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Asma e produtos de limpeza. Quais são os que podem agravar as crises?

Orianne Dumas, pesquisadora do Inserm – Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica – na França, adverte sobretudo contra os produtos em spray. A pesquisa foi feita em ambientes hospitalares, mas seus resultados em boa medida podem ser aplicados também à esfera doméstica.

Asma e produtos de limpeza. Quais são os que podem agravar as crises?

 

 

Entrevista com Orianne Dumas (*), feita por  Anne Prigent – Le Figaro

 

Se hoje a conexão entre produtos de limpeza e asma está mais do que demonstrada, é necessário ainda determinar quais são os produtos e os agentes químicos especificamente implicados. Este é o objetivo de estudos epidemiológicos realizados em hospitais, ambiente que utiliza numerosos e potentes produtos de limpeza e de desinfecção.

 

Le Figaro – Por que desenvolver estudos sobre a relação entre a asma e os produtos de limpeza e desinfetantes em ambiente hospitalar?

Orianne Dumas – O setor da saúde contabiliza, sozinho, na França, cerca de 12% dos casos de asma profissional. É o segundo setor de risco, depois das padarias. Os profissionais do ambiente hospitalar, enfermeiros, auxiliares, pessoal de limpeza, são particularmente atingidos. Daí a importância dos estudos realizados em ambiente hospitalar a respeito dos produtos de limpeza. Nos hospitais, esses últimos englobam os produtos destinados a limpar as superfícies, mas também aqueles destinados a limpar os instrumentos e ferramentas médicas. Sua utilização é necessária no cotidiano para proteger os pacientes e as equipes de trabalho das contaminações. Essa limpeza, no entanto, deve acontecer sem que haja risco para a saúde respiratória das pessoas. Pois bem, os estudos levados a efeito em ambiente hospitalar mostram que os enfermeiros e os auxiliares asmáticos expostos aos produtos de limpeza e desinfetantes sofrem via de regra um agravamento das suas asmas. Outros estudos ainda estão sendo feitos para se avaliar se existe risco também para as pessoas não asmáticas, mas essa possibilidade existe.

Quais são os produtos mais particularmente responsáveis por esse agravamento?

As associações com a asma foram mais frequentemente observadas com a utilização do amoníaco, dos produtos muito clorados como as águas sanitárias, e dos produtos apresentados em forma de spray, o que aumenta a inalação das substâncias neles contidas. Não possuímos ainda dados para conhecer os produtos e os agentes químicos especificamente relacionados e o seu modo de ação. É também preciso dizer que na constituição desses produtos existem muitas centenas de agentes diferentes.

Vocês conseguirão melhorar o que já sabem sobre os agentes químicos que apresentam riscos?

Empreendemos os nossos maiores esforços nesse sentido. Particularmente, estamos desenvolvendo um aplicativo para smartphone que nos permitirá conhecer a composição exata dos produtos de limpeza utilizados pelos participantes dos estudos. Esse aplicativo permitirá o escaneamento dos códigos de barra desses produtos utilizados e responder a um curto questionário, para informar, por exemplo, a sua frequência de utilização. Esse aplicativo poderá ser utilizado tanto em ambientes profissionais quanto domésticos.

Vocês analisaram o impacto dos produtos destinados à lavagem das mãos?

Sim. Devido à alta frequência de utilização desses produtos, lançamos um estudo específico. Sobretudo, analisamos os riscos ligados à utilização de desinfetantes para as mãos, mas também os braços e os antebraços, por exemplo antes e depois da permanência em uma sala operatória. O estudo ainda não foi publicado, mas os primeiros resultados sugerem um aumento bem perceptível dos sintomas da asma.

Esses estudos já acarretam modificações nos modos de utilização dos produtos?

Alguns hospitais já adotaram medidas para evitar os produtos de risco e os substituir por outros. Mas isso nem sempre é fácil porque trata-se sempre de se manter um nível ótimo de desinfecção hospitalar. Em revanche, os estabelecimentos estão cada vez mais conscientes dos riscos para as pessoas que neles trabalham. Esses profissionais não devem ter nenhuma hesitação em consultar o médico do seu trabalho se começarem a apresentar sintomas respiratórios.

As conclusões desses trabalhos sobre os produtos de limpeza e desinfecção podem ser úteis na vida cotidiana e doméstica das pessoas?

Certamente. Embora sejam necessários estudos ainda mais aprofundados para que possamos estabelecer medidas de prevenção mais bem adaptadas, certas precauções podem ser recomendadas. É melhor banir os produtos apresentados em forma de spray. Segundo, a mistura de produtos aumenta os riscos para o aparelho respiratório. É portanto mais razoável utilizar um único produto por vez, sobretudo nos espaços confinados como, por exemplo, o banheiro. Por fim, é prudente abrir as janelas quando utilizamos produtos de limpeza.

* Orianne Dumas é a encarregada de pesquisas na unidade Inserm 1168/université Paris 11-Paris Sud - Universidade Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, laboratório Vima.