Avenida Paulista ganha ciclovia e coloca São Paulo na tendência mundial

Depois de muita polêmica e campanha contra, o prefeito Fernando Haddad (PT) inaugura neste domingo a ciclovia na principal via da capital paulista, colocando a cidade no mapa mundial da mobilidade; implantação "é considerada um divisor de águas na bicimobilidade brasileira, pois tende a escancarar a demanda (atual e reprimida), com cidadãos circulando ininterruptamente de bicicleta em uma das avenidas mais famosas do país", escreve Willian Cruz, do movimento VádeBike

Depois de muita polêmica e campanha contra, o prefeito Fernando Haddad (PT) inaugura neste domingo a ciclovia na principal via da capital paulista, colocando a cidade no mapa mundial da mobilidade; implantação "é considerada um divisor de águas na bicimobilidade brasileira, pois tende a escancarar a demanda (atual e reprimida), com cidadãos circulando ininterruptamente de bicicleta em uma das avenidas mais famosas do país", escreve Willian Cruz, do movimento VádeBike
Depois de muita polêmica e campanha contra, o prefeito Fernando Haddad (PT) inaugura neste domingo a ciclovia na principal via da capital paulista, colocando a cidade no mapa mundial da mobilidade; implantação "é considerada um divisor de águas na bicimobilidade brasileira, pois tende a escancarar a demanda (atual e reprimida), com cidadãos circulando ininterruptamente de bicicleta em uma das avenidas mais famosas do país", escreve Willian Cruz, do movimento VádeBike (Foto: Gisele Federicce)

SP 247 - Depois de muita polêmica e campanha contrária ao projeto, a Prefeitura de São Paulo inaugura neste domingo 28 a ciclovia da Avenida Paulista, colocando a cidade no mapa mundial da mobilidade. Os ciclistas se encontraram logo cedo na Praça do Ciclista para a festa de inauguração que estava marcada para as 11h. Por conta da inauguração, a avenida será fechada hoje para carros.

Para Willian Cruz, líder do movimento Vá de Bike, a implantação da estrutura "é considerada um divisor de águas na bicimobilidade brasileira, pois tende a escancarar a demanda (atual e reprimida), com cidadãos circulando ininterruptamente de bicicleta em uma das avenidas mais famosas do país". Leia abaixo seu texto, publicado no site do movimento no último dia 23:

A importância da ciclovia da Avenida Paulista

WILLIAN CRUZ 

Organizada coletivamente por meio de mobilização popular no Facebook, a festa popular de inauguração da ciclovia da Av. Paulista está deixando muita gente ansiosa. A inauguração acontece em 28 de junho, com os cidadãos se encontrando na Praça do Ciclista a partir das 8h (Paulista x Consolação). A avenida será aberta às pessoas a partir das 10h da manhã, com restrição aos carros em toda sua extensão, exceto no cruzamento com a Av. Brigadeiro Luis Antonio, para permitir que os ônibus desse eixo continuem cruzando a via. A estrutura já vem sendo usada por algumas pessoas desde o dia 18, quando retiraram parcialmente os tapumes que isolavam a obra. A ansiedade é tanta que muita gente quis "comer um brigadeiro antes dos parabéns". ;)

A festa atrairá pessoas de outras cidades e até de outros estados, que percebem que esse será um momento histórico na mobilidade por bicicletas do Brasil e se sentem parte dessa conquista. E não é à toa: no mês de março, quando uma ação do Ministério Público Estadual de São Paulo tentava barrar a construção dessa e de todas as outras ciclovias da cidades, com o pedido inclusive de que a obra em andamento fosse desfeita, irmãos de pedal de todo o país se uniram para protestar contra essa arbitrariedade, que representaria um retrocesso gigantesco tanto em termos de política cicloviária quanto de proteção à vida. "Vai ter ciclovia", gritamos todos, unidos em São Paulo e em mais de 45 outras cidades no Brasil e no mundo. Só em São Paulo mais de 7 mil pessoas foram às ruas na noite de 27 de março, quando por fim o Tribunal de Justiça de São Paulo derrubou a liminar que proibia a continuidade das obras de ciclovias na capital paulista.

Essa conquista é, merecidamente, de todos, não só dos paulistanos. A implantação dessa estrutura, em uma avenida de grande visibilidade e com histórico de várias mortes de ciclistas, é considerada um divisor de águas na bicimobilidade brasileira, pois tende a escancarar a demanda (atual e reprimida), com cidadãos circulando ininterruptamente de bicicleta em uma das avenidas mais famosas do país. Espera-se que em poucos meses haja um fluxo maior que o da Av. Faria Lima, uma ciclovia de grande utilização em São Paulo. Há ainda a expectativa de que essa visibilidade incentive avanços na mobilidade ciclística em cidades de todo o Brasil, ao mostrar que proteger a vida do ciclista e estimular o uso da bicicleta são medidas importantes para o crescimento ordenado das cidades, não só pelos efeitos diretos na mobilidade quanto nos benefícios para os indivíduos,para a economia, para a saúde pública, o comércio e até o turismo (veja 18 razões para apoiar a implantação de ciclovias e 12 bons motivos para adotar a bicicleta em seus deslocamentos).

A ciclovia da Avenida Paulista irá ajudar muita gente que pedala na cidade ou pretende fazê-lo. É esperada há muitos anos pelos cidadãos que utilizam bicicleta em São Paulo, muito mais do que o tempo da atual gestão. Certamente seu uso superará todas as expectativas dentro de poucos meses, principalmente com a criação das conexões que irão alimentá-la.

Conquista dos cidadãos

Ao contrário do que pensam os que a consideram um "delírio autoritário" do atual prefeito, a ciclovia na avenida símbolo da cidade é uma demanda antiga dos ciclistas de São Paulo e é considerada uma das maiores conquistas do cicloativismo paulistano. A via já estava incluída em planos cicloviários da cidade desde, pelo menos, 2008, sem contudo ser implantada – o que mostra, mais uma vez, que planejamento sempre foi feito, o que faltava era colocar em prática alguma parte de todos esses estudos.

Foi nesta avenida que perdemos Márcia Prado, em 2009, Juliana Dias, em 2012, e Marlon Moreira de Castro, em 2014, após serem atropelados por motoristas de ônibus, além do caso de David Santos, que teve seu braço levado ao ser atropelado por um motorista embriagado e quase veio a óbito na ocasião, sendo ressuscitado por massagem cardíaca pelo estudante de Publicidade Thiago Chagas dos Santos, de 26 anos, que passava pelo local.

A Paulista já foi palco de um sem número de Bicicletadas (que ocorrem mensalmente na avenida), Pedaladas Peladas, passeios do Dia Mundial Sem Carro e muitas outras manifestações por um trânsito mais seguro. Uma delas foi realizada em resposta ao atropelamento de David, com a afixação de um braço de plástico simbólico no canteiro central, e acabou resultando na primeira reunião de ciclistas com um prefeito na história da cidade e, por consequência, na primeira campanha de respeito ao ciclista veiculada na TV na cidade e na decisão de colocar em prática o plano de 400 km de ciclovias.

Não à toa, ciclistas comemoraram o início das obras, em janeiro, com uma divertida "pajelança", com direito a champanhe (ou espumante, como queiram), sal grosso e folhas de arruda. Veja em vídeo.

Quando uma ação do Ministério Público suspendeu a implantação das ciclovias em 2015, uma manifestação com mais de 7 mil pessoas lotou a avenida de bicicletas e foi ecoada em dezenas de cidades do Brasil e do Mundo, pedindo continuidade da implantação de ciclovias na cidade. A suspensão foi derrubada em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

Opositores

Algumas figuras públicas se posicionaram contrárias a essa ciclovia, como o vereador Andrea Matarazzo (PSDB), que chegou a afirmar que "se faz de tudo para os ciclistas e se esquece dos carros". O vereador também afirmou que o canteiro central era "essencial para a segurança de pedestres e motoristas", dando a entender que a ciclovia colocaria em risco a vida de quem dirige. Devido à repercussão negativa de suas declarações, Matarazzo posteriormente mudou de opinião, passando, ao menos no discurso, a ser favorável à estrutura. Mas continua criticando o plano de 400 km de ciclovias com base em fotos de obras em andamento (mesmo depois de concluídas) e de problemas pontuais, o que tem gerado críticas em seu perfil no Facebook. Uma das fotos utilizadas pelo vereador, por sinal, é propriedade intelectual do Vá de Bike e foi utilizada sem autorização, tendo nosso logotipo cortado da imagem.

A Associação Paulista Viva também contestou a construção da ciclovia, alegando serem necessários "estudos mais aprofundados", para que a intervenção possa "atender a todos os cidadãos de forma justa". Entre outros questionamentos, apontou uma suposta "descaracterização da ideia de boulevard" da avenida.

Apesar da importância da estrutura ter sido destacada com unanimidade em Audiência Pública na Câmara Municipal de São Paulo, em novembro de 2014, a ação do Ministério Público Estadual, na qual a promotora Camila Mansour Magalhães da Silveira pedia interrupção da implantação das ciclovias, também exigia que a obra dessa avenida fosse interrompida – o que foi negado pela justiça, apesar da suspensão temporária dos trabalhos em outros locais da cidade. A interrupção foi fortemente criticada por diversos setores da sociedade e culminou em uma manifestação com milhares de pessoas, apoiada por dezenas de cidades em todo o mundo, sendo finalmente suspensa pelo TJ-SP.

A imprensa tradicional também se posicionou contrária à implantação em diversos momentos. Dois exemplos marcantes foram a matéria da revista Veja questionando o custo das obras e esta reportagem da Globo (entre várias outras), reclamando sobre a "tinta" da ciclovia.

Por que a ciclovia da Paulista é importante?

Segundo dados da CET, a Paulista é a via com mais acidentes com ciclistas por quilômetro em São Paulo – um título nada agradável para a avenida que representa a cidade. Uma de suas esquinas também é considerada, historicamente, a líder de atropelamentos de pedestres na cidade, com a sinistra alcunha de "esquina da morte".

Apesar da falta de receptividade dos motoristas, muitas pessoas passam em bicicletas pela avenida, principalmente no horário de pico da tarde. Uma contagem fotográfica realizada pela Ciclocidade em 2010 registrou 733 ciclistas na avenida em um espaço de 16 horas. A média de 52 ciclistas por hora equivale a praticamente uma bicicleta por minuto, mesmo sem haver ciclovia ou qualquer outro tipo de sinalização no local. E isso há cinco anos. De lá para cá, a quantidade de pessoas utilizando a bicicleta em seus deslocamentos na cidade cresceu a olhos vistos.

Mas se a bicicleta não é bem aceita pelos motoristas na avenida, por que ainda assim tanta gente resolve passar pedalando por ali? Para responder a essa pergunta, é importante entender que as pessoas raramente saem de casa para passear na Paulista de bicicleta. Quase sempre trafegam ali para chegar a algum lugar – como os motoristas que ali estão. E para muita gente esse é o melhor caminho quando se está de bicicleta, por ser o mais curto e mais plano.

O eixo do "espigão", que vai do Jabaquara à Pompeia, é relativamente plano, com um desnível irrisório e bem distribuído ao longo de seus mais de 13 km de extensão. Qualquer rota alternativa implica em muitas subidas e em aumento da distância percorrida – o que todo ciclista que está realizando um deslocamento sem intenção de treino costuma evitar.

Paralelas

Por mais que se peça, incentive ou obrigue a circulação de ciclistas nas vias paralelas, muita gente continuaria utilizando a Paulista para se deslocar em bicicleta, por dois motivos que se complementam: aclives e falta de segurança viária. Como a questão dos aclives é bastante clara, comentaremos apenas a questão da segurança.

Na Alameda Santos, o principal problema está nos trechos de subida, onde motoristas embalados pela descida anterior e acelerando livremente devido à falta de fiscalização se tornam impacientes com qualquer veículo em baixa velocidade à sua frente. Numa situação como essa, os maus motoristas buzinam, forçam passagem, passam perto demais e fecham o ciclista, principalmente por se tratar de uma via com menos faixas de rolamento e veículos estacionados, que dificultam as ultrapassagens.

No sentido oposto, no trecho inicial, relativamente plano, há presença intensa de ônibus. Além de virarem à direita ao chegar na Brigadeiro, as faixas mais estreitas e em menor número dificultam aos motoristas dos coletivos a realização de ultrapassagens. Parte deles acaba forçando a passagem, com o veículo de várias toneladas a centímetros do ciclista, geralmente com velocidade alta devido à ligeira descida. Um risco fortíssimo de atropelamento e morte.

Além do aumento do esforço físico e da distância ao adotar esses trajetos paralelos, as situações de risco com carros e ônibus assustam e afastam os ciclistas dessas vias. Por isso, muitos se sentem menos seguros nessas paralelas do que na avenida principal.

Saiba mais a respeito da escolha da principal e não das paralelas nesta videorreportagem de Rachel Schein.

É curioso que muitas das pessoas que sugerem aos ciclistas que peguem as vias paralelas com aclives sejam as mesmas que alegam haver subidas demais em São Paulo para que a bicicleta seja adotada.

As grandes avenidas costumam ser construídas em regiões de fundo de vale ou sobre "espigões". Isso faz com que as paralelas geralmente tenham aclives, tornando a avenida principal o caminho mais plano, reto e geograficamente adequado a quem usa a bicicleta.

Em uma cidade para pessoas, esses caminhos seriam priorizados para pedestrianismo e meios movidos a propulsão humana, deixando o ônus dos aclives para quem só precisa pisar em um pedal ou torcer uma manopla para vencê-los.

Não adianta insistir para que o ciclista escolha outro trajeto: quem se desloca usando um meio que dependa de esforço físico (a pé, bicicleta, skate, patins e outros) tende sempre a buscar o caminho mais curto e plano. É isso o que também faz as pessoas atravessarem fora da faixa de pedestres, por exemplo, quando utilizá-la implicaria em um deslocamento de dezenas de metros.

São escolhas lógicas, naturais e compreensíveis, que devem ser aceitas e protegidas pelo poder público, além de previstas e incentivadas por quem planeja a infraestrutura viária e o meio urbano, tornando a cidade mais amigável e segura para quem for a pé ou de bicicleta e incentivando os deslocamentos sustentáveis, que fazem bem para as pessoas e para as cidades.

É curioso que muitas das pessoas que sugerem aos ciclistas que aumentem seu trajeto para desviar da avenida Paulista sejam as mesmas que alegam que as grandes distâncias na cidade são um impeditivo para que a bicicleta seja adotada.

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