As relações de Cachoeira com a imprensa goiana

Apontado como laranja de Cachoeira na comunicao detm indiretamente o controle da verba do Estado em Anpolis, sua cidade natal. Campo de influncia do contraventor, porm, era muito maior

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Goiás 247 - A reportagem do jornal O Globo do último domingo (15) revelou um perfil de como está a cidade de Anápolis (GO) diante do escândalo detonado pelas gravações da Polícia Federal sobre Carlos Cachoeira. Ontem, o Goiás 247 aprofundou a visão. O município goiano é a cidade natal do contraventor preso pela PF desde o final de fevereiro.

Que os tentáculos de Cachoeira não escolhiam direção, penetrando por governos, mandatos políticos, empresas de toda a sorte, isso já está praticamente todo revelado. No entanto, a reportagem do jornal carioca reforça ainda mais a íntima relação que o grupo de Cachoeira mantém com o governo de Goiás sob o comando de Marconi Perillo (PSDB).

Diz um trecho de O Globo:

Carlinhos Cachoeira nunca se arriscou como candidato, mas sabe bem como se relacionar com o poder. É íntimo do homem forte da comunicação em Anápolis, Carlos Nogueira, o Butina, diretor do Canal 5 e do jornal “Estado de Goiás”, que ignoram completamente o escândalo nacional. Tido pela Polícia Federal como um de seus laranjas, Butina também controla a verba publicitária do governo Perillo em Anápolis, e recebe quase R$ 13 mil por mês, desde 2009, para transmitir ao vivo as sessões da Câmara.

- Há 19 anos essa empresa é minha. Está tudo documentado - disse Botina ao GLOBO na última quinta-feira.

Na cidade, diversos jornais – todos semanais – eram frequentemente analisados por Butina e um relatório informal era repassado para o comando a Agência Goiana de Comunicação, responsável pela distribuição de anúncio do Governo do Estado para todos os veículos de comunicação. Agindo como um “agende autorizado” da Agecom, Butina funcionava como o elo entre a Agecom e os interesses de Cachoeira na cidade.

Cachoeira foi preso mas o esquema continua. Se um determinado veículo fala bem do governo como o esperado ou há uma boa relação pessoal de seus dirigentes com Butina, então pode ser agraciado com a mídia governamental. Mas, se não reza na cartilha de Cachoeira/Marconi, está fora da programação da mídia estatal, que deveria servir para informar a população das ações pelo Estado.

Uma das atestações que comprovam a manipulação política da decisões da Agecom sob controle de Cachoeira está no “Jornal Estado de Goiás”, controlado por Butina, que funciona como laranja do contraventor preso. O periódico bi-semanal não é o mais lido da cidade, mas, ainda assim, é um dos que mais recebem anúncios do Governo de Goiás, por conta da ação direta do grupo de Cachoeira dentro da Agecom.

O campo de influência da Cachoeira nos meios de comunicação em Goiás não se resumia a Anápolis. Na terça, 17, o jornal O Popular publicou reportagem que detalha o seu alcance. No site Observatório da Imprensa, há ainda uma discussão sobre a cobertura no Estado: aqui, artigo de Cileide Alves, editora de O Popular; e aqui, artigo de Alberto Dines. Sobre as ligações de Cachoeira com o Jornal Estado de Goiás, veja mais informações no Blog do Cleuber Carlos.

Acompanhe a reportagem do Popular:

 

Carlos Cachoeira buscava influência na imprensa 

Gravações interceptadas pela Polícia Federal mostram que o esquema do empresário Carlos Cachoeira tinha também influência nos meios de comunicação. Diálogos revelados ontem pelo Blog Cleuber Carlos mostram conversa entre Cachoeira e o jornalista João Unes, editor presidente do webjornal A Redação, em 10 abril de 2011. Ex-editor-chefe do POPULAR, João Unes deixou o jornal em 2 de dezembro de 2010.

Na conversa, eles aparentemente tratam de convites feitos a jornalistas para integrar a equipe do site, entre eles a repórter Fabiana Pulcineli. Na época, João Unes convidou a repórter para trabalhar no site, mas ela recusou. Cachoeira e João Unes também fazem comentários sobre o título da capa do jornal, publicado no dia 10 de abril do ano passado.

Em nota enviada ao jornal, Unes reforça que a gravação é do primeiro semestre de 2011, meses depois de ele deixar O POPULAR. Afirma que, na época do diálogo, trabalhava como consultor de comunicação para grandes empresas privadas. “O Carlos Ramos se apresentava como amigo da diretoria de um dos meus clientes e gostava de falar sobre jornalismo comigo. Ele gostava de dar palpites, mas nunca me influenciou como profissional”, afirmou. Segundo João Unes, na data desta gravação, ele estava a poucos dias de encerrar suas atividades como consultor. Em julho de 2011, afirma, montou sua equipe e chegou a convidar a jornalista citada nas gravações, mas ela não aceitou. “Não falei mais com Carlos Ramos nem soube de suas atividades. Um mês depois, no dia 18 de agosto de 2011, lancei o jornal A Redação. Trata-se de uma empresa familiar de veiculação de notícias exclusivamente pela internet”, afirma.

Já em uma conversa no dia 10 de agosto do ano passado, Cachoeira informa que mandou Geovani depositar R$ 43 mil na conta de João Unes. O jornalista confirmou que recebeu o dinheiro em sua conta. Alegou, entretanto, que os depósitos são referentes a trabalhos de consultorias prestados no primeiro semestre de 2011 a empresas legais e com o devido pagamento de imposto.

Outros casos

O jornalista Jorge Kajuru, apresentador de programas na TV Esporte Interativo, também aparece nas escutas da Operação Monte Carlo. Em 14 de abril do ano passado, ele informou dados de uma conta bancária ao tesoureiro da quadrilha, Geovani Pereira da Silva, para o repasse de R$ 5 mil a Melissa Garcia, então editora do blog TV Kajuru.com.

Conforme as investigações, o dinheiro teria saído de uma das contas da empresa fantasma Alberto e Pantoja Construções e Transportes Ltda., de Carlinhos Cachoeira. O jornalista afirmou que o dinheiro serviu para pagar anúncio da Vitapan Indústria Farmacêutica Ltda., que era controlada por Cachoeira. Segundo Kajuru, a publicidade começou em dezembro de 2010 e foi encerrada no ano seguinte. Ele disse que desconhecia o esquema.

As interceptações mostram também que, em 15 de julho de 2011, Carlinhos mandou o tesoureiro ignorar uma ligação de Kajuru e repassar R$ 10 mil ao jornalista e advogado Alípio Nogueira, apresentador na Rádio Jornal. Geovani diz: “O Kajuru tá ligando aqui, eu atendo?” Cachoeira responde: “Não, deixa ele de lado. Anota aí, manda 10 mil aí, pro Cláudio aí, na conta do Alípio Nogueira, Alípio Ferreira Nogueira...”.

Alípio confirmou o recebimento do montante e disse que era para pagar merchandising da empresa Delta Construção. “Na época, a empresa patrocinava o Anapolina e o Atlético Goianiense. Eu mexo com merchandising e procurei a Delta para fazer isso, mas não tenho nenhuma ligação com Cachoeira”, afirmou.

Em ligação do dia 12 de agosto, Rogério Diniz, um dos assessores de Cachoeira, diz a Geovani que vai passar no jornal Diário da Manhã para entregar R$ 10 mil. Editor do jornal, Batista Custódio disse ao POPULAR que o dinheiro é referente a “um anúncio do caderno especial do aniversário de Goiânia”. Não informou, todavia, o nome do anunciante.

A rede de influência também teria se estendido ao jornal anapolino Estado de Goiás. Uma ligação de 21 de junho mostra o empresário de jogos mandando o proprietário do veículo de comunicação, Carlos Antônio Nogueira, o Botina, não fazer a edição de sábado. Mas o dono do jornal, que também é proprietário da empresa WCR Comunicação e Produção, disse à reportagem do POPULAR que o contraventor não interfere nas decisões editoriais do veículo. “Ele (Cachoeira) é um cara da alta sociedade, ele é só uma boa fonte”, afirmou.

Também citado nas interceptações, o colunista social do jornal Estado de Goiás e primo de Cachoeira, Marco Bakura, disse que pegava dinheiro emprestado com o empresário sempre que necessário. “Era uma ajudinha para sair do sufoco”, ponderou.

As escutas da Operação Monte Carlo também indicam tentativa de interferência da rede de Carlos Cachoeira junto ao jornalista Renato Alves, do Correio Braziliense. De acordo com uma das interceptações, em 27 de julho do ano passado, André Teixeira Jorge, o Dada, e o braço direito de Cachoeira, Lenine Araújo de Souza, comentaram sobre uma conversa que tiveram com o repórter sobre a reportagem do Bingo Online.

Na ligação Dada diz: “A gente conversou aqui e tal... foi tranquilo. E agora combinou com o cara que tiver... que tiver no ponto funcionar, ter mais uma conversa né... em outro lugar, porque ele também conhece o pessoal aqui... aí ele levanta a lebre né! ... o Renato pediu exclusividade para ele, pra não conversar com ninguém, que ele quer fazer o negócio sozinho.” Lenine continua: “Pro Renato também é bom. Dá ibope né cara.” Na reportagem, publicada pelo Correio 11 dias depois do suposto encontro, Renato revela o funcionamento do primeiro bingo ao vivo do mundo via internet, uma ação da concorrência que apresentaria risco aos negócios de Cachoeira. Procurado pelo POPULAR, o jornalista disse que o editor Marcelo Tokarski se pronunciaria sobre o caso, mas, até o fechamento desta edição, não houve nenhum retorno.

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