Até goianos eram fichados pelo Deops de São Paulo
Nem Ronaldo Caiado, ex-presidente da UDR e um dos expoentes do DEM, escapou dos arapongas; figuras como Pedro Ludovico, fundador de Goiânia, Alfredo Nasser, Iris Rezende, Henrique Santillo, Aldo Arantes, Pinheiro Salles, Irapuan Costa Jr., Euler Ivo e Darci Accorsi foram vigiados
Renato Dias
Do Diário da Manhã, de Goiânia
Nem Ronaldo Caiado, o enraivecido ex-presidente da União Democrática Ruralista (UDR) e que disputou a eleição à presidência da República em 1989, escapou da vigilância do extinto Departamento Especial de Ordem Politica e Social (Deops), de São Paulo. É o que apontam sete prontuários disponibilizados na internet pelo arquivo do Estado de SP.
Os documentos registram que ele era idealizador e coordenador nacional da UDR, braço político armado dos proprietários de terras. “Destacou-se na neutralização dos invasores de terras na região do Pontal do Paranapanema [ estado de São Paulo]”, relata uma de suas fichas. Além de brigas com PT, CUT e CPT, existem críticas ao Palácio do Planalto.
Os arapongas informam que em 21 de janeiro de 1987 ele atacou o então presidente da República, José Sarney (PMDB). “O governo não tem credibilidade para falar em pacto social”, discursou o médico e líder dos fazendeiros. Os seus passos eram monitorados de perto pelos órgãos de informação, apesar do fim da ditadura civil e militar (1964-1985).
Ex-senador e ex-governador de Goiás, Henrique Antônio Santillo, ex-membro do “velho MDB”, possui dois registros no acervo aberto à consultas. O primeiro é de 26 de agosto de 1993 e conta sobre a sua nomeação para o Ministério da Saúde pelo presidente da República à época, Itamar Franco, que havia sido seu aliado nos tempos do Senado.
O Deops (SP) revela também que Santillo, um dos “irmãos coragem” à época do regime civil e militar, teria exonerado o presidente da Central de Medicamentos (CEME), organismo vinculado ao Ministério da Saúde, Fernando Dubeux, e o seu chefe de gabinete, Ramiro Luca, por suposta compra irregular sem licitação do medicamento Zidovudina.
Quem estava na mira da repressão política era o ex-prefeito de Goiânia cassado em outubro de 1969 Iris Rezende Machado. Prontuários mostram que ele teria participado da composição do Diretório Nacional do PMDB. A data do registro é de 5 de dezembro de 1983. Não custa lembrar: o peemedebista havia assumido, dia 15 de março do mesmo ano,o Palácio das Esmeraldas.
A suposta recusa em abençoar o projeto presidencial do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia mereceu anotações nos arquivos do Deops (SP). Data: 5 de junho de 1994. O acervo sob a guarda do Arquivo do Estado de São Paulo aponta ainda eventual abertura de inquérito contra Iris Rezende Machado. Mas não dá detalhes do processo.
O professor de Filosofia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade Católica de Goiás (UCG), Darci Accorsi, que já havia exercido os mandatos de vereador na Capital e deputado estadual, é chamado de “prefeito de Goiás”. O dossiê 079 registra acusação de suposto enriquecimento ilícito, superfaturamento de obras e de falsificação de Diário Oficial.
Alfredo Nasser, senador, morto em 1965, tem prontuário no órgão: P-4102. Morto em acidente automobilístico em Porto Alegre (RS) no ano de 1973, o goiano James Allen Luz, que participou de um sequestro de avião desviado para Havana, Cuba, em 1970, é registrado pelo número 00075865. Ele era integrante da Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares.
Preso em São Paulo, o atual presidente da Associação dos Anistiados do Estado de Goiás, Elio Cabral, possui registro: 147.063. Jornalista preso por nove anos durante a ditadura civil e militar, Antônio Pinheiro Salles é fichado como professor secundário, com residência à Rua Marquês de Pombal, 1.610, Porto Alegre. Ele era membro do Partido Operário Comunista.
Ex-presidente do PT (GO), ex-deputado estadual e ex-integrante do Governo Luiz Inácio Lula da Silva, o doutor em Ciências Políticas Athos Magno Costa e Silva aparece fichado com um dos sequestradores de um avião desviado para a ilha dos irmãos Castro. Estudante de Medicina em Belo Horizonte (MG), ele era dirigente do Colina e depois da VAR-Palmares.
De linhagem comuista, o então carbonário Tarzan de Castro possui extensa folha no Deops (SP). A sua ficha inicial é de 29 de agosto de 1966. Filho de Joaquina de Castro e de Elpídio de Castro, é apontado co natural de Alto Araguaia (MT). Um de seus prontuários faz referência explícita à subversiva uruguaia Maria Cristina Uslenghi Rizzi, sua mulher no período.
Sob o número 31.155, Maria Cristina Uslenghi Rizzi, que nasceu em Montevidéu, Uruguai, teria o codinome de Jurema da Silva Costa. Nos anos de chumbo, ela ficou presa ao lado de uma estudante de Economia que usava óculos [de fundo de garrafa] chamada Dilma Vana Rousseff Linhares, na Torre das Donzelas, ala das presas políticas dos militares.
Atual secretário de Cultura do Governo do Distrito Federal, Hamilton Pereira da Silva, nascido em Porto Nacional (à época, Goiás), teria o nome de guerra de Antônio Sagrete. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização de luta armada fundada por Carlos Marighella, poeta e revolucionário baiano, foi beneficado pela lei 6.683 de 1979 (Anistia).
Assessor no Congresso Nacional, o ex-presidente do PT (GO), jornalista Athos Pereira da Silva, irmão de Hamilton Pereira da Silva (ex-preso político) e de Dagmar Pereira da Silva, exilada, teria o codinome de Eládio casanovas. O seu prontuário é número 123.456. O seu “aparelho” estaria instalado à Rua Álvaro Carbova, 22, apartamento 608.
Alinhado com o bloco de poder civil e militar que deflagrou o golpe de Estado de 31 de março de 1964, o ex-governador de Goiás (1974-1978) Irapuan Costa Júnior, atual colunista do semanário Jornal Opção, de Goiânia, teria sido alvo de investigação de Fernando Lyra, no Senado, por suposta irregularidades cometida na Casa de Leis.
O Deops (SP) revela que Pedro Ludovico Teixeira, então senador do MDB de Goiás, em relatório de 1 de outubro de 1969, teve os seus direitos políticos cassados com base no Ato Institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968. Exilado na Europa, o ex-líder estudantil e atual professor de Jornalismo da UFG, Juarez Ferraz da Maia, possui prontuário: 6548.
Um dos principais líderes secundaristas das revoltas do ano de 1968, em Goiânia, o então diretor da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), Euler Ivo Vieira, que preside, hoje o PC do B em Goiânia, foi denunciado, segundo consta em acervo do Arquivo do Estado, sob a acusação de pertencer à Ação Popular (AP), que anos depois iria se incorporar ao PC do B.
Dirigente do PT Estadual e ocupante de cargo federal em Goiás, Erotides Borges é fichado no órgão de segurança paulista. Ele aparece como membro de uma brigada internacionalista que se deslocou para a Nicarágua Sandinista, como voluntário, para ajudar na colheita do ano. Ex-VAR-Palmares, integrou ainda o Comitê Goiano pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita.
Um milhão de documentos já podem ser consultados de forma irrestrita. Basta acessar o site www.arquivoestado.sp.gov.br/memoriapolítica e digitar o nome do perseguido pela repressão política ou da organização da qual ele era integrante. O acervo colocado à disposição corresponde a apenas 10% do conteúdo do antigo órgão de informação estatal.
Documentos não revelam onde estão desaparecidos
Os documentos disponibilizados pelo Arquivo do Estado de São Paulo não revelam as circunstâncias das prisões, nem dão dados sobre as supostas torturas a que foram submetidos os desaparecidos políticos e muito menos apontam os locais onde estariam seus restos mortais. É o que apurou o Diário da Manhã.
O Deops (SP) possui registros do goiano Divino Ferreira de Souza, que nasceu em Caldas Novas, mas morreu, em outubro de 1973, na guerrilha do Araguaia (1972-1975). “Fez curso de guerrilha na Academia Militar de Pequim, na China Comunista”, relata o prontuário do guerrilheiro do PC do B.
No acervo constam também rastros do ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) Honestino Monteiro Guimarães. Nascido em Itaberaí (GO), ele é apontado como líder estudantil em Brasília (DF). “Participante de todas agitações naquela cidade”. Mais: é acusado de pertencer à Ação Popular (AP).
“Terrorista e integrante da ALN”. Assim é classificado, no prontuário 145.401, o estudante de Economia Márcio Beck Machado, que participou do Congresso da UNE em Ibiúna, no mês de outubro de 1968. A revelação descoberta no acervo é que os agentes da repressão o registraram como “falecido”.Ele morreu em Goiás:1973
Maria Augusta Thomaz, estudante de Filosofia, teria tido a sua prisão decretada em 15 de janeiro de 1970. Em anotação no dia 29 de março de 1972, o prontuário diz que ela fez curso de guerrilha em Cuba. Já em outubro de 1972 é condenada a 17 anos de prisão. Em 1 de fevereiro de 1972, sua prisão é solicitada.
Codinome Osvaldo, Rui Vieira Berbert, estudante e operário, segundo o Deops (SP), atuava em São Paulo e integrara o Grupo Tático Armado (GTA) com Carlos Eduardo Pires Fleury, o Fleurizinho. Terrorista: essa é a sua qualificação. Ele morreu, nos anos de chumbo, em Goiás, atual Estado do Tocantins.
Oswaldo, Aurélio, Arnaldo, Maurício, Henrique, Antônio Carlos: esses, anota o Deops (SP), eram os codinomes do estudante “terrorista” Jeová de Assis Gomes, que teria feito “atividades subversivas em Goiânia (GO)”. O jornal O Estado de S. Paulo de 13 de janeiro de 1972 conta que ele morreu em Goiás.
Quem possui duas fichas, no amplo acervo do Deops (SP), é o advogado, com treinamento de guerrilha em Cuba, Paulo de Tarso Celestino, membro da coordenação nacional da ALN. Não há registro ainda do estudante do Colégio Lyceu de Goiânia, Marcos Antônio Dias Batista, desaparecido no mês de maio de 1970.
Pelé, Hebe e Casagrande investigados
Sob a lógica da guerra fria (1945-1991), agentes públicos dos órgãos de segurança da ditadura civil e militar (1964-1985) investigaram o Rei Pelé, Edson Arantes do Nascimento, tricampeão mundial de futebol (1958, 1962 e 1970).
Um registro de 30 de novembro de 1993, oito anos após a instalação da Nova República e a volta dos militares para os quartéis, relata que Pelé teria afirmado que ao tentar comprar os direitos do Brasileirão lhe pediram US$ 1 milhão “por fora”.
No Deops (SP) há ficha até de Monteiro Lobato. O documento aponta os nomes de seus pais José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Monteiro Lobato.Profissão: advogado. Idade: 58 anos. Data de nascimento: 18 de abril de 1882. Estado civil: casado.
Craque do Corinthians (SP) e da seleção mágica brasileira de 1982, Sócrates era vigiado com frequência. O seu dossiê relata participação em comício pelas Diretas Já. Médico, foi um dos arquitetos do projeto libertário da “Democracia Corintiana”.
Atacante do escrete canarinho, Walter Casagrande tem extensa ficha no Deops (SP): por motivações políticas e por suposto consumo de drogas ilícitas. Casão, como era chamado o hoje comentarista da Globo, teria apoiado até a “Nicarágua”.
Religiosa, Madre Maurina Borges é fichada como “banida”. Ela deixou o Brasil em uma troca com o cônsul japonês no País, Nobuo Okuchi, “sequestrado”– Daniel Aarão Reis fala em captura - em 11 de março de 1970, em São Paulo, por um comando revolucionário.
Capitão da guerrilha da VPR, VAR-Palmares e do MR-8, Carlos Lamarca é registrado como “ex-militar”. Dossiê de Carlos Marighella traz cópias dos livros do comunista em francês - Pour La Liberatión Du Brésil –e italiano:Guerriglia Urbana in Brasile
Zé Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP) possui dez fichas. Preso em 1968, ele foi exilado após a soltura do embaixador dos EUA Charles Burke Elbrick:1969.
Aldo Arantes, ex-presidente da UNE, é fichado como vice-líder do PMDB. Existem relatos de seu encontro com Marco Maciel (PFL-PE) e de uma audiência com o então presidente da República, José Sarney. É apontado como membro da AP e depois do PC do B.
Os arapongas monitoraram shows de Gonzagão e Gonzaguinha, em 1980: pai e filho. O Deops (SP) acompanhou a volta do exílio do cantor e compositor de protesto Geraldo Vandré. Hebe Camargo é acusada de ser consumidora do “pó do sonho”. (R.D.)
Saiba mais
Para entender o regime civil e militar
31 de março de 1964: fardados e civis derrubam o presidente João Goulart e implantam uma ditadura. À sombra da guerra fria, a estratégia era desagregar o bloco-histórico populista e levar os interesses multinacionais e associados à direção do Estado.
As tropas de Mourão Filho desceram a serra sem um só tiro ou protesto. Jango teria voado com o general Assis Brasil para a Fazenda Rancho Grande, em São Borja. Depois, com Maria Thereza e seus filhos, tomou um C-47 e aterrissou para o exílio: Uruguai.
O primeiro general-presidente a entrar em cena foi Castello Branco. Ele queria um ato institucional que durasse apenas três meses. “Assinou três”. Queria que as cassações se limitassem a uma ou duas dezenas: cassou quinhentas pessoas e demitiu 2 mil.
O seu governo durou 32 meses,23 dos quais sob a vigência de 37 atos complementares. O general Castello Branco foi o cérebro do golpe de 1964. Ele era o líder da Sorbonne militar, composta, por exemplo, de Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.
Para o brasilianista Thomas Skidmore, o movimento civil e militar de 1964 ocorreu com dez anos de atraso e nunca atingiu o seu objetivo: desmantelar a estrutura estatal e sindical corporativista montada por Getúlio Vargas (1930-1945 e 1950-1954).
“O golpe ia ser dado em 1954, mas falhou por causa do suicídio de Vargas”. Não foi uma quartelada, mas uma ação de classe traçada tática e estrategicamente pelas elites orgânicas do capital transnacional, analisa René Armand Dreiffus.
Em A Conquista do Estado (1982), Editora Vozes, o cientista político uruguaio René Armand Dreiffus afirma que Ipes, Ibad e ESG consideravam o Estado como instrumento de um novo arranjo político e de um “novo modelo de acumulação”.
História: as articulações contra João Goulart começaram antes de sua posse. Mais: se intensificaram a partir do plebiscito que decretou a volta do presidencialismo, em janeiro de 1963, e tomaram as ruas após o anúncio das reformas de base.
Sucessor de Castello Branco, Costa e Silva decreta o Ato Institucional nº5 em 13 de dezembro de 68.Vice, Pedro Aleixo foi impedido de assumir o Palácio do Planalto. Depois de um breve exercício da Junta Militar, Garrastazu Médici chegou ao poder.
Em 1977, Ernesto Geisel, que havia executado a partir de 1974 a distensão lenta, gradual e segura, baixa o Pacote de Abril. João Figueiredo é abençoado pela caserna no ano de 1978 e o Congresso Nacional aprova a Lei da Anistia, em 1979.
Os exilados retornaram ao Brasil e os presos políticos deixam os cárceres. A ditadura acabou em 15 de março de 1985. Já Daniel Aarão Reis diz que a ditadura acaba, de fato, em 1979. Para ele, de 1979 a 1988 há, no Brasil, um período de transição.
A democracia no Brasil, depois de 21 anos de ditadura civil e militar (1964-1985), só se consolida com a remoção do legado constitucional autoritário e a promulgação da Constituição de 5 de outubro de 1988, sob a Nova República.
