Armadilhas de ganhar mais
Brasileiros são os que mais tendem a aceitar uma contraproposta salarial, o que nem sempre é o melhor para a carreira
Luciane Macedo _247 - Com o mercado de trabalho aquecido e a dificuldade de reter talentos, a contraproposta salarial tem sido cada vez mais usada. Pesquisa global da Robert Half mostra que 39% das empresas brasileiras consultadas recorreram mais à ferramenta nos últimos seis meses, e os executivos que aqui trabalham são os mais propensos a aceitá-la: 24% estão dispostos a ficar na empresa em troca de um salário mais alto. Mas o que parece vantajoso, a princípio, pode se tornar um obstáculo ao plano de carreira depois.
"Com um cenário econômico favorável, as pessoas ficam mais confiantes para se movimentar no mercado de trabalho", comenta Mariana Horno, gerente sênior das divisões Legal, de RH e TI da Robert Half. "Mas, normalmente, as pessoas também têm medo da mudança, então o profissional aceita uma contraproposta para não ter de começar do zero em outra empresa quando ele já tem um espaço conquistado, ele reavalia e se sente mais confortável sabendo que vai ganhar mais".
É difícil resistir a uma oferta de remuneração mais alta. Uma das armadilhas da contraproposta, porém, é que ela não vai fazer desaparecer os motivos que levaram o profissional a procurar outro emprego. "A contraproposta tem prazo de validade, em geral a empresa perde esse profissional depois de um ano", diz Mariana. "Ou ele se desmotiva mesmo ganhando mais, e analisa uma outra proposta de emprego, ou o cenário muda e ele não tem mais a oportunidade de mudança, então fica na empresa, mas fica descontente".
Segundo a gerente da Robert Half, quando a empresa oferece uma contraproposta, é porque não pode perder o profissional naquele momento. Assim, resolve o problema dela, mas não a insatisfação daquele executivo. Além disso, se a empresa passar por dificuldades e precisar fazer demissões, esse profissional será um dos primeiros a serem cogitados. Em caso de uma promoção, ele pode ser limado da lista. Então, antes de se deixar seduzir temporariamente por um aumento, Mariana recomenda que o profissional pense na contraproposta sem deixar de avaliar outras questões motivacionais, além de seu próprio plano de carreira.
"A contraproposta dá uma falsa ideia de que a situação foi resolvida e o profissional se sente valorizado", observa Mariana. "Mas uma vez que ele decide sair da empresa, é melhor que ele recuse a contraproposta e siga em frente sem olhar para trás", recomenda. "Como o profissional lida com estas questões e com seu próprio plano de carreira sempre será associado ao seu comprometimento e responsabilidade, e ele será melhor visto até pelo próprio mercado".
De acordo com a pesquisa da Robert Half, realizada com 1.873 profissionais de RH em 16 países, a média global para executivos que aceitam uma contraproposta é de 8%, três vezes menos que no Brasil. China e Singapura lideram o ranking de países onde o uso da contraproposta mais cresce -- com 68% e 58% das empresas indicando este uso mais frequente da ferramenta, respectivamente.