Asma. Viver próximo aos animais, a arma secreta dos Amish
Menos de 5% das crianças da comunidade Amish, nos Estados Unidos, apresentam algum tipo de afecção do aparelho respiratório que pode ser conectada a processos asmáticos. Comparada à média nacional norte-americana que é de cerca 10%, esse número chamou a atenção de pesquisadores que procuraram descobrir as suas causas. Os estudos confirmaram o interesse que existe de se estar em contato regular com animais de fazenda durante a infância.
Por: Equipe Le Figaro
Os Amish constituem uma comunidade religiosa tradicional norte-americana muito ligada a um estilo de vida rural, bastante simples, respeitoso de padrões que existiam no país nos idos do século 18 e 19. Os Amish, por exemplo, quase não usam carros, preferindo carroças e charretes movidas a cavalo. As mulheres usam saias longas e toucas. Subsistem graças a atividades rurais, praticadas no entanto sem a utilização de ferramentas e máquinas modernas. As comunidades Amish nos estados Unidos contam com cerca 300 mil membros, e fascinam pelo seu estilo de vida muito anacrônico. Mas, se seus hábitos parecem totalmente fora de época, eles apresentam pelo menos uma vantagem: seriam exatamente esses hábitos que protegeriam os membros da comunidade contra a asma e as moléstias a ela correlatas. É o que revelou há poucos dias o New England Journal of Medicine.
Para chegar a essa conclusão, os autores compararam duas comunidades tradicionais muito similares: os Amish, que vivem no estado de Indiana, e os Hutteritas, que vivem no Dakota do Sul. A principal diferença que existe entre elas é justamente quanto aos seus métodos de trabalho: os Amish vivem em fazendas de gado leiteiro nas quais utilizam cavalos como meio de transporte e de tração animal para os trabalhos do campo; os hutteritas, por seu lado, utilizam ferramentas e máquinas modernas para explorar suas fazendas comunitárias prevalentemente agrícolas (assim sendo, estão menos em contato direto com animais).
Quanto ao mais, o modo de vida dessas duas comunidades é muito parecido. Eles têm ancestrais genéticos comuns (imigrantes da Europa Central), vacinam seus filhos e seus regimes alimentares, calcados naqueles das fazendas tradicionais germânicas, são similares. Ambas bebem leite cru e amamentam os bebês.
Poeiras que protegem contra a asma
Apesar dessas importantes similitudes, as taxas de incidência de asma e doenças respiratórias correlatas são muito diferentes: apenas 5% das crianças em idade escolas sofrem de processos asmáticos entre os Amish, ou seja, a metade da média nacional norte-americana. Mas, bem diferentemente, as crianças hutteritas conhecem taxas muito elevadas, de cerca 21,3%.
“Há pouco mais de 10 anos, nossa colega Erika von Mutius descobriu que crescer em uma fazenda pode proteger a criança contra a asma”, lembra Carole Ober, coautora do estudo, professora de genética humana na Universidade de Chicago. “Nosso estudo mostra que não é o simples fato de viver em uma fazenda a coisa mais importante nessa questão. Encontramos razões mais precisas quanto aos fatores que podem realmente proteger contra a asma”. A diferença está no tipo de poeiras que existem no interior das casas das pessoas. As poeiras encontradas nas casas dos Amish “são mais ricas em produções microbianas”, salienta o estudo. “Nem as casas dos Amish nem as dos Hutteritas são sujas. Elas são limpas. Mas no entanto as granjas, currais e criadouros dos Amish estão mais próximas das casas e as crianças transitam entre elas e dentro delas o tempo todo, com frequência descalças. Não existe, aparentemente, nenhuma sujeira nas casas dos Amish, mas a poeira está no ar”.
E é nessa poeira que cresce o sistema imunológico das crianças capaz de combater a asma. Os exames de sangue feitos com 30 crianças Amish e outras 30 hutteritas, com idade entre 7 a 14 anos, mostraram que os primeiros possuíam muito mais células cruciais para combater as infecções, conhecidas pelo nome de neutrófilos. Ao mesmo tempo, essa mesmas crianças possuíam menos células que desencadeiam reações alérgicas (eosinófilos).
“Esperamos que nossas descobertas permitirão a identificação de substâncias pertinentes que abrirão o caminho que nois levará a novas estratégias para prevenir a asma e as alergias”, conclui Erika von Mutius, professora no hospital universitário de Munique, Alemanha, que é também coautora do estudo.