos de postura, de edificações e ambiental, afinal o ruído e o tumulto prejudicam a vida dos moradores e do trânsito da região. As normas do Loteamento Jardim Leonor não permitem uso comercial. As obras sonhadas no Morumbi não podem ser um apêndice de empreiteira amarrada à Linha Ouro do discutido Monotrilho. O povo não é bobo, pois não vai andar nos trilhos e sim cobrar nas urnas o descaso com a coisa pública. É preciso impedir a reforma antes do ato se consumar! Vamos à luta brasileiros, paulistas, paulistanos, são-paulinos, palmeirenses, corintianos e todos desportistas ou não. Mente sã em corpo são é um velho lema, mas o esporte deve ser praticado no lugar certo, sem o retorno da barbárie jogando os cidadãos às feras no octógono da nova arena. Palco do Vale Tudo na versão MMA – Artes Marciais Mistas que vai servir às lutas sangrentas de UFC, cuja parte do leão já foi dividida.

*jornalista e geólogo; ex-professor da USP e da UFMG; e foi presidente da CPFL – Companhia Paulista de Força e Luz

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